Ter alcançado as meias-finais foi um óptimo prémio para a esforçada selecção belga. A actuar em casa, Bob Browaeys apresentou um conjunto relativamente forte do ponto de vista da motivação e da disponibilidade física, mas, exceptuando o caso de um/dois jogadores, deixou transparecer algumas limitações técnicas. Especialmente no trabalho defensivo. Após um segundo lugar no grupo B, que, além da líder Inglaterra (1-1), incluía as entretanto eliminadas selecções da Holanda (2-2) e da Islândia (5-1), a Bélgica foi derrotada nas meias-finais frente à Espanha - depois de terminado o prolongamento em 1-1, Maurizio Aquino e Dimitri Daeseleire falharam as respectivas grandes penalidades.
Daeseleire, um bravo capitãoDe todos os jogadores da selecção belga, Dimitri Daeseleire era aquele que não merecia uma associação mais directa com a eliminação nas meias-finais. No desempate por penalties, o defesa-direito belga não conseguiu bater De Egea e permitiu que a Espanha jogasse a final do Europeu com a Inglaterra. É um defesa relativamente baixo, mas com enorme bravura. Actualmente pertence ao Genk e ainda é bastante cedo para se dizer que vai atingir notoriedade no futebol belga a nível sénior. Contudo, fica desde já a marca da valentia de Daeseleire neste Europeu sub17 – foi muito devido à sua garra contagiante que a Bélgica alcançou o empate frente à Inglaterra e deu tanta luta à Espanha. Como lado mais negativo fica aquela primeira parte contra a Inglaterra, em que Daniel Rose lhe criou imensos problemas.
Intermitência no 4-2-3-1 e o “versátil” De PauwA entrega de Daeseleire encaixou perfeitamente no estilo combativo que Bob Browaeys quis implementar na selecção belga. Mas há outros jogadores a ter em conta. Sebastien Phiri foi o baluarte da agressividade, às vezes preocupando-se mais em intimidar os adversários com entradas vigorosas do que propriamente em construir jogadas. De qualquer forma, Phiri, mal ou bem, ainda foi sendo capaz de perturbar as principais referências das equipas contrárias no momento das definições ofensivas. Já Laurens Spruyt e Cédric Ciza, sobretudo o último, mostraram-se passivos no pressing, dando, assim, mais tempo e espaço de acção aos adversários.
Face às evidentes dificuldades posicionais que a Bélgica denotava quando os dois médios-defensivos tinham de pressionar mais alto, Browaeys alterou várias vezes o 4-2-3-1 inicial para um 4-1-4-1 de características mais ofensivas, em que o médio-centro de auxílio a Phiri foi Nill de Pauw. Ora, a questão é que De Pauw é um jogador de ataque, que se sente mais à vontade a deambular no último terço do campo. Na esquerda, na direita, ou no apoio directo ao ponta-de-lança. Então por que razão colocá-lo como médio-centro com tarefas de recuperação? A verdade é que a selecção belga, apesar da notória disponibilidade em termos de resistência física, não tinha jogadores com estatura elevada para conquistar o espaço aéreo. Daí que De Pauw, um dos poucos jogadores relativamente altos do grupo e ao mesmo tempo um dos mais esclarecidos tecnicamente, tenha cumprido esta missão de sacrifício. Contudo, nas raras ocasiões durante este Euro sub17 em que De Pauw teve liberdade para frequentar as linhas mais adiantadas, foi visível a boa desenvoltura técnica deste jogador que apontou dois golos na prova.
Hazard: irreverência em estado brutoIndiscutivelmente o melhor jogador belga na competição. Actualmente com 16 anos, Eden Hazard mostrou ter uma dimensão de jogo bem acima dos colegas de equipa. É certo que De Pauw esteve sempre muito restringido pelo papel defensivo que Browaeys lhe destinou no meio-campo, mas o futebol de Hazard é muito superior ao de qualquer outro jogador da selecção. Recente aquisição dos franceses do Lille, este velocíssimo médio-ofensivo de baixa estatura tem uma tremenda capacidade de aceleração com a bola controlada no seu pé direito e um drible imprevisível e frenético. Nem sempre foi esclarecido na definição do último passe, mas tem tempo mais do que suficiente para melhorar esse aspecto.
O gigante BentekeComo vimos atrás, Bob Browaeys optou por utilizar De Pauw no centro do meio-campo, não só para providenciar maior capacidade de recuperação no espaço aéreo, mas também na circulação de bola. No entanto, como nem sempre Hazard conseguia escapar às marcações directas dos adversários e não havia mais elementos com suficiente capacidade de condução de bola e de pensar rupturas, a solução passava por colocar bolas longas no gigante Christian Benteke – ponta-de-lança de grande porte físico e capaz de segurar bem a bola na grande área, esperando a entrada em velocidade dos outros atacantes – a estrutura inicial do ataque belga contemplava um losango, com o pouco incisivo Guillaume François à direita e o já referido De Pauw à esquerda. Devido à sua impressionante estampa física, Benteke, também das escolas do Genk, foi um quebra-cabeças para todos os defesas que encontrou pela frente.
Um defesa-esquerdo goleadorO principal ponto negativo dos belgas foi mesmo o trabalho defensivo. Já foi referida a questão da falta de pressing a meio-campo (subtilmente solucionada com a colocação de De Pauw a interior-direito). Todavia, à frente do atlético guarda-redes Coppens nunca morou uma dupla de defesas-centrais (entre Geurden, N’Gombo e Hustinx) que conferisse inegável solidez. O pouco estético defesa-esquerdo Niels Ringoot, com propensão para aparecer no segundo poste em situações de bola parada, acabou por marcar dois golos na prova e, apesar de pouco dotado na condução de bola, esteve muito confiante em todas as acções.