A saída de Bosingwa antes do intervalo, que implicou a colocação de Carvalho como defesa-direito, foi bastante negativa para a seleção nacional no jogo do Estádio do Dragão frente à Suécia. Bruno Alves e Pepe tiveram supremacia no jogo aéreo, mas continuou a faltar quem fizesse golos no ataque. Atentemos nas verdadeiras responsabilidades de Carlos Queiroz.
Intensificando os ataques pelo lado direito
Na verdade, Bosingwa estava a ter importância na maneira como Portugal elaborava as suas iniciativas atacantes. Percebemos que Carlos Queiroz tinha delineado uma estratégia que passava pela intensificação ofensiva pelo lado direito. Após o momento de circulação da bola no meio-campo (curta ou com variação de flanco), a entrada no terço atacante era frequentemente feita pelo lado direito, com Bosingwa a romper ou a dar apoio a Cristiano Ronaldo, que parecia ter indicações evidentes para cruzar rasteiro ao primeiro poste – o cruzamento por alto iria facilitar a interceção do guarda-redes Isaksson e da dupla de centrais Majstorovic e Mellberg.
Para mal de Portugal, Majstorovic até esteve concentrado e não deixou que a sua falta de agilidade o prejudicasse na abordagem aos tais cruzamentos rasteiros ao primeiro poste. A intenção de Queiroz de intensificar os cruzamentos pelo lado de Johansson foi inteligente, até porque, no lado esquerdo, Simão tenderia a puxar a bola para o pé direito e aí os defensores suecos teriam, em teoria, mais probabilidades de ganhar vantagem a atacar a bola.
Chegar ao golo é difícil
Porém, embora essa estratégia tivesse sido bem pensada na tentativa de criar oportunidades de golo, Portugal denotou a habitual ausência de um ponta de lança. Pura e simplesmente, não havia nenhum jogador com instinto e capacidade para realizar a tal antecipação ao primeiro poste a fim de rematar ou de segurar a bola. Danny é um bom elemento para percorrer as várias zonas do meio-campo ofensivo e dialogar com os extremos Simão e Ronaldo, mas a equipa necessitava de alguém que chegasse ao último nível. Por outras palavras, era preciso que desse continuidade à boa troca de passes. Portugal soube progredir, mas, tal como já tinha acontecido noutros desafios desta fase de qualificação para o Mundial 2010, não teve meios para dar consequência a essa progressão.
Houve ocasiões para marcar, mas é notório que faltou uma maior variedade de soluções atacantes. Neste jogo com a Suécia, era também necessário explorar a faixa central com troca de bola rápida, manter largura ofensiva com as subidas dos laterais e, essencialmente, que os médios de distribuição/rotura Tiago e Meireles, bem como os extremos, tivessem um ponto de referência na grande área - alguém que soubesse encostar-se aos centrais adversários e que ao mesmo tempo interpretasse a mecânica das desmarcações.
A entrada de Hugo Almeida solucionou parte desse problema, nomeadamente com o trabalho físico que ajudou a prender Mellberg e Majstorovic. O avançado do Werder provocou um ligeiro recuo das linhas do adversário e, consequentemente, potenciou o recurso a remates de fora de área (Deco e Ronaldo, por ex.). A questão é que a sua qualidade técnica está longe de ser a desejável para uma seleção que precisa de criar um ponto de comunicação com a habilidade e mobilidade de Simão e de Ronaldo.
Alves e Pepe a travar o ponto forte da Suécia
Apesar da ausência de Ibrahimovic (mestre a segurar a bola no ar), a estratégia da Suécia tinha de continuar a passar pelo reforço do jogo aéreo, tirando proveito das capacidades de Elmander, de Larsson ou até de Källström nesse domínio. Para combater esse ponto forte dos suecos, as presenças de Pepe (médio-defensivo) e especialmente de Bruno Alves (centro da defesa) foram fundamentais. Os jogadores do Real Madrid e do Porto utilizaram a sua extraordinária elevação e venceram a grande maioria dos lances pelo ar. Foi uma tarefa específica que foi bem ganha pelos portugueses nas linhas de defesa e de meio-campo, mas continuaram a faltar os golos para que o cômputo geral da exibição da seleção pudesse ser considerado positivo.
O trabalho de Carlos Queiroz
Se bem que Carlos Queiroz possa ter responsabilidades em relação a algumas decisões técnicas nos desaires da seleção – uma das mais flagrantes foi, por exemplo, a não colocação de um médio-defensivo no jogo contra o Brasil -, somos obrigados a reconhecer que o cenário não tem sido o ideal para se desenvolver um trabalho mais eficaz.
Desde os problemas físicos de peças influentes como Ricardo Carvalho, Deco e Simão ao longo dos últimos meses, passando pela ausência crónica de pontas-de-lança em Portugal e tendo igualmente em conta a necessidade de experimentar soluções para posições específicas (lateral-esquerdo e médio-defensivo, por ex.), os contratempos que Carlos Queiroz foi encontrando são vários.
Há quem argumente que a capacidade de liderança não é a sua melhor qualidade e que os jogadores não estiveram suficientemente concentrados nas partidas por causa disso. Até pode ser que esse tenha sido o motivo por que Bosingwa marcou Bendtner tão mal no primeiro golo da Dinamarca, ou porque Quim tenha saído tão mal da baliza no segundo…
O facto é que a partir da derrota com os dinamarqueses em Alvalade os nervos começaram a aumentar, com os jogadores a não conseguirem esconder alguma pressão nos desafios seguintes. Mesmo tendo em conta os problemas estruturais da seleção que já fomos enunciando, talvez Queiroz até possa ter a sua quota de culpa no controlo da ansiedade da equipa. No entanto, também convém dizer que o próprio Queiroz não tem meios técnicos (jogadores) para fazer mais. Por outro lado, também é notório que se tem esforçado na tentativa de solidificar os elementos da nova geração e em criar líderes dentro da seleção que assumam mais vezes a tomada de decisão. Acreditem que, se esse trabalho tivesse sido mais bem programado no período-Scolari, provavelmente a seleção teria sabido estar mais calma em determinados momentos nesta qualificação. E, claro, convenhamos que também não ajudaram outros fatores como o penalty cometido sobre Paulo Ferreira que não foi assinalado na Suécia, ou a fraca pontaria de Nani e de Almeida contra a Albânia.
Queiroz pode ter cometido um ou outro deslize de avaliação técnica ou tática. Porém, os factos que estão maioritariamente na base dos maus resultados de Portugal são quase todos alheios ao controlo do selecionador.
Luís Catarino