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Itália

Vitória em Hampden Park



Agasalhado, Buffon festeja o apuramento.


No desafio entre Escócia e Itália, que acabou com vitória dos visitantes (1-2), os actuais campeões mundiais tiveram a seu favor algo mais do que muita capacidade de trabalho. Sorte? Até que ponto essa é a melhor forma de classificar, não só o desperdício de McFadden, como também a interpretação feita pela equipa de arbitragem no lance que deu origem ao derradeiro golo de Panucci (falta marcada ao contrário)?

A Itália marcou um golo no primeiro minuto, por Luca Toni, a Escócia empatou a meio da segunda parte, e, finalmente, Panucci apontou o 1-2, aos 90 minutos, garantindo o apuramento da Azzurra para o Euro 2008. Aquilo que vale a pena sublinhar é que no espaço que separa o primeiro do último golo existe toda uma estratégia bem montada pelo seleccionador italiano, Roberto Donadoni, para impedir os ataques da Escócia.


O contexto inicial: as barreiras da Escócia

A equipa da casa precisava da vitória para ter esperanças no apuramento. Esperava-se, portanto, que tivessem um início muito forte. No entanto, não foi isso que se passou no Hampden Park, de Glasgow. Como foi bem visível no modo atrapalhado como estavam posicionados no lance do primeiro golo, os jogadores de Alex McLeish estiveram nervosos e desconcentrados, denotando muita dificuldade para superar as barreiras que foram sendo impostas durante o jogo: a sua própria barreira psicológica, e, claro, a barreira defensiva da Itália.

Na análise deste jogo, que era da máxima importância para as duas equipas, tendo em vista o apuramento de uma delas para o Euro 2008, há que ir mais além do simples facto de os escoceses não terem sabido tirar o melhor proveito do espectacular ambiente proporcionado pelos seus adeptos. A equipa da casa revelou, efectivamente, níveis de nervosismo e de ansiedade demasiado elevados, ainda mais acelerados pelo golo de Toni. No entanto, como veremos de seguida, Donadoni também tinha as suas armas.


O meio-campo do Milan

A adaptação e reacção dos jogadores às várias circunstâncias do jogo pode ser bastante mais rápida quando três elementos do meio-campo jogam juntos no mesmo clube. É o que acontece precisamente na Squadra Azzurra, que conta com os três centrocampistas titulares do Milan: Pirlo, Gattuso e Ambrosini. Grande parte da excelente capacidade da selecção italiana para dificultar o início e concretização dos ataques do adversário deve-se, neste caso, à coordenação que aqueles três médios demonstram a executar os movimentos de desarme, de pressão e de cobertura posicional à zona. Preenchem o melhor espaço, esperam que o adversário cometa um erro, e desarmam.


Pressão alta e gerir o cansaço

Um daqueles três médios quase sempre subia rapidamente para perturbar o médio-defensivo Paul Hartley, ou o defesa escocês que iniciasse o lance de ataque. O médio que tinha essa tarefa de fazer pressão alta ia alternando, para que a equipa conseguisse gerir melhor o cansaço ao longo do encontro. Desses médios, Pirlo e Gattuso foram os dois que efectuaram mais vezes esse tipo de pressão mais intensiva, em comprimento. Isto porque convinha que Ambrosini, no lado interior-esquerdo, acautelasse as subidas de Hutton, pois este é um lateral que habitualmente regista uma boa resolução ofensiva pelo seu flanco direito. Além disso, Di Natale, embora tivesse o cuidado de fechar o lado esquerdo, fazia-o de uma forma relativamente passiva, pois não tem a mesma capacidade de marcação e desarme que tem, por exemplo, Camoranesi no outro lado.

Ambrosini tem ganho mais protagonismo nesta época 2007/8, resultado da titularidade que Ancelotti lhe tem atribuído assiduamente no Milan. Donadoni aproveitou a onda e deu-lhe também a titularidade na Azzurra. É um jogador que, de certa forma, fazia falta ao meio-campo da Itália, pois acrescenta mais capacidade física e estatura para disputar as bolas pelo ar no meio-campo. Por isso também era importante manter Ambrosini o mais possível em linhas mais recuadas, justamente porque nos momentos em que os italianos pressionavam mais alto e obrigavam os escoceses a despejar bolas, era necessário ter alguém à frente da defesa para dominar o jogo aéreo.

Sendo McFadden o único ponta-de-lança da Escócia, Barzagli e Cannavaro jogaram muito próximos um do outro para criar superioridade numérica na cobertura do avançado adversário. A Escócia era, assim, forçada a tentar distribuir a bola para as zonas laterais e isso também dava tempo para os médios italianos recuperarem as suas posições, não deixando que depois nenhum adversário entrasse pelo eixo. Não só neste, como também noutros desafios, a forma agressiva e rápida com que os médios-centro defendiam a zona central à frente da grande área era a grande prioridade de Donadoni. Garantida a consistência nessa zona, a evolução de todas as transições torna-se mais fluida.


A utilidade de Camoranesi

Mauro Camoranesi é um dos jogadores com mais qualidade no futebol internacional. Concilia como poucos a vertente táctica com a técnica, tendo facilidade a definir na fase ofensiva e sendo igualmente capaz de se integrar nas múltiplas variantes estratégicas de recuperação de bola.

Todas as equipas bem programadas têm os seus métodos para gerir a fadiga e conseguir prolongar o esforço pelo maior tempo possível. Neste jogo em Glasgow, foi bem visível como os italianos fizeram essa gestão. O pormenor acima referido, relativo à alternância do médio-centro que fazia a pressão alta, insere-se numa estratégia mais agressiva, de tentativa de recuperação da posse de bola em zonas mais adiantadas do terreno, não deixando que o adversário (Escócia) se instale no seu meio-campo (italiano). No entanto, não é possível manter esse ritmo colectivo durante todo o jogo, razão pela qual a equipa também teve de “dar” a posse de bola ao adversário, baixar as linhas, estender os jogadores em largura, e recuperar o fôlego em pouco tempo.

Em qualquer uma das estratégias utilizadas, Camoranesi demonstrou sempre uma grande precisão no cumprimento das suas funções: a pressionar alto, ou mesmo a fechar a zona mais interior do meio-campo se um dos outros três médios subisse por algum instante. Quem viu o jogo teve a oportunidade de verificar a coordenação com que todos os jogadores se movimentavam, com ou sem bola. Além de todo o trabalho defensivo que Camoranesi realiza, também é um jogador inteligente a jogar entre linhas, procurando o melhor espaço para receber a bola e oferecer a melhor linha de passe aos seus colegas.

Aliás, um dos problemas do meio-campo é que nenhum dos dois médios-interiores (Gattuso e Ambrosini) tem uma especial apetência para conduzir a bola até ao meio-campo adversário. Por esse motivo, era essencial que, neste sistema táctico de Donadoni, surgisse alguém que evitasse que a estratégia fosse a de recorrer constantemente aos passes longos de Pirlo para o possante Luca Toni. Esse jogador foi Camoranesi, um médio que, embora mais frequentemente encostado ao lado direito, correu muitas vezes em toda a largura do campo, a procurar o melhor espaço para receber a bola e dar apoios aos médios e laterais.


As substituições

Logo depois do golo do empate marcado por Barry Ferguson (65 minutos), Donadoni teve de fazer alterações para travar a motivada equipa da Escócia. A solução passou por tirar Di Natale e colocar Iaquinta, um avançado menos rápido, mas mais possante e sobretudo mais adequado para aquelas circunstâncias específicas do jogo. A Itália tinha, agora, uma boa dupla de avançados para privilegiar um jogo mais directo – praticamente em 4-4-2 com Camoranesi mais recuado também por causa do desgaste a que foi sujeito – em detrimento de um estilo de jogo com tendência para circulação de bola, que seria, de facto, desaconselhável para aquela altura. Camoranesi foi substituído aos 82 minutos por Chiellini, defesa da Juventus. Curiosamente, Chiellini foi actuar como médio-esquerdo, mas esta substituição indicava que Donadoni estava, acima de tudo, a pensar na prevenção das situações defensivas de bola parada. Iaquinta foi jogar inclinado para o lado direito, sempre próximo de Luca Toni.


Panucci, um mestre à sua maneira



Andrea Pirlo é um mestre em lances de bola parada. Contudo, não é o único, pois também Christian Panucci o é à sua maneira. Poucos jogadores têm tanta manha e sabem tantos truques como Panucci, actualmente com 34 anos. Ele consegue arrancar faltas, estar por cima dos avançados, queimar o máximo de tempo possível e tudo no limite da paciência dos adversários e dos árbitros. A sua apetência para apontar golos na grande área na sequência de bolas paradas é impressionante. Tem uma boa elevação, mas, melhor do que isso, conhece os tais truques para se livrar do marcador directo e ganhar o melhor espaço para cabecear. Ao longo da carreira, esta foi uma imagem de marca de Panucci. Apontou o golo do apuramento, aos 90, dois minutos depois de ter estado muito perto de marcar.


Luís Catarino

» 2007-11-20
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