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Europeu sub17 / Bélgica 2007

Os prisioneiros do 4-3-3


Uma vitória (2-1 com a Alemanha), um empate (2-2 com a Ucrânia) e uma derrota (0-2 com a Espanha) foi o saldo dos franceses antes de atingirem as meias-finais, onde perderam com a Inglaterra (0-1). O facto de a França não ter chegado à final não é assim tão surpreendente, tendo em conta a notória falta de soluções. Fundamentalmente ao nível da criatividade. Se compararmos esta França de François Blanquart com, por exemplo, a de Philippe Bergeroo que venceu o troféu em 2004 (com Nasri, Menez, Ben Arfa ou Benzema), verifica-se uma grande diferença em termos de capacidade geral de improvisação. Ainda assim, foi possível descobrir alguns bons talentos nos Bleuets de Blanquart.


Ausência de Mehamha e a rigidez do 4-3-3

François Blanquart não pôde contar com o lesionado Said Mehamha neste Euro sub17. Médio-defensivo do Lyon e habitual capitão da selecção, Mehamha é um dos mais influentes jogadores desta geração e foi também devido à sua ausência que o 4-3-3 da França se apresentou relativamente preso.

Assim, sem Mehamha, a França desenvolveu um triângulo invertido no meio-campo: N’Diaye como vértice recuado e Benzerga (esquerda) e M’Vila (direita) como médios interiores. Analisemos, de forma breve, cada um dos médios titulares que aproveitaram a ausência do capitão.


Alfred N’Diaye - uma força da natureza

Um dos jogadores que mais chamou a atenção neste Euro sub17. É simplesmente incrível a pujança que este jovem médio-defensivo do Nancy coloca em campo. Teve um papel de grande destaque como vértice recuado no meio-campo, e, quando necessário, foi incansável no momento do pressing alto. Dada a prisão de movimentos da equipa no processo ofensivo, por vezes foi N’Diaye, como que em desespero, a pegar na bola e conduzi-la até ao ataque (com uma técnica bem razoável). No jogo com a Alemanha, foi impressionante como correu, de forma enérgica, todas as zonas do campo para recuperar a posse de bola. Sem que as pilhas dessem sinal de fraquejar. Uma força da natureza com um bom passe de média distância.


Yann M’Vila – o melhor do meio-campo

À falta de um organizador de jogo puro - como Fran Mérida (Espanha) ou Georginio Wijnaldum (Holanda) -, Yann M’Vila foi o principal responsável pela tentativa de sucesso das transições ofensivas da França. O Primeiro Toque considera, aliás, que, a par de Damien Le Tallec, M’Vila foi o jogador francês com melhor rendimento na competição - curiosamente, ambos pertencem ao centro de formação do Rennes. É certo que a França foi, na maior parte das ocasiões, algo previsível nas etapas de construção de jogo e denotou a carência de um jogador com características próximas das de um “dez”. Contudo, é prioritário elogiar o desempenho de M’Vila, que foi quem deu mais garra e elasticidade ao jogo ofensivo da França. Mesmo no complicadíssimo confronto inaugural frente à Espanha - em que os comandados de Santisteban se superiorizaram a meio-campo de forma inequívoca -, ele foi o que mais tentava desequilibrar, através da boa capacidade de condução de bola pela faixa central. M’Vila não é um jogador excepcional em nenhum atributo, mas é bom em quase todos os que se exigem a alguém na sua posição. O seu equilíbrio faz dele um excelente médio-interior com vocação de transição. Refira-se que a sua ausência, devido a castigo, na meia-final, esteve, de forma muito directa, na origem da derrota francesa. Mais que não fosse pelo facto de o seu substituto no onze ter sido o limitado Riff.


Omar Benzerga – o menos vistoso

Pertence ao Lille, tal como a estrela belga Éden Hazard. Omar Benzerga actuou como interior-esquerdo, sendo o médio titular com menor influência na mecânica da equipa. Defesa/médio de cariz técnico e com boa estrutura física, precisava de ser menos macio na marcação. Nota-se que tem bom toque de bola, mas foi tímido e pouco incisivo nos desdobramentos ofensivos. Pareceu um pouco desenquadrado e passivo na maioria dos lances.


Le Tallec – o jogador mais evoluído

François Blanquart apresentou um 4-3-3 com alguma rigidez. Sem jogadores que pudessem conferir uma considerável dose de criatividade na fase de definição ofensiva, a equipa nem sempre foi capaz de criar desequilíbrios no ataque. Com dois defesas-laterais pouco colaborantes nas subidas ao meio-campo adversário, os extremos raramente tiveram apoios nos desdobramentos ofensivos. Contudo, o deficit atacante permitiu-nos descobrir um talento de elevado potencial que foi forçado a lutar com bravura face a todas as adversidades – o evoluído avançado-centro Damien Le Tallec.
No difícil desafio inaugural frente à Espanha (e também nalguns momentos do jogo com a Inglaterra), o meio-campo francês não teve a mínima hipótese de transportar a bola para o último terço do campo. O bloco espanhol era demasiadamente forte e a estratégia dos médios gauleses passava, muitas vezes, pelo uso de lançamentos longos para Damien Le Tallec. Ostentando um porte físico de relevo para um futebolista deste escalão, Le Tallec ganhou imensas bolas pelo ar, recuou para receber jogo em linhas mais baixas e tentava funcionar como pivot de distribuição para os extremos Bourgeois e Saivet. Além da notável capacidade de protecção de bola, roda com facilidade e tem uma boa condução de bola. No jogo com a Alemanha já não teve que procurar tanto os espaços exteriores e aí conseguimos ver um avançado com uma presença mais sólida na grande área (buscando espaços para finalizar e menos altruísta). Uma curiosidade: Damien é irmão mais novo de Anthony Le Tallec, que já jogou no Liverpool e que marcou, no passado mês de Maio, um dos golos na vitória do Sochaux na final da Taça de França.


O fato-de-macaco de Bourgeois e a interrogação à volta de Saivet

Não destoando da ideia laboriosa de Blanquart, os dois extremos tiveram muitas preocupações a fechar os espaços defensivos na linha do meio-campo. Thibault Bourgeois e Henri Saivet trocavam frequentemente de flancos, mas a tendência mantinha-se – controlo do respectivo espaço defensivo e desdobramento ofensivo com poucos apoios e pouca iniciativa individual. O lutador Bourgeois é, de facto, um jogador muito voluntarioso e é escusado pedir-lhe para defender porque esse é o seu primeiro instinto. Extremo algo previsível no drible e pouco qualificado na finalização, Bourgeois tem, no entanto, um bom cruzamento com o pé esquerdo, apesar de ser destro. Tem boa noção dos espaços a ocupar, mas tem de dar mais profundidade no momento ofensivo.

Já o futebol de Henri Saivet levanta mais dilemas, precisamente pelas contradições exibidas. Extremo habilidoso com uma incrível capacidade de explosão, Saivet revelou, todavia, algumas falhas de coordenação – por exemplo, na condução de bola, dando a sensação de que a velocidade de raciocínio não acompanhava a velocidade da corrida. Tem mais apetência para percorrer as zonas centrais do que Bourgeois e remata bastante bem com o seu pé direito. Só tem é de ser mais… refinado. De outra forma, este jogador do Bordeaux irá vulgarizar-se.

Suplente em todos os jogos, Vincent Acapandie foi utilizado no lado direito do meio-campo. Tem uma boa capacidade técnica e, não fosse o rígido conceito de 4-3-3 que Blanquart preconiza, talvez Acapandie (Auxerre) merecesse mais minutos.


Os defesas-centrais (Saunier e Sakho)

Sofreram um pouco com os deslizes dos defesas-laterais, mas, no cômputo geral, tiveram um bom desempenho. Mathieu Saunier é o típico defesa-central que joga com elegância, com um recorte técnico acentuado. Porém, nem sempre se mostrou suficientemente prático para resolver os lances. O seu parceiro foi Mamadou Sakho, que, na ausência de Said Mehamha, foi o capitão da selecção. Encarregava-se das jogadas mais físicas (jogo aéreo, fundamentalmente) e, de facto, não podemos dizer que é daqueles que emana mais classe. Se bem se recordam, Sakho, esquerdino, fez dupla com Rozehnal no onze titular do PSG de Paul Le Guen frente ao Benfica, no Parque dos Príncipes.


Os defesas-laterais (Seguin e El-Kaoutari)

O ponto mais fraco do 4-3-3 de Blanquart. Ambos os defesas-titulares revelaram frequentes falhas no posicionamento defensivo e pouca qualidade de jogo para fazer a diferença no momento ofensivo. Foi bastante notória a forma trémula e pouco confiante em como Nicolas Seguin (Lyon) e El-Kaoutari (Montpellier) encaravam os lances de 1v1, quer defensivos, quer ofensivos. O defesa-direito Aristote Lusinga ainda foi titular no primeiro desafio, frente à Espanha, em detrimento de Seguin. Porém, passou um mau bocado perante a velocidade de Isma e Krkic e não voltou à equipa titular.


Luís Catarino


» 2007-05-14
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