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Europeu sub21 / Holanda 2007

A Bélgica e a sua ideia defensiva


Portugal: 0-0
Israel: 1-0 (Mirallas 82)
Holanda: 2-2 (Mirallas 9, Pocognoli 70)
Sérvia: 0-2

Se Jean-François De Sart tivesse tido todos os seus jogadores disponíveis para a meia-final com a Sérvia, certamente haveria mais possibilidades de o desfecho final ser diferente. Afinal de contas, os problemas físicos de Vermaelen e Martens forçaram o seleccionador belga a proceder a alterações que acabaram por ter um impacto negativo na equipa. Vejamos, assim, algumas notas da Bélgica neste Euro 2007, em que não participaram Kompany, Defour ou Dembelé.


A teia defensiva construída por De Sart

O aguerrido empenho defensivo foi a marca registada da Bélgica na competição. Frente a Portugal, De Sart montou um sistema em que três médios (Vertonghen, Fellaini e depois Vanden Borre, como iremos ver) jogavam alinhados no eixo, a cerca de trinta metros da baliza de Bailly. A ideia era que, fechando o corredor central na fase inicial de construção do adversário, este fizesse conduzir a bola pelos flancos. Entretanto apertado pela marcação rápida e agressiva do médio-ala e do defesa-lateral, o portador da bola era obrigado a flectir para dentro. A estratégia venenosa resultou com mais efeitos no lado esquerdo com Blondel e Pocognoli, pois o suposto médio-ala do lado direito, Vanden Borre, tinha uma posição-base em linhas mais recuadas do que a de Blondel devido face à sua própria natureza de jogo e à presença de Nani. Diferentes formas de convidar o adversário.

Depois dessa flexão interior, era muito difícil sair da tal teia “com vida”, onde quatro gigantes faziam um quadrado no corredor central – esses quatro gigantes eram os médios-defensivos Vertonghen e Fellaini, e também os defesas-centrais Vermaelen e Lombaerts. Sempre exercendo agressividade no roubo de bola, hostilizando o adversário ao máximo.

O jogo com Portugal foi, todavia, o único em que De Sart pôde aplicar esta estratégia com estes intérpretes, uma vez que Fellaini, devido a expulsão, jogou apenas vinte minutos contra Israel e cumpriu um jogo de suspensão no (concertado?) duelo com a Holanda. Na meia-final com a Sérvia, Fellaini regressou, mas Vertonghen teve de ir para o centro da defesa face à lesão de Vermaelen.


Vertonghen

Uma das torres do meio-campo belga. Esquerdino de 20 anos com uma compleição física imponente e agilidade razoável, foi importante na recuperação de bolas a meio-campo, apesar de ter evidenciado excessiva virilidade nalguns momentos. Nem Vertonghen, nem Vanden Borre são os jogadores mais adequados para integrar um meio-campo de “posse de bola”, pelo que a estratégia frequentemente utilizada pela Bélgica foi a de verticalizar o jogo, quer com progressões rápidas, quer com lançamentos longos para Mirallas. Equipa de futebol directo puro e duro, quase sempre desapoiada no início da transição defesa-ataque. Jan Vertonghen – sempre que possível tenta o seu bom remate de meia-distância – pertence ao Ajax e foi emprestado ao RKC (colega de Tarik Sektioui) na segunda metade da última temporada, não evitando, contudo, a descida de divisão. Jogou muitas vezes como defesa-central no RKC e ocupou essa posição na meia-final com a Sérvia por causa da lesão de Vermaelen e da pouca confiança que De Sart tinha em Ciman. No entanto, foi bastante notório que Vertonghen não tem grande aptidão para actuar na defesa, pois demonstra falta de aceleração e de posicionamento específico dessa posição.


Fellaini

Não tem a mesma desenvoltura técnica e os reflexos de Vertonghen e é habitual atrapalhar-se com a bola nos pés. Marouane Fellaini é um monstro de dois metros que, apesar de ter a sua importância a assustar os adversários que lhe aparecem pela frente, faz essencialmente a diferença pela sua resistência física que lhe permite surgir frequentemente na grande área para finalizar – de cabeça ou com “petardos” em zona frontal. É, assim, um médio-defensivo com gosto pela baliza adversária, mas ainda ingénuo (faz 20 anos em Novembro) na forma bruta em como tenta desarmar ou interceptar.


Vanden Borre, o canivete belga

Indiscutivelmente o jogador mais completo da Bélgica. Como dissemos acima, Anthony Vanden Borre actuou em linhas ligeiramente mais recuadas que as do outro médio-ala, Blondel, mas após a recuperação de bola, partia rapidamente para o ataque pelo seu flanco. É um médio com força, velocidade e qualidade técnica para fazer de tudo um pouco, desde ajudar De Roover na cobertura do flanco direito, até a ganhar a linha de fundo para efectuar cruzamentos. Vanden Borre, que jogará nos italianos da Fiorentina em 2007/8, realizou uma exibição estóica frente a Israel após a expulsão de Fellaini, desdobrando-se em múltiplas funções com elevada intensidade (fechar no meio, atacar pelo flanco). Tem o senão de ser um pouco temperamental.


Blondel e como abusar da agressividade

Por falar em temperamental, o próximo jogador a destacar é Jonathan Blondel. Autêntico assassino de canelas, o jogador do Brugges (ex-Tottenham) é daqueles que muito dificilmente aprenderá a controlar as suas entradas violentíssimas. É o médio-ala esquerdo da equipa, embora tenha actuado no centro contra a Sérvia. Tem corrida, mas, a não ser na perseguição dos adversários, não tirou grande proveito dessa rapidez.


A desilusão de Martens

Tom de Mul – jogará no Sevilla em 2007/8, transferido do Ajax – teve poucas oportunidades para mostrar o seu jogo no Euro 2007, tal como o benjamim da comitiva e última revelação do Standard, Axel Witsel (18 anos). De qualquer forma, De Mul ainda assinou alguns bons momentos nos poucos minutos em que participou. Extremo-direito veloz e com habilidade, actuou no lado esquerdo frente aos sérvios, pois Blondel foi para o meio e Vanden Borre ficou no lado direito (Martens, não estando nas melhores condições físicas, só entrou a quatro minutos do fim).

Maarten Martens era uma das figuras de cartaz da Bélgica, mas o cansaço evidente não o deixou jogar ao seu nível. Canhoto com bom recorte técnico e que realizou uma excelente temporada no losango de Van Gaal (AZ), esteve, no entanto, praticamente desaparecido nas quatro partidas do Euro. Nem nos livres directos teve possibilidade de demonstrar que era uma mais-valia.

Kevin Mirallas

Um dos craques da selecção orientada por De Sart. Kevin Mirallas, avançado-centro possante e com boa técnica de remate, normalmente foi objectivo na definição dos lances. Esteve muito sozinho no ataque, mas soube dar resposta a quase todas as jogadas. Trata-se de um dos melhores valores da formação do Lille, juntamente com o seu compatriota Eden Hazard, vedeta dos sub-17. Tinha 18 anos quando, no Stade de France, defrontou o Benfica na Liga dos Campeões e os belgas esperam, convictamente, que este seja o futuro ponta-de-lança da selecção-A a médio prazo.

A defesa

Nicolas Lombaerts é um defesa-central duro, que bate sem hesitar. Tem 22 anos e teve que se esforçar a dobrar para compensar as várias contrariedades da equipa ao longo da prova. Esquerdino com confiança no passe e no jogo aéreo, jogou do lado esquerdo do centro da defesa. Inclusivamente na meia-final com a Sérvia, com o adaptado Vertonghen (também canhoto) no lado direito do centro. E foi com essa alteração que começaram os problemas nesse encontro, também com o médio Faris Haroun a revelar-se brando na pressão.

Thomas Vermaelen estava já em dificuldades físicas antes do início do Euro, mas, apesar disso, esteve bem nos desafios com Portugal e Israel. Uma outra lesão, no ombro, afastou-o das restantes partidas.

Mais um jogador belga na liga holandesa (Sparta Roterdão). O defesa-direito Sepp De Roover, que já pertenceu ao PSV, foi uma das revelações do Euro. Concentrado na marcação, não deu facilidades aos seus opositores, contando, diga-se, com o importante auxílio de Vanden Borre, que filtrou os movimentos ofensivos do adversário pelo flanco. Rápido e prático a solucionar as situações.

Em 2006/7, Sébastien Pocognoli ajudou o Genk a alcançar um surpreendente segundo lugar na liga belga, com consequente possibilidade de apuramento para a Liga dos Campeões. Tem já contrato assinado com o AZ Alkmaar treinado por Louis Van Gaal, que perdeu Tim de Cler para o Feyenoord. Pocognoli é um defesa com velocidade e técnica, especialmente capaz na condução de bola e no passe/cruzamento.

Colega de Pocognoli no Genk, o guarda-redes Logan Bailly foi um dos elos mais fracos da selecção. No entanto, ficámos sem saber se a péssima abordagem ao livre directo de Drenthe foi pura incompetência ou uma distracção propositada…


Luís Catarino


» 2007-06-24
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