Euro 1968
Vencedores do Euro: Itália
De pé: Salvadore, Zoff, Riva, Rosato, Guarneri, Facchetti (c).
À frente: Anastasi, De Sisti, Domenghini, Mazzola, Burgnich.
Imaginem a frustração dos italianos, então bi-campeões mundiais (1934 e 1938), quando a
Azzurra foi prematuramente eliminada do Mundial de Inglaterra em 1966, na sequência de uma surpreendente derrota ante a Coreia do Norte. Uma das consequências do inesperado golo solitário de Pak Doo-Ik foi, desde logo, a substituição de Edmondo Fabbri por Ferruccio Valcareggi no comando técnico da selecção. Felizmente para Valcareggi, a Itália venceu o Euro 68 e foi possível, assim, devolver algum do brio perdido dois anos antes em Middlesbrough. Depois de ultrapassadas as etapas de qualificação, a fase final do Euro teve lugar em Itália. Os anfitriões começaram por defrontar a URSS (meias-finais em Nápoles) e, depois do resultado de 0-0, valeu o capitão Facchetti no desempate por moeda-ao-ar, permitindo à Itália a passagem à final. Esta edição de 68 foi, aliás, a única dos Europeus em que o campeão teve de ser encontrado numa segunda final. Na primeira final (dia 8 de Junho), três dias após as meias-finais, registou-se um empate a 1-1 entre a
Azzurra e a Jugoslávia. No dia 10, na tal repetição, também no Olímpico de Roma, os italianos venceram por 2-0, com golos de Riva e Anastasi. Recordemos a forma como Valcareggi montou a equipa no derradeiro confronto com a Jugoslávia.
Cuidado com os braços partidosUm gigante do Calcio. Com 23 anos, Luigi Riva era o segundo mais novo do onze que venceu a Jugoslávia. Porém, apesar da idade, a sua influência na equipa era já bastante notória. ‘Gigi’ é um dos maiores nomes da história do futebol italiano e ainda hoje é o melhor marcador de sempre da
Squadra Azzurra, tendo registado 35 golos em 42 internacionalizações. Embora tenha tido mais visibilidade no Mundial do México em 1970, competição na qual a Itália foi finalista vencida frente ao Brasil, a sua campanha no Euro 68 (final e qualificação incluídas) foi a primeira prova que permitiu mostrar de forma mais acentuada a sua extraordinária qualidade.
Era um avançado com uma força de vontade tremenda e conseguia conciliar essa determinação com uma grande facilidade na execução técnica das jogadas, quer pelo chão, quer pelo ar. Era incrível a facilidade e eficácia com que rematava à baliza, sem perder muito tempo na preparação e quase sempre provocando perigo para os guarda-redes. E não só para os guarda-redes… Consta que, um dia, na sequência de um dos seus fulminantes remates com o pé esquerdo, a bola não descreveu a trajectória desejada e atingiu um espectador que se encontrava na zona por trás da baliza. Resultado: a vítima levou um braço partido como recordação.
Na fase em que a equipa recuperava a posse da bola, era frequente Riva aparecer no flanco esquerdo para recebê-la em linhas mais recuadas e partir rapidamente para a definição dos ataques. Embora fosse um avançado com uma presença muito dominante na grande área, fazia muito bem todo o trabalho de jogo exterior, sobretudo a partir do flanco esquerdo, como extremo.
Recorde-se que o goleador Riva fez toda a sua carreira de Serie A no Cagliari, sagrando-se inclusivamente campeão nacional italiano pelo clube da Sardenha em 1969/70. A título de curiosidade, ao seu lado na façanha histórica dos sardos estiveram, entre outros, o extremo/médio-ofensivo Angelo Domenghini e o guarda-redes Enrico Albertosi (titular no Mundial de 66 e 70).
Ausência de Prati na repetição da finalRiva jogou de início nesta repetição da final, mas o mesmo não tinha acontecido nas duas partidas anteriores, com a URSS e com a Jugoslávia, em que o avançado titular tinha sido Pierino Prati, acabado de se sagrar melhor marcador da liga italiana pelo Milan, o campeão. Prati foi também o jogador que, um ano mais tarde, na final da Taça dos Campeões Europeus contra o Ajax, em Madrid, rubricou um hat-trick na vitória do Milan por 4-1.
O momento de AnastasiAlém de Riva, o outro avançado da Itália neste jogo era Pietro Anastasi, que, aos 20 anos, cumpria apenas a sua segunda internacionalização. Naturalmente, notava-se que, em alguns lances, lhe faltava alguma experiência e que queria fazer as coisas com demasiada rapidez. No entanto, o grande momento desta final é mesmo da sua autoria. Foi precisamente ‘Pietruzzo’ Anastasi que assinou o 2-0 (31 minutos), com um remate espectacular de pé direito à entrada da grande área, sem hipóteses para Pantelic. Na altura, Anastasi representava o Varese e só depois do Euro 68 é que passou a vestir a camisola da Juventus. Avançado com energia e mobilidade, traçou uma óptima evolução, sagrou-se melhor marcador dos
bianconeri em cinco temporadas e venceu três campeonatos, fazendo dupla de ataque com Roberto Bettega e também auxiliado por um tal médio chamado Fabio Capello.
Marcação individualDa primeira para a segunda final, Valcareggi procedeu a cinco alterações no onze, facto que permitiu à Itália uma notória supremacia sobre os jugoslavos ao nível da condição física e com consequente facilidade na gestão da posse de bola face à vantagem de 2-0. Apesar das modificações significativas em relação à primeira final, houve três jogadores de quem o seleccionador não prescindiu. Tarcisio Burgnich, Aristide Guarneri e Giacinto Facchetti faziam parte da
Grande Inter de Helenio Herrera (Guarneri já transferido para o Bolonha) e transportaram esse entrosamento trabalhado no clube milanês para a selecção italiana.
Burgnich era um jogador forte, com uma notável qualidade na marcação e na antecipação. Não era um defesa-lateral que subisse tantas vezes pelo flanco como fazia Facchetti no lado esquerdo, mas tinha bastante confiança para sair a jogar, caso se exigisse. No entanto, era sobretudo na marcação e na antecipação que a sua qualidade se fazia notar. Há defesas que, quando marcam ao homem, se limitam a aplicar um controlo reactivo, isto é, vigiam o adversário de perto, mas denotam um comportamento expectante e passivo em relação àquilo que ele vai fazer. No caso de Burgnich, não só ele acompanhava de perto as acções do melhor jogador da Jugoslávia, o canhoto Dragan Dzajic, como também mantinha o seu sentido de antecipação sempre em alerta, conseguindo ler os lances e interceptar alguns passes com rapidez.
Facchetti, capitão da Azzurra pela mão de ValcareggiTal como Burgnich com Dzajic, Facchetti também seguia o seu adversário directo (Acimovic) para todo o lado. Se o extremo direito da Jugoslávia fosse para o meio ou para a esquerda, Facchetti não lhe dava mais de cinco metros de distância, fosse para que zona do campo fosse.
Facchetti marcou uma era do futebol, mas não propriamente no âmbito da marcação individual. Na Inter, Helenio Herrera trabalhou-o no sentido de desenvolver a sua aptidão para que participasse activamente na transição defesa-ataque e foi assim que Facchetti se tornou no primeiro grande caso ilustrativo do
terzino fluidificante (o defesa-lateral ofensivo).
Atleta extraordinário em termos de estatura, força e potência, Facchetti nunca tinha tido oportunidades de se destacar verdadeiramente na selecção italiana quando Fabbri era o seleccionador, precisamente pela falta de audácia deste último. Valcareggi, o sucessor de Fabbri, incutiu uma maior tendência atacante à equipa e Facchetti, a quem o novo seleccionador atribuiu a braçadeira de capitão da
Azzurra, conseguia, agora, explorar as suas capacidades duma forma mais aproximada em relação àquilo que fazia sob a orientação de HH. Apesar de actuar no lado esquerdo da defesa, Facchetti era destro. Tinha toque de bola, sabia sair de situações de pressão, cometia muito poucos erros e tinha, de facto, essa particularidade de ser um lateral goleador. Além disso, era conhecido por ser uma pessoa correctíssima e leal.
O líberoO único elemento da defesa que não marcava directamente ao homem era o líbero, Salvadore. De resto, além dos já citados Burgnich e Facchetti, também Rosato (Hosic) e Guarneri (Musemic) desempenhavam funções de marcação individual. Roberto Rosato, jogador do Milan, revelava bastante dureza e não parecia ter problemas de consciência quando aumentava o grau de agressividade no desarme. Em comparação com Rosato, Guarneri tinha um pouco mais de clarividência técnica. Era um dos elementos da Inter de HH e, portanto, já estava perfeitamente habituado a jogar ao lado de Burgnich e Facchetti. Funcionava como
stopper, ou seja, jogava logo à frente do líbero e, neste caso, tinha ordens para não dar espaço a Musemic, a principal referência no centro do ataque jugoslavo.
Quanto ao papel de líbero, nesta segunda final Valcareggi utilizou Alessandro Salvadore (Juventus), responsável pelas dobras aos restantes elementos da defesa e atento às bolas perdidas e ressaltos no interior da grande área. Por exemplo, comparativamente com Armando Picchi, que era o líder da defesa da Inter da década de 60, Salvadore (capitão da selecção no Mundial de 66) tinha mais capacidade para entregar a bola jogável aos colegas. Neste desafio até nem teve muitas possibilidades para o mostrar, mas a variedade de soluções que apresentava quando tinha a bola em sua posse era relativamente superior à de Picchi. Apesar de ser um jogador extremamente astuto, Picchi não se sentia tão confortável quando tinha de executar um passe com um maior grau de dificuldade.
De Sisti, o jogador invisívelApesar de não ser um dos jogadores mais vistosos da equipa, Giancarlo de Sisti foi, seguramente, um dos melhores em campo nesta final. Depois de controlar e de dificultar as acções de Trivic, revelava muita inteligência a definir as jogadas com a bola em sua posse. Com poucos toques na bola, de forma simples, fazia-a circular com rapidez, tomando normalmente as decisões mais correctas no passe, na pausa ou no momento ideal para subir no terreno. Foi peça-chave da Fiorentina no campeonato conquistado na temporada seguinte, em 1968/9.
A armação de jogo: Domenghini, Mazzola e… RiveraAngelo Domenghini era um jogador com personalidade. Incisivo nas mudanças de direcção e com elegância na condução de bola, constituiu-se como o principal armador de jogo da Itália, com liberdade de movimentos a toda a largura do campo. Recebia habitualmente a bola junto a uma das faixas laterais e desenhava movimentos interiores com a bola controlada, ou para fazer variações de flanco, ou para entrar em tabelas. Juntamente com Luigi Riva, foi um dos artífices do campeão Cagliari em 1970, pois tinha acabado de se transferir da Inter para os
rossoblu por troca com Roberto Boninsegna. Domenghini foi também o jogador que deu origem a esta segunda final, pois foi ele quem marcou o golo do empate no 1-1 da primeira final com a Jugoslávia, na sequência de um livre directo frontal em força (tinha um remate muito potente).
‘Sandro’ Mazzola tinha um estilo diferente, sobretudo pautado pela corrida e pelas acelerações. Também em contraste com Gianni Rivera, a estrela do Milan que jogou com a URSS nas meias-finais, Mazzola era um jogador com maior propensão para fazer roturas nos últimos 30 metros. A rapidez do jogador da Inter foi importante para esticar a equipa em situações de ataque rápido, aproveitando a clareira que os jugoslavos deixavam na linha do meio-campo quando perdiam a posse da bola.
Rivera era, antes, sedução. Tocava a bola e definia com a maior classe do mundo. O futuro Bola d’Ouro (1969) possuía, de facto, uma visão de jogo e uma qualidade de último passe apuradíssimas, mas, infelizmente, não tivemos oportunidade de o ver na final.
Equipas eliminadas na campanha:Roménia (Qual. Grupo )
Suíça (Qual. Grupo)
Chipre (Qual. Grupo)
Bulgária (Qual. Quartos-de-final)
URSS (Meias-finais)
Jugoslávia (Finalíssima)
Os três jogadores mais velhos da Itália na final de 68: Guarneri (30), Burgnich (29), Salvadore (28)
Os três jogadores mais novos da Itália na final de 68: Anastasi (20), Riva (23), Rosato (24)
Luís Catarino
» 2008-03-19