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Justos assobios?


Justificam-se as críticas ao trabalho de Scolari na fase de qualificação para o Euro 2008?


O apuramento ficou garantido e esse facto é, indiscutivelmente, o mais importante que deve ser tido em conta na avaliação do desempenho de um seleccionador duma equipa com as ambições de Portugal. Há vários tópicos que devem ser considerados na análise desta fase de qualificação.

1) Logo no início da fase de qualificação, Luiz Felipe Scolari deixou claro que, no caso de sentir que a equipa não era capaz de vencer, iria fazer tudo para conseguir o empate, especialmente na condição de visitante. Talvez nalguns jogos, como no caso dos desafios na Polónia e mesmo na Sérvia, a equipa tenha começado a pensar no empate antes da vitória. É bom incutir pragmatismo nos objectivos. O que não deve acontecer é que esse pragmatismo se torne de tal forma excessivo que acabe por se converter em medo de vencer. Existem, porém, alguns aspectos que condicionaram a capacidade para discernir, interpretar e reagir consoante as variadas circunstâncias que iam surgindo nos jogos de qualificação.

2) A presença de Figo conferia, efectivamente, mais maturidade à equipa e aumentava essa tal capacidade para saber reagir da melhor forma aos obstáculos que se colocavam.

3) Durante o apuramento, após a retirada de Pauleta, Portugal não conseguiu fixar um ponta-de-lança titular no 4-3-3. O mesmo se passou em relação à posição de defesa-esquerdo.

4) Portugal defrontou selecções que actuaram com muitos jogadores atrás da linha da bola e quase todos com imensa disponibilidade defensiva. Ainda por cima sem contarem com um ponta-de-lança regular, os extremos portugueses foram tendo dificuldades para criar desequilíbrios nos últimos metros. Naturalmente, isso provocou um decréscimo do rendimento ofensivo da equipa em algumas situações.

5) Ricardo Carvalho e Jorge Andrade raramente jogaram juntos e o centro da defesa da selecção perdeu solidez com as suas ausências devido a lesão. Quando um destes dois não joga, nota-se uma redução de qualidade na marcação e nas saídas para o ataque. Fernando Meira e Bruno Alves precisam de estar no pico de forma para esconderem alguns dos seus defeitos ao nível da consistência com que cobrem a zona.

Estes são aspectos que, observados em conjunto, já têm uma forte implicação no trabalho de Scolari e podem explicar algumas exibições menos conseguidas, mesmo tendo em conta que os adversários eram, na generalidade, menos categorizados. O que importa reter são questões essenciais, como as muitas lesões e constantes abaixamentos de forma em jogadores-chave da selecção portuguesa (Deco), ou, como já vimos, a falta de soluções para determinadas posições, como a de defesa-esquerdo.

É necessário que nos próximos meses de preparação para o Euro 2008 se desenvolvam mais rotinas no 4-3-3 e que a equipa adquira mais capacidade para saber reagir aos problemas. Isso leva tempo e é por isso que é importante treinar o melhor onze-tipo, com os mesmos jogadores e sem grandes alterações. Estabilizar um ponta-de-lança na equipa titular é, de facto, urgente para que os extremos Ronaldo, Simão e Quaresma ganhem uma maior noção de como actuar em função desse avançado-centro que servir de referência.

Em suma, é óbvio que houve um conjunto de factores que negaram um maior brilhantismo das exibições de Portugal na fase de apuramento. O objectivo principal foi atingido, ainda que sem vencer nenhum dos adversários mais directos. No entanto, o facto de ter havido pouco brilhantismo na fase de qualificação não significa que no Euro 2008 o nível vá ser semelhante – o mesmo se aplica à Holanda. Jogar bem já seria um bom princípio, mas num torneio curto também existem outros factores que fazem bastante diferença, como o cansaço acumulado dos jogadores e a força mental que a equipa apresenta. Os próximos meses de preparação para o Euro servirão para Portugal solidificar o seu onze-tipo e melhorar as rotinas defensivas e ofensivas do 4-3-3.


A outra face

Depois do jogo com a Finlândia, Luiz Felipe Scolari sentou-se na mesa da sala de imprensa, não com o ar vitorioso que tinha legitimidade para assumir, mas com um nervosismo tal que o levou a abandonar a conferência de imprensa, virando costas aos jornalistas que servem de interlocutores aos adeptos da selecção. Estes são precisamente os mesmos que, em 2004, a pedido do próprio Scolari, colocaram as famosas bandeiras portuguesas nas varandas e janelas das suas casas.

Cristiano Ronaldo, no fim do jogo com a Arménia, em Leiria, apontou a mira à mentalidade dos portugueses que assobiaram a selecção. Segundo Ronaldo, os adeptos não perceberão que existem objectivos a cumprir e não entendem que o mais importante é fazer tudo para assegurar a vitória, não entrando em loucuras. Não podemos levar a mal as declarações do extremo do Manchester United, não só porque o apuramento lhe deu razão, como também porque falou, e falou abertamente. Porém, também podemos relembrar que foi a qualidade de jogo de Ronaldo que fez calar os assobios que, em tempos, ouvia em Inglaterra. E o que faltou para evitar os assobios foi, neste caso, a qualidade da selecção portuguesa.

O que não se aceita é um seleccionador que vira costas quando lhe fazem perguntas para as quais os adeptos queriam ouvir uma resposta. E, a Scolari, para se defender dessas aparentes más exibições, se calhar bastava enunciar alguns dos aspectos que foram lançados neste texto, que ele, melhor que ninguém, poderia explorar, e as pessoas ficariam mais esclarecidas e solidárias. Creio, portanto, que virar costas está muito longe de ser a solução mais sensata para encarar a forma de comunicação com os adeptos que não lhe negaram apoio quando o pediu em 2004.

Scolari tinha de responder às perguntas que legitimamente lhe eram feitas. O seu estatuto, o seu dever e o seu vencimento sugeriam um comportamento completamente distinto daquele que teve na sala de imprensa do Dragão e, evidentemente, daquele que teve em Alvalade com a Sérvia.


Ainda os assobios…

Mas esta não foi, naturalmente, a primeira vez que houve descontentamento na era Scolari.

Há quatro anos, a selecção portuguesa, que ia efectuando jogos de preparação para o Euro 2004, debatia-se com um problema que, há uma semana, foi ordem do dia no nosso país: os assobios. No dia 17 de Novembro de 2003, Luís Figo e Rui Costa, os dois maiores símbolos da equipa nacional de futebol, falaram aos jornalistas no complexo do Jamor. Não tanto para antever questões tácticas relacionadas com o desafio amigável frente ao Kuwait, mas sobretudo para expor os seus pontos de vista e colocar alguma ordem sobre o mal-estar que se sentia entre adeptos e selecção de futebol.

“Quando as coisas correm bem somos todos Portugal. Quando correm mal, somos ‘aqueles gajos’, somos independentes do país”, afirmava Rui Costa, que concluiu de seguida: “Andamos todos enganados porque quando começar o Europeu vamos ser todos portugueses”.

Já Figo registava um tom diferente. “Não posso entrar na pele das pessoas que assobiam. Devem ter problemas pessoais ao longo da semana e vão aos jogos para descarregar o stress. Se as pessoas querem assobiar, assobiem”, reagia, com indiferença.


Luís Catarino

» 2007-11-24
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