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Pereirinha a partir de Coppens


Rik Coppens, atualmente com 78 anos, é um dos nomes famosos da história do futebol belga – 21 golos em 47 internacionalizações pelos Diabos Vermelhos. Num total de 389 jogos no campeonato pelo Beerschot - o clube onde mais tempo atuou na sua carreira - marcou 258 golos. Trinta e cinco destes golos foram apontados na época 1952/53, período em que se sagrou melhor marcador das ligas europeias.

Coppens tinha 16 anos quando debutou no campeonato belga. O cenário da estreia permitia tudo menos uma atitude relaxada, uma vez que o Beerschot entrava nessa derradeira partida da época com a obrigação de vencer para evitar a despromoção. O resultado final foi um triunfo por 4-2, que possibilitou ao clube da cidade de Antuérpia alcançar o seu objetivo, e a exibição do teenager foi notável: dois golos e duas assistências. Porém, o grande momento da carreira de Coppens só chegou uns anos mais tarde.

A 5 de Junho de 1957, na etapa de qualificação para o Mundial da Suécia, a Bélgica defrontou a Islândia, no Heysel, em Bruxelas. A tarefa foi tão fácil para a seleção da casa que, ao intervalo, o resultado era já de 7-1. A descontração dos belgas era notória e um dos melhores exemplos ficou registado numa célebre jogada do avançado Rik Coppens, que não só era conhecido pelos seus dribles, como também pelo seu temperamento irascível e imprevisível. O árbitro assinalou penalty a favor da Bélgica, o craque do Beerschot tomou balanço para o cobrar, mas, quando os islandeses esperavam o remate à baliza da marca dos 11 metros, Coppens surpreendeu-os, optando por tocá-la suavemente para o lado direito. A jogada estava combinada: André Piters entrou na grande área, antecipou-se à saída rápida do guarda-redes islandês, devolveu a bola a Coppens e este ficou com caminho aberto para reforçar a goleada. 


Castigar a irreverência

Vinte e cinco anos depois deste “penalty”, em 1982, Johan Cruijff protagonizou um lance semelhante com o auxílio de Jesper Olsen, numa partida entre os holandeses do Ajax e do Helmond Sport. Embora tenhamos a certeza de que não é o verdadeiro detentor da patente (em bom rigor, se calhar até Coppens não o será), Cruijff, devido a uma maior carga mediática, ficou conotado como o principal autor deste género específico de execução de grandes penalidades. De qualquer modo, a palavra-chave para desenvolver um lance destes é mesmo “irreverência”. E não tenham dúvidas que foi esse cariz irreverente – traduzido na determinação em subverter a estática do futebol - que amplificou o talento de Cruijff ou do próprio Coppens.

Na última semana, durante a partida entre Portugal e Cabo Verde a contar para o Torneio Internacional da Madeira, o capitão português Bruno Pereirinha tentou, em conjunto com Rui Pedro, marcar um golo semelhante ao de Coppens e Cruijff. O placar assinalava uma vantagem de 2-0 para Portugal aos 84 minutos, mas o desfecho do “penalty” foi péssimo – o defesa cabo-verdiano antecipou-se e intercetou a bola. No final do encontro, o selecionador dos sub-21 portugueses, Rui Caçador, considerou sobranceira a atitude de ambos, dizendo mesmo que “se o fizessem diante da Espanha, Alemanha ou Itália, se calhar felicitá-los-ia pela coragem” e que “não é em jogos fáceis que se faz isso”. Como medida punitiva, Carlos Queiroz, na qualidade de responsável máximo pelas seleções, ordenou a exclusão de Bruno Pereirinha e de Rui Pedro dos restantes jogos do Torneio.





Mas afinal o que se ganhou com essa punição? Para além de títulos na imprensa e de protagonismo falhado em matéria de disciplina, tenho dúvidas que tenha servido para alguma coisa. Sou o primeiro a concordar que o lance foi muitíssimo mal planeado, mas não é por isso que devemos ficar com uma imagem negativa dos dois jogadores e vê-los excluídos dos outros dois desafios. Pelo contrário, é perfeitamente aceitável que apareçam estas tentativas raras de fugir à rotina, de criar lances distintos e de fazer com que o indivíduo que paga bilhete se sinta minimamente realizado ao presenciar algo que ainda o surpreenda. Porquê considerar isto um ato insolente e humilhante para com o adversário?

A verdade é que Portugal ainda tem alguma dificuldade em tolerar a irreverência e essa coisa estranha chamada livre expressão. Obviamente que, por muito que admire o gesto técnico, não sou da opinião de que Ricardo Quaresma deva fazer 50 trivelas por jogo. Porém, há maneiras de conciliar esses tais espaços de expressão de talento individual com os objetivos coletivos, sem ter de recorrer a medidas drásticas.

Pensemos, então, até que ponto este tipo de punição que Queiroz aplicou não pode ser encarado como um princípio perverso na condução do moral de um jogador? É desse modo que devemos lidar com aqueles que falham por se terem sentido especialmente confiantes e de não terem tido medo numa dada circunstância? Por terem mostrado um certo tipo de iniciativa e de liberdade a que os seus treinadores talvez não queiram habituar-se? Questionem-se também por que razão é que nos momentos decisivos em competições internacionais é bastante frequente as equipas portuguesas serem dominadas pela supremacia psicológica de alguns adversários? Em si, o “penalty” de Pereirinha não dá respostas a todas estas questões. Contudo, as consequências daquele lance não deixam de ser uma excelente oportunidade de introspeção e de tentar perceber de que massa somos feitos na altura de desenvolver uma mentalidade ganhadora.


Luís Catarino
foto: Ilhapress

» 2009-03-28
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