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Europeu sub21 / Holanda 2007

A brava Inglaterra de Stuart Pearce

República Checa (0-0)
Itália (2-2: Nugent 24, Lita 26)
Sérvia (2-0: Lita 5, Derbyshire 77)
Holanda (1-1: Lita 39)


Da Inglaterra ficou, essencialmente, uma imagem de combatividade e resistência física. A selecção de Stuart Pearce foi o adversário mais complicado que a campeã Holanda teve pela frente e só uma quase interminável série de grandes penalidades eliminou a Inglaterra dessa eliminatória (meia-final). Não se pode dizer que o desempenho global dos ingleses tenha sido excelente, mas a união e entreajuda demonstradas foram um marco muito positivo deste conjunto.


O seleccionador

Peter Taylor foi o seleccionador responsável pelo apuramento da Inglaterra para este Euro 2007. No entanto, Stuart Pearce, ainda na condição de técnico principal do Manchester City, firmou contrato com a federação inglesa em Janeiro, com vista ao Euro sub21 na Holanda. Pearce não pôde contar com jogadores como Theo Walcott ou David Bentley (além de Micah Richards), importantes na fase de apuramento. Ainda assim, a Inglaterra reagiu bem perante essas ausências e apresentou uma equipa consciente do seu poderio físico. Fica talvez a ideia que Pearce esticou o motor ao máximo no jogo contra a Holanda, pois os jogadores foram obrigados a atacar e recuar permanentemente a um ritmo bastante elevado. Pagariam caro na segunda parte com lesões e fadiga generalizada. E substituições arriscadas.

Carson

Dos destaques e notas desta selecção inglesa até podemos começar pela baliza, onde morou um guarda-redes muito competente. Scott Carson, 22 anos, pode ter ficado mal na fotografia do golo de Aquilani, mas, no cômputo geral, mostrou uma regularidade bem positiva. Firme a sair da pequena área e a segurar remates, transmitiu calma e tranquilidade aos colegas.


Milner, puro músculo

Uma das particularidades de Scott Carson neste Euro 2007 era a forma em como apontava os pontapés de baliza. Em todos os jogos, o guarda-redes inglês colocava a bola, longa, de modo a cair na zona de James Milner. Como este jogou quase sempre do lado direito, a bola ia quase sempre para o lado direito. Quando Milner, em situações mais raras, ia para o lado esquerdo (por exemplo: explorar as debilidades defensivas do defesa-direito checo Kaufman, com Young na faixa central; facilitar a integração do médio/extremo-direito Routledge com a Sérvia, fechando a marcação ao médio-direito Basta), Carson colocava a bola nesse flanco.

Mas porquê esta “obsessão” com Milner? Fundamentalmente porque o médio do Newcastle (21 anos) é um atleta extremamente bem capacitado do ponto de vista muscular, conseguindo, assim, conquistar o espaço de recepção com mais facilidade. Além disso, tem uma boa impulsão que lhe permite ganhar os lances aéreos e assistir os avançados-centro (Nugent ou Lita) – Inglaterra apostou muito no futebol directo, precisamente para tirar partido das características físicas dos seus jogadores.

Considerar que o trabalho do antigo talento do Leeds se cingiu apenas à posição de médio-direito é, todavia, um pouco redutor. Uma vez que a Inglaterra jogou apenas com dois médios-centro no seu onze-tipo (Noble e Reo-Coker), por vezes havia a necessidade de fechar o eixo do meio-campo com mais cuidados, especialmente para gerir vantagens, como aconteceu face à Itália, Sérvia e Holanda. Milner foi o elemento que mais ajudou Noble e Reo-Coker a controlar as marcações à zona – recorde-se como também auxiliou Justin Hoyte a afastar Drenthe -, sempre com uma inexcedível disponibilidade física (potência e resistência) para esticar a equipa no momento de posse de bola. Depois de uma primeira parte em que dominaram completamente os holandeses, Milner realizou uma segunda parte e prolongamento extenuantes.


O meio-campo de Upton Park (Noble e o capitão Reo-Coker)

Depois de ter escalado Tom Huddlestone para a equipa titular do jogo inaugural frente à República Checa, Stuart Pearce preferiu fazer alinhar Mark Noble nos restantes encontros em detrimento do gigante médio-defensivo do Tottenham – expulso de forma caricata frente à Sérvia. A principal razão prende-se com o facto de Mark Noble e Nigel Reo-Coker já terem um melhor entendimento entre si, pois jogaram juntos no West Ham durante a última época (Noble teve uma boa ponta final).

Enquanto Noble é um médio-defensivo tipo pit-bull no meio-campo inglês, Reo-Coker (23 anos) tem características mais distintas. Reo-Coker, que em 2007/8 juntar-se-á a Gary Cahill e Ashley Young no Aston Villa, é um médio-centro com forte personalidade. Incute respeito pela forma séria em como aborda o jogo, percorrendo o campo inteiro para roubar a bola ao adversário ou para aparecer em zona de finalização. É um médio muito completo, que também acabou por sofrer a ausência de um terceiro elemento para complementar mais assiduamente o trabalho de recuperação no centro do meio-campo (Milner e Young fizeram o que puderam e os defesas-laterais defendiam muito atrás). Faz circular a bola (futebol apoiado não foi a estratégia mais adoptada), lança longo, pressiona alto e é intratável nas disputas de bola. Cometeu faltas em demasia, mas isso também tem a ver com o facto de lhe terem exigido que fizesse tudo. Ainda assim, foi um grande garante de equilíbrio e o seu nível de desempenhos cresceu com a saída de Richardson, pois com Lita e Nugent na frente de ataque Reo-Coker passou a ter mais possibilidades de entrar no meio-campo adversário. O facto de ter sido capitão do West Ham e de ser o actual capitão da selecção sub21 diz muito sobre a necessidade da sua presença em campo.


Os dribles de Young

Ainda que sem a mesma capacidade e frequência de Milner, também o extremo-esquerdo Ashley Young fechava o bloco inglês em zonas mais centrais, perto de Noble e Reo-Coker. Ou mesmo ajudando Baines no 1v1, tendo sido este sentido de entreajuda que ajudou a Inglaterra a acreditar nas suas possibilidades. Young, contudo, teve um papel mínimo na contenção defensiva, pois foi no ataque que, obviamente, mais se sobressaiu. Possuidor de um drible difícil de ser travado, tinha o dom de abanar a selecção quando esta mais precisava de se motivar. A ganhar a linha de fundo pelo flanco esquerdo, ou jogando nas costas dos dois avançados, Young foi geralmente perigoso quando obtinha espaços para entrar em velocidade e aplicar o drible.


A semi-revelação (Onuhoa)

Nascido na Nigéria há 20 anos, Nedum Onuhoa foi titular em todos os jogos do Euro, quando os supostos titulares do centro da defesa seriam Steven Taylor e Anton Ferdinand (irmão mais novo de Rio). A questão é que Anton Ferdinand esteve a braços com uma lesão durante toda a competição e só entrou nos minutos finais frente à Holanda por extrema necessidade. Ora, com Ferdinand praticamente excluído, sobrava Taylor, que, porém, se encontrava suspenso para o primeiro jogo com a República Checa, em virtude de um cartão vermelho visto no play-off de apuramento contra a Alemanha. Assim, contra os checos, Stuart Pearce deu a titularidade a Gary Cahill (pouco consistente e solução provisória) e a Onuhoa, que acabou por rubricar um bom desempenho na prova.

Uma vez que Onuhoa actua no Manchester City, Pearce já o conhecia muito bem, ainda que nos últimos tempos tivesse jogado quase sempre como defesa-direito no City. Todavia, Pearce sabia que a sua posição genuína é a de defesa-central e foi precisamente nessa função que deu nas vistas neste Euro 2007. Tem velocidade e disputa todos os lances com a maior determinação do mundo, o que lhe valeu imensas intercepções. É especialmente forte a disputar bolas aéreas, devido à sua impulsão e coragem. Um defesa bruto, com necessidade de evoluir nas saídas para o ataque.


A precisão do pé esquerdo de Baines

Onuhoa foi o melhor defesa inglês na competição, mas os defesas-laterais que estiveram ao seu lado também merecem uma referência. Justin Hoyte e Leighton Baines geralmente não tiveram muita permissão para subir pelos seus flancos, mas foi possível ver que o defesa-esquerdo tem bastante precisão no seu pé esquerdo. Em cruzamentos do lado esquerdo ou em bolas paradas em zonas inclinadas para o lado direito, Baines demonstrou excelente capacidade para colocar a bola. No momento defensivo, ambos fechavam muito perto da grande área, deixando um espaço vazio nas laterais, frequentemente coberto por Milner (direita) ou Young (esquerda). Recorde-se que Baines marcou um golo fantástico na primeira-mão do play-off frente à Alemanha, em Coventry – flectiu do lado esquerdo para o meio e executou um irrepreensível tiro de fora de área que deixou Rensing pregado ao chão.


Richardson - vítima de si próprio e da necessidade colectiva

O bom rematador canhoto Kieran Richardson terá sido aquele que mais desiludiu na Inglaterra durante este Euro. Começou como titular frente à República Checa – médio-ofensivo no centro, ligeiramente inclinado para o lado esquerdo -, mas Stuart Pearce, face ao pouco rendimento apresentado pelo jogador do Manchester United, não teve problemas em substituí-lo. A sobranceria de Richardson terminou logo, mas, nos restantes encontros, sempre que entrava em campo, não conseguiu esconder alguma desmotivação e destoou em relação aos seus colegas na falta de vontade para assumir o espírito de batalha. É um facto que sem ele (Lita passou a acompanhar Nugent no ataque) a Inglaterra mostrou maior união, dinâmica ofensiva e defensiva, bem como uma maior objectividade na definição dos lances.


“Never give up”

Leroy Lita assinou uma das histórias mais “comoventes” do Euro. A poucos minutos do final do jogo com a República Checa, falhou um penalty e o jogo acabou num sofrível 0-0. Pearce, como vimos acima, preteriu Richardson e reforçou a confiança em Lita, fazendo-o alinhar como titular no segundo jogo, frente à Itália. Teve um início muito pouco prometedor, desperdiçando um golo de forma quase inacreditável, após ter driblado o guarda-redes Viviano e rematado ao lado da baliza aberta. No entanto, Leroy Lita não se deixou abater psicologicamente e essa força de vontade ainda lhe deu a possibilidade de marcar três golos no Euro, bem como alguns apontamentos dignos de registo - o espectacular pontapé de bicicleta defendido pelo sérvio Kesic, ou o violento livre directo que bateu no poste da baliza do guarda-redes holandês Waterman.

Este avançado do Reading – tal como Onuoha e Noble não efectuou qualquer partida do apuramento - não prima propriamente pelo recorte técnico, mas tem uma pujança física (velocidade e força) que desgasta qualquer defesa. Um lutador, que, contudo, tem, o senão de não saber dosear a sua agressividade da melhor forma. Nasceu no Congo em Dezembro de 1984.

Nugent

David Nugent, actualmente com 22 anos, era um dos jogadores em foco neste Euro disputado na Holanda. Em 2006/7, ganhou especial reconhecimento com a óptima temporada realizada no Preston North End da segunda divisão e até marcou um golo no seu jogo de estreia pela selecção principal orientada por Steve McLaren, em Março – após o remate de Jermaine Defoe, a bola estava em cima da linha e Nugent só teve de empurrá-la para dentro da baliza da Andorra.

Apesar de só ter apontado um golo no Euro (bom gesto de cabeça contra a Itália, após cruzamento de Baines), Nugent teve oportunidade de exibir as suas principais características. Tal como Lita, privilegia o jogo mais físico, embora não tenha tanta velocidade como o jogador do Reading para aparecer nas costas dos defesas. Útil para ganhar bolas pelo ar e a aguentar as cargas dos adversários, é um avançado que, essencialmente, se movimenta e trabalha com intuito colectivo. A Inglaterra jogou à sua medida e com Lita ao seu lado a tarefa ficou facilitada.


Steven Taylor - O último resistente da batalha de Heerenveen

Meia-final com a Holanda. Anton Ferdinand entrou para o lugar do avançado Lita para fazer de terceiro central e Pearce esgotava as substituições. Steven Taylor lesionou-se no lance que precedeu o golo de Rigters, mas revelou enorme bravura e jogou todo o (sufocante) prolongamento a coxear à frente da defesa. Mais, Onuhoa, por lesão, teve mesmo de ir para os balneários e deixar a Inglaterra a jogar com “nove e meio”. Hoyte passou para defesa-central e Milner para defesa-direito. Stuart Pearce ainda tentou que o moribundo Taylor não apontasse uma grande penalidade no derradeiro desempate, mas o jogador terminou o prolongamento em campo e foi obrigado a integrar a primeira volta de penalties. Daí o protesto veemente de Foppe de Haan, que invadiu o relvado do Abe Lenstra como o Diabo da Tasmânia em dia de fome.

Taylor, guerreiro, atirou a súbita condição de “elo mais fraco” para trás das costas e bateu Waterman. No entanto, há que ter a noção de que estamos a falar da Inglaterra, que é das nações com mais “azar” no momento do desempate por penalties. A fatídica tradição inglesa manteve-se e a Holanda passou à final. Por 13-12.


Luís Catarino


» 2007-06-24
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