PESQUISA:
Primeiro Toque logotipo
Europeu sub21 / Holanda 2007

A Holanda de Foppe de Haan



Em pé: Waterman, Pieters, Kruiswijk, Maduro (c), Donk e Babel.
À frente: Zuiverloon, De Ridder, Drenthe, Bakkal e Rigters.


Israel (1-0; Maduro 10)
Portugal (2-1; Babel 33 pen., Rigters 75)
Bélgica (2-2; Rigters 13, Drenthe 37)
Inglaterra (1-1; Rigters 89; 13-12 g.p.)
Sérvia (4-1; Bakkal 17, Babel 60, Rigters 67, Bruins 87)

Foppe de Haan cumpriu o objectivo e revalidou o título que conquistou no ano passado em Portugal. Impulsionados pelo explosivo Drenthe, os holandeses, que contaram ainda com a qualidade técnica de Babel nos últimos trinta metros, desenvolveram um futebol difícil de ser travado. A 'Jong Oranje' passou, no entanto, por imensas dificuldades nas meias-finais, face a uma Inglaterra fortíssima que claudicou nos minutos finais do tempo regulamentar. O pontapé de bicicleta de Rigters levou o jogo para prolongamento, mas foi só depois de uma longuíssima série de grandes penalidades que a eliminatória ficou desempatada. Na final, a Holanda venceu os sérvios com muito mais facilidade e Rigters sagrou-se melhor marcador da competição, sucedendo, assim, a outro holandês: Huntelaar.


Babel – a nova réplica de Thierry Henry

O seleccionador holandês pode considerar-se um privilegiado por ter contado com estes dois avançados. Renunciando ao tradicional 4-3-3 holandês, De Haan construiu a equipa em redor de um 4-1-3-2. Sem extremos puros, mas com dois avançados-centro que se movimentam muito bem por todo o perímetro atacante - Maceo Rigters e Ryan Babel.

Jogador nascido em Amesterdão há 23 anos, Rigters demonstrou, de facto, possuir características para poder vir a ser um bom avançado de apoio ao ponta-de-lança (em 4-4-2), precisamente o papel inverso daquele que De Haan lhe destinou nesta Holanda, em que actuou quase sempre como o elemento mais adiantado. É um avançado rápido e lutador, que, apesar de não ter uma estatura elevada, tira o máximo proveito da sua potência física para ombrear com toda a linha de defesas adversários. Interpretou na perfeição o desdobramento ofensivo da equipa, tendendo a recuar ou flectir no flanco esquerdo de modo a permitir, por exemplo, a entrada de Drenthe ou Bakkal pelo corredor central. Sagrou-se o melhor marcador deste Europeu, com 4 golos apontados – um deles o decisivo pontapé de bicicleta que levou a meia-final com a Inglaterra para prolongamento. Estes quatro golos marcados no Euro sub21 são mais do que aqueles que anotou em toda a época no seu clube, pois somente anotou três pelo NAC Breda.

Rigters foi bem sucedido no seu papel e grande parte desse sucesso passa pelo futebol de Ryan Babel. Em poucos minutos do jogo inaugural frente a Israel deu para ver quem eram os jogadores mais evoluídos em campo. Babel provou, claramente, que era o mais evoluído dos mais evoluídos. Inicialmente posicionado ligeiramente inclinado para o lado direito, na fronteira dos últimos 30 metros, Babel aglutinou grande parte do futebol criativo da Holanda, sempre com bola colada ao pé e conduzida com uma velocidade ao alcance de muito poucos. Durante as segundas-partes, nas fases em que Drenthe premia o botão de todo-o-terreno, Babel aproximou-se também do flanco esquerdo, mas nunca deixando de ser uma referência nas costas de Rigters. Faz 21 anos em Dezembro e tem já uma estrutura muscular de relevo. Aliando essa mais-valia com a habilidade do pára-arranca com que engana os adversários, bem como à excelente capacidade de remate com ambos os pés (é destro), estamos perante a réplica mais fiel de Thierry Henry exibida até hoje. Ainda por cima ao lado de Rigters, que, por acaso, até tem muitas semelhanças com Sylvain Wiltord.


A bendita lesão de Aissati, segundo Bakkal

Ainda na primeira parte do primeiro desafio do Euro sub21, frente a Israel, aproveitou a saída do lesionado médio-ofensivo Ismail Aissati – seu colega no Twente em 2006/7 e onde ambos jogaram emprestados pelo PSV - para assumir um importante posto na rede de transições da Jong Oranje. Não tem, por exemplo, a leveza e agilidade de Aissati. Porém, dos seus pés saíram bons passes para as costas dos defesas, tendo Rigters como receptor. Empenhado na marcação à zona, foi importante a dobrar Maduro quando este defendia o adversário mais “ao homem” e tinha de sair da posição central. No momento ofensivo, mostrou muita disponibilidade para aparecer na grande área (em movimentos verticais) e complementar a linha atacante. Em suma, não se tratando nem de um médio-ofensivo, nem de um médio-defensivo, constitui-se como uma bela ferramenta táctica, garantindo estabilidade entre linhas. Marcou o primeiro golo na final e espera, agora, afirmar-se no PSV, clube no qual foi lançado em Março de 2004 por Guus Hiddink.

Não há dúvidas de que a meia-final com a Inglaterra foi o desafio mais difícil que a Holanda teve na prova. Que o digam Ron Vlaar (Feyenoord) e Ryan Donk (AZ Alkmaar), os defesas-centrais que, numa complicadíssima primeira parte, levaram com Lita e Nugent. Capitão de equipa e um dos campeões da edição anterior disputada em Portugal, Vlaar, que costuma apontar livres directos em força (em zona frontal), tem como ponto forte o domínio do jogo aéreo. Devido a lesão, não participou na final, cedendo o seu lugar a Kruiswijk.

Ao seu lado jogou Donk, esguio defesa-central que, ocasionalmente, sobe ao meio-campo adversário para criar superioridade numérica. Faltou-lhe alguma firmeza e capacidade técnica a encarar alguns lances, mas, pela positiva, ficou ligado ao golo do empate contra a Inglaterra, uma vez que foi ele quem, de cabeça, assistiu Rigters. No desafio com a Bélgica, actuou como médio-defensivo.


Os defesas-laterais

Exceptuando uma ou outra situação em que revelou pouco timing no desarme, Gianni Zuiverloon teve um desempenho globalmente bem positivo. Juntamente com Vlaar e Donk, constituiu uma imponente fortaleza aérea, pois tem uma impulsão fantástica e ganha imensos lances de cabeça na sua zona. Natural de Roterdão, Zuiverloon iniciou a carreira no Feyenoord, clube com o qual defrontou o Sporting em 2004/5. Actualmente, com 20 anos, é titular no Heerenveen e, nesta última temporada de 2006/7, colaborou, por exemplo, na eliminação do Vitória de Setúbal.

No mesmo clube de Zuiverloon actua Jong-a-Pin, que, ao ter entrado para a sua posição de defesa-esquerdo no decorrer do Holanda – Israel, permitiu a Drenthe fazer furor no meio-campo adversário. Drenthe nunca mais largou a posição de meio-campo, mas o lugar de defesa-esquerdo veio a ser ocupado mais assiduamente por Erik Pieters, em detrimento de Jong-a-Pin. Pieters é rápido, tem bons pés e joga com convicção. Existe um bom potencial neste jogador do Utrecht, nascido em Agosto de 1988.


A alta-voltagem de Drenthe

Sem discussão, o jogador mais sensacional deste Euro sub21. Royston Drenthe começou a defesa-esquerdo, mas, ainda na segunda parte do primeiro jogo contra Israel, subiu para médio-esquerdo, posição que nunca mais largou até ao final da competição. E não é difícil perceber porquê. Se já como defesa-esquerdo estava a mostrar uma boa aptidão para o desenvolvimento dos ataques pelo seu flanco, então quando subiu para médio deixou de ter tantas responsabilidades na marcação e quase não houve defesas que o conseguissem parar (já veremos a excepção da Inglaterra).

Drenthe é um jogador extremamente vigoroso, de imensa potência física e que joga com uma rapidez e intensidade espectaculares. Persegue o adversário, dribla em qualquer espaço e efectua os cruzamentos com alta precisão. Na verdade, ele consegue fazer quase tudo e é essa versatilidade que faz dele um futebolista tão raro. Foppe de Haan, astuto, tirou proveito da sua influência e fê-lo percorrer todas as zonas do meio-campo. Sempre com eficiência.

A meia-final com a Inglaterra foi, como dissemos, o desafio que mais dificuldades criou a todos os holandeses. No caso de Drenthe, Milner filtrou todas as suas acções e nem chegou a preocupar Justin Hoyte. Foi o jogo menos conseguido por parte de Drenthe, ao contrário das exibições frenéticas realizadas frente a Israel ou Portugal. Se continuar no Feyenoord, Bert van Marwijk deverá colocá-lo como médio-esquerdo, até porque foi já contratado Tim de Cler para defesa-esquerdo.
(fica na retina aquele lance aos 79 minutos do jogo contra Portugal, em que Drenthe, na linha do meio-campo e num curto espaço de terreno, dribla Miguel Veloso, Manuel Fernandes e João Moutinho a uma velocidade inacreditável.)


De Ridder

Tal como o belga Martens, Jenner acusou o cansaço da desgastante temporada realizada no AZ Alkmaar. Começou o Euro como titular, mas foi De Ridder quem acabou por dar mais dinâmica ao lado direito do meio-campo holandês. Em comparação com Jenner, De Ridder foi mais activo e incutiu mais capacidade de aceleração, mostrando também uma melhor saída para o ataque. Jenner confere mais equilíbrio nas transições ataque-defesa, mas, uma vez que já havia Bakkal para auxiliar Maduro, pedia-se alguém com mais coragem atacante, como De Ridder.


Luís Catarino


» 2007-06-24
PRIMEIRO TOQUE © 2007
CONTACTOS semmais.com