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Grécia

O apuramento com o toque de Rehhagel


O seleccionador da Grécia, Otto Rehhagel, sabia que ia ter um jogo difícil em Istambul. Primeiro, não podia utilizar dois habituais titulares da estrutura defensiva: Patsatzoglou e Katsouranis, ambos castigados. Segundo, a Turquia, a actuar no Ali Sami Yen (estádio do Galatasaray), estava forçada a ganhar para evitar que a Noruega alcançasse o segundo lugar do grupo. Todavia, Rehhagel conseguiu uma vitória importantíssima por 0-1, com um golo de Amanatidis a dez minutos do final do encontro. Estava, assim, vingada a pesada derrota sofrida frente aos turcos, em Atenas (1-4 em Março deste ano).

A campeã em título garantiu, desta forma, a presença no Euro 2008 e, pelo que tem sido dado a observar, tem capacidade para realizar um bom desempenho na defesa do título.


Sistema com três centrais

Como foi dito acima, Patsatzoglou e Katsouranis estavam ambos castigados. Assim, Otto Rehhagel decidiu entrar em Istambul com três defesas centrais (cada um deles com mais de 1.90m de altura) e abdicar do desenho habitual do 4-4-2. Enquanto Traianos Dellas, mais lento, tentava exercer um jogo mais posicional no eixo, Paraskevas Antzas (direita) e Sotirios Kyrgiakos (esquerda) forçavam a marcação directa e antecipavam-se nas zonas laterais do centro da defesa. Ambos estiveram igualmente bem a ganhar bolas pelo ar e foram o principal garante de estabilidade da última linha da actual campeã europeia. Neste jogo com a Turquia, a estratégia montada por Rehhagel funcionou na perfeição. No entanto, nos últimos jogos, a Grécia até tem sofrido golos escusados (Noruega e Bósnia-Herzegovina) – o principal ponto negativo do momento defensivo da equipa é a lentidão de Dellas (31 anos; AEK) a controlar os espaços do adversário. Da mesma forma, as entregas de bola do guarda-redes Chalkias são quase desastrosas.

De resto, e voltando a este desafio em Istambul, a estrutura defensiva do bloco grego é extremamente desenvolvida e nota-se que levaram a lição muito bem estudada para a Turquia. Antzas, jogador de 31 anos do Olympiacos que nem tem sido titular na selecção, interceptou todas as bolas que caíram na sua zona e, em certos momentos da segunda parte, foi bastante útil para preencher o espaço do meio-campo defensivo.


A configuração atacante da primeira parte (Gekas e Charisteas)

Theofanis Gekas começou como o ponta-de-lança da equipa. Já Angelos Charisteas jogou muito preso ao lado direito do ataque e apenas ajudou a perturbar as saídas dos turcos para o ataque quando utilizavam aquele flanco. Gekas (Bayer Leverkusen) é o melhor avançado grego da actualidade, mas, por acaso, nem atravessa o seu melhor momento. É um jogador com muita velocidade, que finaliza bem, mas que não teve muitas oportunidades para rematar porque na primeira parte o bloco grego jogou muito baixo.

Ioannis Amanatidis começou o jogo encostado ao lado esquerdo e, sendo destro, acelerava para a zona central depois de receber a bola, para que pudesse lançar Gekas em velocidade. Ao contrário deste, Amanatidis está em boa forma e não parou um minuto. No habitual 4-4-2 de Rehhagel, joga no topo do losango, atrás dos avançados-centro. Hoje, funcionou mais como extremo, mas com amplitude suficiente para acelerar o jogo em todas as zonas do campo. É um atacante com velocidade e boa capacidade técnica. Joga no Eintracht Frankfurt, com Kyrgiakos, e é uma das referências incontornáveis da equipa no capítulo ofensivo.


A configuração atacante da segunda parte (Samaras e Liberopoulos)

A Grécia controlou praticamente todo o jogo e, numa determinada altura da segunda parte, Otto Rehhagel sentiu que devia fazer algumas alterações para evitar que as linhas mais recuadas do bloco baixassem em demasia. Assim, substituiu os dois avançados Gekas e Charisteas e colocou Georgios Samaras e Nikolaos Liberopoulos. Com Samaras, que tem um bom pé direito, inclinado para o lado esquerdo e a flectir para zonas interiores para assistir ou rematar, Amanatidis deslocou-se para o flanco direito, enquanto Liberopoulos (forte a reter jogo) exerceu as funções de avançado-centro mais adiantado.


Dois líderes no meio-campo: Basinas e Karagounis

Os dois jogadores mais fundamentais na equipa. O capitão Angelos Basinas efectuou uma marcação à zona muito próxima do capitão adversário, Emre Belozoglu, e, com essa incidência táctica, a Grécia bloqueou grande parte do jogo ofensivo da Turquia. Mesmo quando Emre vinha buscar jogo atrás, Basinas acompanhava-o. Basinas é um jogador de classe, com muito bom timing nos desarmes e que toca a bola no meio-campo como poucos. Aos 31 anos, impõe uma presença de respeito na posição de pivot-defensivo. Não pelo músculo, mas antes pela qualidade técnica e táctica. Joga no Mallorca.

Ao seu lado, nas tarefas de recuperação e lançamento no centro do meio-campo, esteve Georgios Karagounis. O antigo jogador do Benfica costuma jogar muito próximo do lado esquerdo quando Rehhagel utiliza o losango, mas, face ao impedimento de Patsatzoglou e Katsouranis, o técnico alemão decidiu colocá-lo numa posição mais central, ficando Amanatidis encostado na linha.

Karagounis e Basinas jogam juntos de olhos fechados e sabem gerir os ritmos de jogo da forma mais adequada. Enquanto Basinas utiliza muito mais vezes o passe longo, Karagounis é sobretudo um jogador que progride com a bola controlada e que faz um bom transporte para o meio-campo adversário. Realce para o seu comportamento defensivo, uma vez que, faltando um médio-centro de características mais defensivas ao lado de Basinas, Karagounis empregou muita energia a pressionar e fechar a zona central nas iniciativas de Gokdeniz Karadeniz, convidando os turcos a cruzar bolas pelas alas ou a partir de linhas recuadas. A partir daí, os altíssimos centrais gregos ganhavam as bolas pelo ar e a equipa recuperava a posse de bola.

Na segunda parte, Rehhagel não queria que a equipa permanecesse tanto tempo atrás como no primeiro tempo e, em muitas ocasiões, vimos Antzas deslocar-se do centro da defesa para o meio-campo, promovendo uma espécie de duplo-pivot com Basinas – distribuição mais equilibrada. Karagounis adiantou-se e passou a jogar mais tempo no meio-campo adversário, fazendo a bola chegar aos atacantes. O golo de Amanatidis surgiu a dez minutos do final, com um passe de Samaras (jogador com boa conjugação de força e técnica) do lado esquerdo. As substituições de Rehhagel funcionaram em pleno e a nova configuração atacante da segunda parte apresentou resultados bem visíveis. Houve mais situações de perigo e mais inteligência, também porque esse período coincidiu com a fase em que a Turquia tinha de arriscar.

Note-se que, na segunda parte, Antzas continuou a fechar a zona central da defesa, mas agora não tão inclinado para o lado direito. Uma das razões para esse movimento, além da presença de Hakan Sukur, tinha a ver com a entrada de Arda Turan, que é um destro que costuma jogar no lado esquerdo. No caso de não conseguirem entrar nos últimos trinta metros e haver necessidade de efectuar cruzamentos altos nesse flanco, Antzas garantiria supremacia aérea no núcleo da zona central. Não é que Dellas seja propriamente baixo (muito longe disso!); o problema é que não tem a mesma agilidade de movimentos de Antzas ou Kyrgiakos e não consegue atacar as bolas com a mesma facilidade destes dois.


Vassilios Torosidis, o defesa-esquerdo adaptado

Provavelmente, a maior revelação do futebol grego nos últimos meses. Vassilios Torosidis, 22 anos, joga no Olympiacos e é um defesa-direito de origem. Foi nessa posição, aliás, que se destacou no Skoda Xanthi, antes de se transferir para o Olympiacos no último mercado de Inverno. Naturalmente, ainda foi a tempo de ser um dos jogadores responsáveis pela conquista do campeonato em 2006/7.

Apesar de ser um defesa-direito de origem, o treinador do Olympiacos, Panagiotis ‘Takis’ Lemonis, já o utilizou como médio interior-direito, como tivemos oportunidade de ver na jornada inaugural da Liga dos Campeões, frente à Lazio. No desafio frente aos romanos, Patsatzoglou foi lateral-direito. Contudo, Lemonis procedeu a algumas alterações para o desafio em Bremen e Torosidis voltou à sua posição predilecta de defesa-direito, com Patsatzoglou no meio-campo (marcou um golo de fora de área, pois é um excelente rematador). O rendimento de Torosidis quando actua como defesa-direito (com o central Antzas ao seu lado) é muito superior e a segunda parte realizada em Bremen foi uma boa demonstração disso mesmo, sobretudo na confiança que manifestava nas subidas com bola. A título de curiosidade, diga-se que a vitória por 1-3 em Bremen quebrou uma série de 31 deslocações sem ganhar na Liga dos Campeões por parte do clube grego.

De qualquer forma, mesmo tendo a noção que Torosidis joga melhor no lado direito da defesa, Rehhagel prefere colocá-lo no lado esquerdo, como já vem sendo hábito desde há algum tempo, até porque não há muitas soluções válidas para aquela posição específica na selecção grega. Torosidis estreou-se nas convocatórias da selecção em Fevereiro, num amigável frente à Coreia do Sul, embora já tivesse jogado pelos sub21, juntamente com Samaras, por exemplo.

Embora seja tacticamente evoluído, com boa noção do momento ideal para subir, não é um jogador que tenha muita confiança no seu pé esquerdo. Por isso, na selecção grega, as suas jogadas no flanco esquerdo têm sido algo previsíveis. No entanto, é aguerrido no 1v1 e não é fácil ganhar a sua zona defensiva.


Luís Catarino

» 2007-10-18
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