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Europeu sub17 / Bélgica 2007

A Inglaterra liderada por Rose e Moses


Deu gosto ver esta Inglaterra de John Peacock. Juntando um forte condimento táctico a uma boa capacidade de desequilíbrio no ataque, os ingleses foram justos finalistas desta edição do Euro sub17 – vitórias no grupo B contra a Islândia (2-0) e Holanda (4-2) e empate com a Bélgica (1-1); também um triunfo na meia-final frente à França (1-0). Existem vários talentos para seguir com grande interesse nesta selecção inglesa e é sobre eles que o Primeiro Toque se vai debruçar.

John Peacock apresentou uma equipa muito evoluída a nível táctico, que soube jogar com qualidade, quer no mais equilibrado sistema-base de 4-2-3-1, quer num 4-1-4-1 de maior ocupação de espaços no ataque. Em ambos, houve um jogador que se destacou, fundamentalmente devido à elevada eficácia com que desempenhou posições/missões distintas. Falamos de Danny Rose – o melhor jogador deste Euro sub17, na opinião do Primeiro Toque.


Danny Rose – craque múltiplo

Um computador. É assim que apetece definir o excelente médio inglês Danny Rose, que tanto mostrou qualidade actuando junto ao flanco esquerdo, como no centro do meio-campo em tarefas mais defensivas – não se verificaram oscilações de rendimento nessas mudanças de posição. Canhoto de processos práticos, Rose é um jogador objectivo, de grande fibra e precisão. Cruza e remata muito bem e tem confiança e velocidade para executar o 1v1. É um jogador, diríamos, completo, que, quando também foi chamado a jogar no centro do meio-campo, fez uso da sua agressividade para desarmar/marcar o adversário. Manteve a eficácia no passe, a intensidade no pressing; no geral, foi feliz na tomada de decisões. Imprime dinâmica ao jogo colectivo.

O facto de a equipa principal do clube ao qual Rose pertence - o histórico Leeds United - ter descido à League One (terceira divisão do futebol inglês), pode precipitar a sua saída do clube de Yorkshire a curto/médio prazo. Afinal de contas, estamos a falar de um dos maiores talentos da actualidade na Velha Albion. Contando que fez apenas 17 anos no último mês de Julho…


O duplo-pivot inglês (Lansbury – Woods)

Grande parte da notável organização táctica do conjunto de Peacock passou pelos dois médios-centro que têm “residência” em Londres. E Henri Lansbury fez muito mais do que marcar um grande golo à Holanda (igual a um que já tinha apontado aos EUA em 2006). O jogador do Arsenal foi importante no controlo do meio-campo e soube conduzir as transições mais lentas com inteligência, além de que também apareceu algumas vezes no espaço de finalização no seguimento de movimentos verticais sem-bola (tem um excelente remate exterior). Lesionou-se no jogo com a França e, consequentemente, falhou a final com a Espanha.

A Inglaterra sentiu bastante a sua ausência na final e quem foi chamado a desempenhar o papel mais defensivo foi Michael Woods, o promissor médio que José Mourinho já estreou na equipa principal do Chelsea num jogo da Taça de Inglaterra (Macclesfield Town). Michael Woods tem mais poder físico (choque) do que Lansbury e o seu jogo influi mais no meio-campo adversário. É um jogador mais atlético, com boa progressão com a bola, mas sem tanta intuição defensiva para adivinhar os lances, que é uma das principais virtudes de Lansbury. Sublinhamos que o médio dos Gunners é um ponto de equilíbrio muito importante para jogar à frente da defesa. Sem ele, a Inglaterra não foi capaz de ajudar Victor Moses a sair da marcação apertada que estava a sofrer pelo espanhol Ximo. Mostrou boa articulação com Woods – quando o último subia, Lansbury jogava próximo das costas do jogador do Chelsea.


“Por aqui, não!”

Joe Mattock foi o melhor defesa-esquerdo da competição. Irrepreensível no comportamento defensivo, muito raramente permitiu que um adversário o ultrapassasse no seu flanco. Tem, igualmente, uma óptima saída para o ataque com a bola controlada ou no 2v1, demonstrando porque também vindo a actuar como médio-esquerdo na equipa principal do Leicester City desde Abril. Quer com Rose, quer com Porritt (médio-esquerdo do Middlesbrough com excelente pé esquerdo), Mattock ajudou a Inglaterra a apresentar um flanco esquerdo de grande nível neste Euro sub17. Ataca as bolas pelo ar com determinação e tira todo o proveito do excelente porte atlético.


Krystian Pearce

Ao lado de Mattock esteve um defesa-central muito seguro. Chama-se Krystian Pearce e é destro, facto que nem sempre facilitou no início do processo de construção de jogo. Aliás, na maior parte das vezes, víamo-lo alargar a sua posição de recepção para junto da linha esquerda (Mattock subia) e quando recebia a bola de Steele ou do capitão Spence entregava-a sempre a um dos médios-centro – o facto de não usar o pé esquerdo originava este tipo de passes interiores. Tranquilo no desarme e do alto do impressionante porte físico impôs um carácter dominante durante toda a competição. Marcou um golo frente à Islândia.


O lado direito

Um pouco envergonhado e frágil do ponto de vista físico, Daniel Welbeck não foi dos que causou melhor impressão no onze de Peacock. Jogou como extremo-direito e nunca conseguiu atrair a bola para o seu flanco, uma vez que o lado esquerdo, com Mattock, Rose ou Porritt denotava bastante mais consistência e actividade – Plummer jogou no seu lugar na meia-final contra a França. Ainda no que concerne ao lado direito do onze-base dos Três Leões, referência para o possante Nana Ofori-Twumasi, defesa-direito de grande potência que pertence ao Chelsea. Tem uma técnica muito razoável, o que lhe permite sair a jogar com relativa facilidade em situações de maior aperto. Não é fácil passar por ele.


O cocktail de estilos de Moses e a inteligência de Murphy

Não podíamos concluir a análise da equipa inglesa sem referir dois nomes essenciais no desempenho ofensivo da equipa: Moses e Murphy. Médio-ofensivo/segundo-ponta com grande volume de jogo pela faixa central, Victor Moses foi um dos jogadores com melhor desempenho em toda a competição, onde apontou três golos. Com uma grande capacidade técnica individual (sobretudo a simular e mudar de direcção), mistura o toque africano (nasceu na Nigéria) com uma notável personalidade e maturidade de jogo. Na final frente à Espanha não coordenou a definição atacante como se esperava, não só devido à melhor capacidade de marcação dos espanhóis, como também pela menor ordenação do meio-campo inglês face à ausência do pivot defensivo Lansbury e das implicações que isso originou na falta de profundidade lateral ofensiva. Apesar da fraca imagem dada na final, não há dúvidas de que é um talento a seguir com muita atenção no futebol inglês nos próximos anos. Joga actualmente nos londrinos do Crystal Palace.

Moses foi o principal dinamizador do ataque inglês e o seu target-man era Rhys Murphy, o ponta-de-lança da equipa. Tal como o português Rui Fonte (irmão mais novo do defesa-central José Fonte), Murphy é um dos avançados que o Arsenal tem vindo a desenvolver na equipa de reservas. Procura o espaço exterior e avança para os lances com objectividade. É bastante razoável no 1v1 e nota-se que pensa a conclusão dos lances com a devida antecedência.


Luís Catarino


» 2007-05-14
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