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Europeu sub17 / Bélgica 2007

O toque de Krkic


De todas as equipas desta edição do Euro sub17, e apesar da forte concorrência inglesa, os espanhóis foram quem claramente apresentou mais recursos. O 4-2-3-1 de Juan Santisteban revelou consistência máxima no equilíbrio entre linhas e só a expulsão do defesa-central Pichu quase ditava a eliminação da Espanha nas meias-finais frente à Bélgica. Contudo, foi precisamente nesse encontro que ficámos a conhecer de que matéria é Bojan Krkic realmente feito.


Camacho & Ximo – a base da consistência do 4-2-3-1

A dupla de médios-centro é o grande pilar da ordenação táctica do 4-2-3-1. Ignacio Camacho e Ximo revelaram muita mecanização nas dobras entre si e foram o principal garante de um bloco coeso. Na verdade, o capitão Camacho foi mesmo um dos melhores jogadores da prova. No confronto inaugural com a França, começou mais tímido, mas à medida que o grau de decisão foi aumentando, também o nível de desempenho do jogador foi evoluindo favoravelmente – Camacho foi, na opinião do Primeiro Toque, o melhor em campo contra a Bélgica (meia-final, onde posteriormente viria a jogar como defesa-central face à expulsão de Pichu) e contra a Inglaterra (final). Aguerrido no desarme e com boa qualidade técnica para a distribuição de jogo, mostrou igualmente uma elevada concentração, o que lhe valeu inúmeros roubos de bola e intercepções (pelo chão e pelo ar). Muito possivelmente, este é o maior talento da cantera do Atlético de Madrid desde Fernando Torres. Tem, de facto, qualidade individual para vir a ser um belo médio-defensivo no futebol europeu.

Na fase inicial de construção de jogo, Camacho foi, geralmente, o primeiro a reclamar a bola aos elementos da defesa para distribui-la aos atacantes. Contudo, não podemos dizer que Ximo esteve totalmente alheado dessa tarefa. É certo que não tem a mesma capacidade de iniciativa ofensiva que tem Camacho, mas esse também não era o seu principal papel dentro de campo. O voluntarioso Ximo é, sobretudo, um jogador de combate, de resistência física, de choque. Importante no pressing médio/alto e a caçar as segundas bolas, Ximo foi também utilizado numa marcação mais rígida do adversário – não deixou jogar o craque inglês Moses e supervisionou a zona de Danny Rose, por exemplo. Tem a particularidade de ser o marcador de cantos e livres indirectos em forma de cruzamento do lado esquerdo (tem pé direito). Actua no Valencia e, apesar do seu estilo de jogo menos atraente, podem ter a certeza que foi um dos elementos mais importantes da conquista deste Euro sub17.


Morgado

Já vimos a forma em como Camacho e Ximo ajudaram a Espanha a dominar os adversários no meio-campo, mas uma boa parte desse mesmo domínio e fortalecimento do bloco proveio do trabalho dos defesas-laterais. Assim, haverá necessidade de destacar o defesa-esquerdo basco Alberto Morgado. Desenvolvido nas escolas do Alavés, Morgado é um defesa seguro, com bom posicionamento. Inclusivamente, quando tinha de fechar o espaço central do meio-campo no momento em que a equipa adversária atacava pelo eixo, revelou boa leitura e não perdeu a noção do espaço. Nesse aspecto, Morgado foi um pouco mais consistente que Moisés e Nacho – estes dois jogadores foram alternando entre si a posição de lateral-direito, embora Nacho, destro, também tenha substituído Morgado na lateral-esquerda (contra a Alemanha).


Três canhotos na linha atacante predominante do meio-campo

A linha atacante predominante do meio-campo apresentou três canhotos na equipa principal (Iago Falqué, Fran Mérida e Ismael López). Conheçamos cada um deles.

Ismael López

Já que falámos em Morgado, é obrigatório darmos a conhecer outra figura basca desta selecção: Ismael López, jogador com uma fabulosa aceleração no corredor esquerdo ou central. Nesta temporada, o seu treinador na equipa de juniores do Athletic foi Julen Guerrero, que havia abandonado a carreira de jogador para abraçar uma etapa como técnico. Na famosa academia de Lezama, Isma é mais reconhecido como avançado-centro. Todavia, a presença de Bojan Krkic aconselha Santisteban a colocar Isma mais frequentemente como extremo-esquerdo. Ideal para conferir mobilidade ao ataque espanhol, pois quando Krkic cai no lado esquerdo Isma avança pelo centro com velocidade. Não foi, no entanto, titular na final contra a Inglaterra devido às excelentes provas dadas pelo versátil Lucas Porcar na meia-final com a Bélgica.

Fran Mérida

Evolui em campo com alguma sobranceria, mas é, indiscutivelmente, muito bom jogador, com uma forte personalidade. Médio-ofensivo com grande visão de jogo e qualidade técnica, também sabe gastar energias para recuar e não partir o bloco. Aos 16 anos, já havia seguido o exemplo de Fàbregas em rumar de Barcelona a Londres para vestir a camisola do Arsenal. Especialista em livres directos e cantos.

Iago Falqué

Na final frente à Inglaterra actuou como extremo-esquerdo, mas não foi essa a sua posição predominante neste Euro sub17. Nas partidas anteriores, Iago Falqué começou sempre como extremo-direito, embora com muita tendência para traçar diagonais interiores e aparecer no espaço central. Essas diagonais foram movimentos habituais no jogo de Falqué, pois torna-se muito mais perigoso para o adversário quando se desloca do flanco para a zona central tendo em vista o drible ou remate com o pé esquerdo. No jogo com a Alemanha, perante as ausências de Isma e Krkic do onze inicial, Falqué assumiu a liderança quase total na definição ofensiva. É uma das pérolas das escolas da formação do Barcelona.


Bojan Krkic – talento de nível mundial

Máquina goleadora na cantera do Barcelona, o internacional espanhol Bojan Krkic (nascido na Catalunha e filho de pai sérvio) demonstrou porque é comummente considerado um dos maiores talentos do futebol mundial da actualidade. Possui um arranque absolutamente brutal e facilmente deixa para trás os seus marcadores directos quando decide driblar ou acelerar com a bola controlada. Uma das coisas em que Krkic mais nos seduz é na forma em como quer ganhar cada lance. É um lutador. Foi essa determinação que, por exemplo, originou aquele brilhante golo do empate frente à Bélgica, com um tiro frontal, de fora de área, a dez minutos do fim, numa partida em que os espanhóis estavam em inferioridade numérica - foi, possivelmente, o momento mais espectacular de toda a competição.

Tal como referimos anteriormente, Isma trocou várias vezes de posição com Krkic, de forma a conferir mais mobilidade no ataque. Krkic, destro, tem já bastante enraizado o hábito de receber a bola no flanco esquerdo e partir em diagonal para o centro. Depois, é esperar que a velocidade de execução decida o desfecho do lance. Note-se também que, apesar da baixa estatura, tem imensa força e aguenta muito bem as cargas dos adversários.

Frank Rijkaard já o utilizou na equipa principal no recente particular contra os egípcios do Al-Ahly (marcou um dos quatro golos dos catalães), juntamente com o mexicano Giovani dos Santos, companheiro de Krkic na equipa B do Barcelona. Talento de nível mundial, que joga para a equipa e assume a tomada de decisões nos momentos mais críticos do jogo.


O “suplente” de ouro (Lucas Porcar)

É o tipo de jogador que qualquer treinador gostará de ter no seu plantel. De facto, é também por causa do desempenho de Lucas Porcar que a Espanha pode, hoje, congratular-se pelo título de campeã europeia sub17. Na meia-final frente à Bélgica, desafio no qual o defesa-central Pichu foi expulso e em que as coisas estavam mal encaminhadas, Porcar substituiu Falqué e correu todo o lado direito. De tal forma que nem se deu pela desvantagem numérica. A boa exibição, e a consequente vitória nos penalties após o grande golo do empate apontado por Krkic, valeu-lhe a titularidade na final e essa foi mais uma oportunidade para demonstrar atributos, tais como a excelente resistência física a exercer o pressing e a capacidade para sair para o ataque em velocidade. Pela direita ou pelo meio. Bom jogador, este jovem do Espanyol.


De Egea

David de Egea foi o guarda-redes do Euro sub17 que mais se destacou. Mostrou elasticidade, concentração e foi rápido a tomar decisões – um dos jogadores com melhor desempenho na final com a Inglaterra. Tal como o médio-defensivo Camacho, pertence ao Atlético de Madrid.


Luís Catarino


» 2007-05-14
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