Euro 1964
Vencedores do Euro: Espanha
O seleccionador, José Villalonga, transporta a taça Henri Delaunay.Entre fases finais de Europeus e Mundiais, o ano de 1964 é aquele que simboliza a conquista do único título da selecção principal espanhola. Comandada por José Villalonga, a Espanha venceu por 2-1 a URSS, que era a campeã em título depois de ter derrotado a Jugoslávia na primeira edição do Europeu, em 1960. Refira-se que só a partir das meias-finais é que o Euro era disputado num país comum - esse detalhe manteve-se nas edições de 68, 72 e 76. Assim, a Espanha teve de ultrapassar eliminatórias a duas mãos frente à Roménia, Irlanda do Norte e República da Irlanda. Depois, já com o Euro a ser organizado em território espanhol, a selecção de Villalonga bateu, no Santiago Bernabéu, a Hungria nas meias-finais por 2-1 no recurso a prolongamento e, quatro dias depois, no mesmo estádio, o capitão Fernando Olivella ergueu a taça na final contra os soviéticos.
A dupla de laterais do AtletiA Espanha era uma selecção com uma linha defensiva muito aguerrida e com um carácter bastante combativo, especialmente no que diz respeito aos dois laterais, Isacio Calleja e Feliciano Rivilla, ambos do Atlético de Madrid. Na esquerda, Calleja, jogando preferencialmente com o pé direito, não tinha tanta apetência para as subidas pelo flanco, mas marcava os adversários com muita proximidade e raramente lhes concedia espaços. Rivilla, jogador de baixa estatura, tinha mais confiança com a bola nos pés e maior capacidade de iniciativa para condução e entrada no meio-campo adversário, aproveitando ocasionalmente a sua rapidez para ocupar os espaços no lado direito quando Amancio se deslocava para o meio. Uma vez que Zoco jogava geralmente muito mais adiantado do que Olivella, tanto Calleja como Rivilla tinham alguma preocupação em fechar as zonas mais interiores na transição defensiva. Eram dois laterais com muita bravura.
Zoco, o dínamo da selecção espanholaO golo do empate soviético, apontado por Khusainov, resulta precisamente do desguarnecimento da zona da grande área, pois Rivilla não fechou a tempo e Olivella (Barcelona) era o único que tinha uma posição sempre fixa à frente do guarda-redes Iríbar. Já o papel de Zoco era bastante diferente, com menos propensão para a marcação individual e com muito maior alcance de jogo. Zoco era o verdadeiro dínamo da selecção espanhola nas ligações entre defesa e meio-campo. O jogador basco do Real Madrid tinha uma grande influência na dinâmica geral da equipa, não só a levar a bola ao meio-campo adversário e a oferecer superioridade numérica na linha média, como também a lutar pela recuperação da bola. Era alto, tinha uma excelente condição atlética e desarmava muito bem. O seu estilo era marcadamente físico e fazia-se valer dessa pujança e determinação para sair a jogar. Era, aos 25 anos, um dos jogadores mais valiosos da selecção de Villalonga.
A classe do playmaker Luis SuárezLuis Suárez era o principal distribuidor de jogo da Espanha. Enquanto o incansável Josep Fusté (esquerdino que pertencia ao Barcelona) constituía um prestável auxílio a fornecer linhas de passe e apoios aos colegas, Suárez tinha liberdade para percorrer toda a largura do campo, procurar o espaço de recepção e partir, então, para a definição dos lances ofensivos. Nesta época dos anos 60, era uma das maiores figuras do futebol europeu e o único jogador deste onze de Villalonga que actuava no estrangeiro, mais concretamente na Inter.

Por sugestão de Helenio Herrera, o então técnico
nerazzurro que teve Suárez no plantel do Barcelona quando se sagrou bi-campeão espanhol em 1959 e 1960, o presidente Angelo Moratti pagou uma autêntica fortuna pela contratação do jogador ao Barcelona em 1961. Com a sua elegância no trato de bola e excelente capacidade para executar o passe longo, o galego ‘Luisito’ tornou-se numa das referências indiscutíveis da Grande Inter da década de 60.
Embora se tenha notabilizado no futebol espanhol ao serviço do Barcelona, Suárez tem óptimas memórias do rival Real Madrid e do Santiago Bernabéu nesse ano de 1964. Para além da conquista do Euro, em Junho, no Santiago Bernabéu, frente à URSS, Suárez derrotara, sensivelmente um mês antes, no Prater de Viena, o Real Madrid de Zoco e Amancio na final da Taça dos Campeões Europeus, jogo que a Inter venceu por 3-1 com dois golos de Sandro Mazzola. Curiosamente, em Setembro desse mesmo ano de 1964, Suárez ainda voltou ao Santiago Bernabéu para disputar a finalíssima da Taça Intercontinental contra os argentinos do Independiente, vencendo por 1-0 no prologamento.
Suárez era um jogador de uma classe à parte nesta selecção espanhola. O vencedor da Bola d’Ouro de 1960 – até hoje, é o único futebolista espanhol a ter conquistado o troféu promovido pela France Football – tinha um toque de bola bastante evoluído, era muito bom no drible curto e utilizava frequentemente a sua visão, leitura e capacidade de passe longo com o pé direito para colocar a bola nos atacantes. Não apenas por ser o jogador mais velho do onze (29 anos), ‘Luisito’ era o líder natural da equipa. Contudo, apesar de não ser particularmente adequado para tarefas de marcação, esforçou-se para cobrir os espaços defensivos no meio-campo e, assim, ajudar no trabalho colectivo. Como aspecto mais negativo do seu desempenho nesta final, registe-se um lance na primeira parte em que teve uma entrada arrepiante sobre um jogador soviético. Os tempos eram outros e Suárez continuou em campo…
O cabeceamento épico de MarcelinoPertenceu ao ponta-de-lança Marcelino o maior momento da Espanha nas fases finais de campeonatos europeus. Aos 84 minutos, a bola cruzada por Pereda no lado direito encontrou Marcelino, que executou um cabeceamento notável, batendo Lev Yashin e estabelecendo o resultado final em 2-1. O poder de jogo aéreo era uma das principais armas de Marcelino, um avançado que, não tendo grande destreza com a bola nos pés, desgastava os adversários com a sua força e movimentação constante no perímetro atacante. Uma curiosidade: Marcelino foi o primeiro jogador na história do Real Zaragoza a representar a selecção espanhola e é o terceiro maior goleador do clube aragonês em partidas da liga espanhola (70 golos).
Além do ponta-de-lança Marcelino, outro jogador importante no ataque da Espanha era Jesús ‘Chus’ Pereda (Barcelona). Ficou intimamente ligado à conquista do título, uma vez que foi o autor do primeiro golo e da assistência para o tento de Marcelino. Além disso, não só lhe foi erradamente anulado um golo, como sofreu uma falta passível de penalty que não foi assinalada. Tecnicamente evoluído e com boa capacidade para mudar de velocidade, ora aparecia na zona de finalização, ora caía nas alas para cruzar ou investir no drible.
Face à ausência do grande extremo-esquerdo Gento, decisivo na 2.ª mão contra a Irlanda do Norte ao apontar o único golo na vitória por 0-1 em Belfast (depois de um empate a 1-1 em Bilbau na 1.ª mão), Villalonga apostou no esquerdino Carlos Lapetra (Real Zaragoza). A missão de substituir Gento não era fácil, mas Lapetra não complicou. Actuou com segurança e, embora não fosse um dos elementos mais desequilibradores da linha atacante, trabalhou para a equipa em termos de marcação à zona. Comparativamente com Pereda, Lapetra revelou muito menos liberdade de movimentos e não fugia muito daquele lado esquerdo.
A corrida alucinante de AmancioAmancio Amado, de origem galega, bem como Suárez e Marcelino, foi um dos que trouxe mais irreverência ao ataque espanhol. Chegou ao Real Madrid em 1962 na sequência da saída de Del Sol para a Juventus e tinha, na altura, um lugar de destaque no ataque dos
blancos, onde ainda pontificavam Gento, Puskas e Di Stéfano. Amancio tinha uma corrida alucinante com a bola controlada e era extremamente difícil pará-lo, pois tinha coordenação nos movimentos em velocidade e isso dava-lhe facilidade no drible em progressão. O seu posicionamento não se restringia apenas ao flanco direito porque também procurava tabelas e roturas rápidas em zonas interiores. Amancio é um nome absolutamente incontornável na história do Real Madrid, tendo conquistado 9 edições da liga espanhola no clube de Chamartín.
Iríbar, o benjamimCom apenas 21 anos de idade, José Iríbar era o elemento mais novo do onze. O guarda-redes basco, que ainda hoje detém o recorde de presenças para um jogador do Athletic na liga espanhola (466), era, juntamente com Fusté, aquele que tinha entrado há menos tempo nas convocatórias da selecção – Março de 64, na goleada por 5-1 em Sevilha, ante a República da Irlanda.
Os três jogadores mais velhos na final de 64: Luis Suárez (29), Olivella (28) e Rivilla (27)
Os três jogadores mais novos na final de 64: Iríbar (21), Fusté (23) e Marcelino (24)
Equipas eliminadas na campanha:Roménia (1.ª eliminatória de qualificação)
Irlanda do Norte (2.ª eliminatória de qualificação)
Rep. Irlanda (3.ª eliminatória de qualificação)
Hungria (fase final; meias-finais)
URSS (final)
Luís Catarino
» 2008-03-07