Criaram-se expectativas demasiado elevadas em redor de Portugal neste Euro 2007 e a selecção lusa acabou por não corresponder com um desempenho desejável (apenas uma vitória). A transferência de Nani para Manchester e, em geral, a conjunção de alguns “talentos de nomeada” forçaram a imprensa a colocar metas bem altas a José Couceiro.
Especialmente no início e no fim da competição, pode ter havido falhas de comunicação por parte da equipa técnica no modo em como foi gerindo a abordagem dos jornalistas face aos resultados “negativos”. No entanto, após uma análise mais pormenorizada, também será necessário valorizar o excelente trabalho defensivo, quer dos belgas, quer dos italianos. Em relação ao jogo com a Holanda – o único que acabou em derrota no tempo regulamentar – houve, de facto, alguns detalhes que influíram no desfecho final.
Os quatro jogosBélgica: Apesar da proximidade com o país anfitrião do Euro e da menor ansiedade que isso poderia causar nos jogadores belgas, a equipa orientada por De Sart demonstrou algum receio no início do jogo inaugural. Facto compreensível, pois Portugal tinha alguns dos maiores talentos do futebol europeu e um deles (Nani) até tinha acabado de se transferir para Manchester por uma quantia avultada, o que causa sempre impacto no adversário. No entanto, a elevada agressividade e a forma em como os belgas viriam a conjugar o seu poderio físico com uma boa articulação no momento de clausura, complicou imenso a tarefa de Couceiro na batalha do meio-campo. Uma rotinada teia de recuperadores constituída por quatro torres – os defesas-centrais Vermaelen e Lombaerts e os médios-defensivos Vertonghen e Fellaini –, bem como pela fera Blondel e pelo todo-o-terreno Vanden Borre, a juntar aos poucos espaços dados por De Roover a Nani, são factos que não podem ser esquecidos. Tem que se admitir que também a Bélgica tinha os seus talentos. Talentos esses à medida de um estilo agressivo no enclausuramento dos espaços, mas com perfeita adequação às pretensões de De Sart.
Holanda – O receio de Drenthe e quebra do 4-3-3Couceiro tinha a noção de que Drenthe ia causar perigo pelo flanco esquerdo da Holanda e colocou o stopper Amoreirinha a defesa-direito, em detrimento, por exemplo, de João Pereira. Logo aos quatro minutos, Amoreirinha viu o cartão amarelo por falta necessária sobre Drenthe e era quase óbvio que aquela tinha sido uma opção pouco cuidada por parte da equipa técnica portuguesa. Obviamente, não é pelo facto de se colocar um defesa-central naquela posição que se tem melhores resultados na marcação, seja individual, ou à zona. Se Amoreirinha – que não é, de todo, adequado para a função - fosse ao homem, nunca o conseguiria parar no 1v1. Se desse espaço, não tinha velocidade para o acompanhar. Por esse motivo Couceiro apostou de início em Ruben Amorim para ajudar a defender o flanco. Contudo, isso implicou a saída de um extremo e causou a quebra dos automatismos no 4-3-3, verificando-se, agora, uma gritante falta de profundidade ofensiva nas alas: João Moutinho confundido entre o papel de organizador no eixo e o de interior-direito, sendo Nani o único jogador realmente válido para ganhar um dos flancos. Sem conseguir fazer campo grande e circular a bola, Hugo Almeida saiu frequentemente da zona do ponta-de-lança e os portugueses, incluindo Nani, começaram a jogar fora das posições e zonas naturais onde individualmente teriam mais possibilidades de obter um melhor rendimento. Houve um penalty não assinalado por falta de Jong-a-Pin sobre João Moutinho dentro da grande área holandesa, mesmo em cima do intervalo. Erro da equipa de arbitragem com possível influência no resultado, é um facto. Todavia, Portugal tem as suas próprias responsabilidades por ter abdicado do seu sistema táctico usual. E pelo penalty infantil cometido pelo precipitado Paulo Ribeiro sobre Rigters.
Israel – o passeioA equipa técnica portuguesa ainda estava com as orelhas a arder, mas havia esperanças de apuramento para as meias-finais. Para isso, Portugal tinha, não só de bater Israel, como também de esperar por uma vitória holandesa sobre a Bélgica. Portugal dominou claramente e não teve problemas em esmagar os israelitas por 4-0. Couceiro voltou ao 4-3-3, com Vaz Té a surgir como extremo-direito, Nani partindo com facilidade do lado esquerdo, enquanto Ruben Amorim voltou para o banco de suplentes, tal como Amoreirinha, que viu João Pereira ganhar-lhe a titularidade. A troca de bola a um/dois toques funcionou em pleno e a fatigada e desorientada selecção de Israel não teve capacidade para acompanhar o ritmo acelerado dos portugueses. Exibição irrepreensível, mas perante um adversário que, já não sendo muito capaz do ponto de vista táctico e técnico, se apresentou muito desgastado fisicamente. O pior para Couceiro foi o resultado do outro jogo do grupo, que fez com que Portugal terminasse em terceiro lugar e disputasse com a Itália uma vaga nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.
ItáliaSem poder contar com Hugo Almeida devido a castigo, Couceiro alinhou com Vaz Té e Varela no onze titular, alternando entre si as posições de ponta-de-lança e de extremo-direito. Tal como no desafio frente à Bélgica, Portugal teve naturais dificuldades na fase de definição ofensiva, pois os italianos defenderam muitíssimo bem à zona e utilizar a estratégia de lançamentos longos não era a mais conveniente em virtude da ausência do possante avançado do Werder Bremen. João Moutinho bem se esforçou para construir jogadas com sentido, mas os atacantes, em geral, foram bastante irregulares e estiveram pouco concentrados. Nani começou, uma vez mais, encostado ao lado esquerdo tendo em vista as típicas flexões interiores, onde ele é muito forte. No entanto, a marcação apertada de Motta e a atenção de Nocerino e Montolivo nas dobras dificultaram o trabalho de Nani. A unidade mais influente do ataque português não contou, também, com a dinâmica que se esperava de Varela e Vaz Té (e Yannick Djaló) e houve alguma precipitação na definição dos lances. Registe-se igualmente a pouca colaboração dos defesas-laterais no meio-campo adversário, pois Rosina e Rossi posicionavam-se inteligentemente nas costas de Antunes e João Pereira, evitando que estes subissem pelos respectivos flancos. Depois da expulsão de Rossi, a Itália deu ainda mais expressão ao enclausuramento defensivo.
O dono da grande áreaEmbora com a camisola do PSV, foi uma das melhores revelações portuguesas em 2006/7, reforçando essa ideia, de forma inequívoca, neste Euro sub-21. Manuel da Costa, 21 anos, dominou a grande área com visível superioridade em praticamente todos os minutos em que actuou. Como (único) ponto mais negativo do seu desempenho, ficou ligado ao segundo golo da Holanda – imperdoável descontracção na marcação, tanto de Manuel da Costa, como de João Pereira, que teve preguiça em acompanhar o sprint de Drenthe. Este foi, de facto, o único senão porque, de resto, todos os pormenores evidenciados por Manuel da Costa foram espectaculares. Defesa-central com extraordinária impulsão e timing nas intercepções, quase não perdeu um lance dividido. Tem facilidade em sair com a bola controlada e conjuga essa capacidade técnica com a dose certa de agressividade no confronto com o adversário directo.
Ao seu lado esteve um mais discreto Semedo, pujante defesa-central que, sob empréstimo do Sporting, jogou a última temporada no Cagliari com David Suazo. Terá, em 2007/8, no Charlton, uma oportunidade no futebol inglês que tão bem se ajusta ao seu estilo de jogo. Refira-se que Semedo, embora tenha marcado presença na edição anterior em Portugal, não disputou as partidas de qualificação para este Euro 2007. Ainda assim, esteve concentrado e não facilitou.
Um meio-campo com personalidade?Miguel Veloso realizou algumas partidas de apuramento para o Euro como defesa-esquerdo, mas, antes da competição, o supervisor Scolari, impressionado com os desempenhos do jogador no Sporting, sublinhou que pretendia estabilizá-lo na posição de médio-defensivo. José Couceiro colocou-o, assim, no meio-campo, como vértice mais recuado do triângulo com Manuel Fernandes e João Moutinho. Não sendo imponente no jogo aéreo, foi, nesse capítulo, bem auxiliado por Manuel da Costa, que muitas vezes subia dez metros para disputar as bolas altas a meio-campo.
Tanto Veloso como Moutinho revelam uma especial maturidade de jogo e conseguem prever a definição dos lances com alguma antecedência em relação aos adversários (e alguns colegas de equipa). No entanto, foi visível que faltou articulação colectiva para tirar o máximo proveito da qualidade dos jogadores portugueses. Médios com personalidade, mas meio-campo sem personalidade.
Falta de articulação nas transições do blocoA falta de automatismos dos defesas-laterais com os médios e avançados da equipa foi um problema sério na evolução de jogo de Portugal. No jogo inaugural com a Bélgica, Couceiro terá entendido que Antunes estava fatigado (trabalhara antes com a selecção-A) e apostou em José Gonçalves que, apesar de possante fisicamente, não é muito esclarecido do ponto de vista técnico. Uma vez que Gonçalves não passava a linha do meio-campo, Couceiro seleccionara o mais ofensivo Filipe Oliveira para o lado direito, de modo a conferir alguma assimetria no desenho táctico português. No entanto, Filipe Oliveira revela pouca convicção nessa posição e já no Marítimo tinha dado a entender isso mesmo.
Couceiro trocou de defesas-laterais no jogo com a Holanda, trazendo Amoreirinha (direita) e Antunes (esquerda), pois o último poderia trazer mais acutilância ofensiva, além do facto de Gonçalves ter-se lesionado com a Bélgica. Já referimos acima que o problema que houve na lateral-direita com Drenthe e com a alteração da estrutura nasceu com a inclusão de Ruben Amorim num meio-campo a quatro. Portugal abdicou do 4-3-3 e a equipa não se mostrou preparada para se adaptar às circunstâncias. Entre Amoreirinha e Filipe Oliveira, João Pereira era, apesar de tudo, a melhor opção. Com a Holanda, entrou já com Portugal em desvantagem. Em relação a Israel, o adversário apresentou-se muito desnivelado e tudo deu certo. Perante a Itália – de volta ao confronto com equipas fortes - não se aventurou com receio de Rossi.
Em geral, não verificámos a articulação desejada entre os vários sectores da equipa. Manuel Fernandes e João Moutinho deram uma ajuda importante a Miguel Veloso na recuperação de bolas, mas talvez se exigisse que os defesas-laterais também improvisassem no momento defensivo. Designadamente com uma aproximação mais regular à zona central para que Manuel Fernandes e João Moutinho tivessem mais tempo para antever o lançamento para o ataque. No fundo, que as suas tarefas não fossem excessivamente destinadas à cobertura, como acabou por acontecer. Individualmente, nada há a destacar em relação aos médios portugueses. Manuel Fernandes esteve bem a colocar a bola verticalmente e se é um facto que perdeu algum tempo com duelos individuais desnecessários, também é verdade que os apoios não chegaram da melhor maneira, não havendo, consequentemente, condições para exercer um futebol mais prático.