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CAN / Gana 2008

Gana: Revitalizante sono do bisonte



A expulsão de John Mensah implicou o recuo de Essien para defesa-central.


Claude Le Roy teve de lidar com alguns contratempos na programação da CAN 2008. O principal de todos foi o facto de não ter podido contar com Stephen Appiah, médio-centro e grande capitão dos Estrelas Negras que recuperava de lesão. Face a esta ausência nuclear, uma vez que a presença do jogador do Fenerbahçe significaria um aumento considerável de experiência e qualidade de jogo, a influência de Michael Essien e Sulley Muntari teria de ser ainda maior. Porém, a suspensão de John Mensah nos quartos-de-final com a Nigéria forçou Claude Le Roy a recuar Essien para a posição de defesa-central na meia-final com os Camarões. Sem a presença da locomotiva do Chelsea na linha do meio-campo, a selecção anfitriã teve mais dificuldades em desenvolver o seu jogo e acabaram eliminados nessa eliminatória, tendo, apesar de tudo, vencido a Costa do Marfim no jogo de terceiro e quarto classificados.


Dormir uma média de 12 horas diárias talvez seja suficiente

São muito poucas as pessoas que conseguem ou podem dar-se ao luxo de dormir uma média de 12 horas diárias. Não é, porém, o caso de Michael Essien, que, além das 9 horas nocturnas, gosta sempre de cumprir 2 ou 3 horas de sesta. Recarregando energias desta forma, não admira que, após o apito final de um jogo, Essien ainda sinta vontade de jogar outra partida logo a seguir. O médio do Chelsea é, possivelmente, o atleta mais extraordinário da actualidade, conseguindo conciliar a sua capacidade física fora-de-série (velocidade, resistência e potência) com uma boa qualidade técnica, táctica e uma excelente capacidade de discernimento.

Como é fácil de adivinhar, Essien teve um papel de grande destaque nos Estrelas Negras. Mesmo na capital Acra, onde o relvado estava em péssimo estado, o bisonte – alcunha que ganhou em Lyon – foi capaz de assumir as jogadas de ataque com condução de bola rápida pelo eixo, fintando a relva alta e os enormes solavancos e deixando para trás os adversários que se colocavam no seu caminho.

Essien começou por actuar como médio mais defensivo, mas, com a entrada de Anthony Annan no onze, o craque do Chelsea ganhou mais liberdade para atacar e fazer a diferença no meio-campo contrário. A pior notícia para Claude Le Roy surgiu quando o defesa-central e capitão, John Mensah, foi expulso nos quartos-de-final. Na restante meia hora desse jogo com a Nigéria (vitória por 2-1) e no desafio seguinte, com os Camarões (derrota por 0-1), o seleccionador recuou Essien para defesa-central. A partir daí, a linha do meio-campo revelou um maior desequilíbrio em termos de recuperação, de combatividade, de acerto nas marcações, de aproximação à grande área, na orientação nas transições ofensivas e esta foi uma das razões mais evidentes que explicam a eliminação nas meias-finais.


Agogo, ponta-de-lança de pesos pesados

É um dos mais carismáticos e adorados jogadores da selecção do Gana. Conseguem visualizar a silhueta de um pugilista de pesos pesados? Tentem agora transportá-la para um campo de futebol e terão uma imagem aproximada de Junior Agogo, o ponta-de-lança do Gana.

Agogo não é, de facto, o paradigma do jogador estético. Contudo, apesar do porte físico (excessivamente) pesado, há que referir que não tem uma técnica assim tão má e isso ainda vai compensando ligeiramente a falta de mobilidade. Os problemas surgem, todavia, quando tem que fazer arranques e aplicar mais velocidade. Marcou três golos nos seis jogos do Gana, mas notou-se que o seu rendimento foi caindo à medida que o grau de dificuldade dos adversários aumentava, que o cansaço ia acumulando e também porque o seu companheiro de ataque, Gyan Asamoah, se foi “afastando” cada vez mais da CAN. Agogo tem 28 anos, joga actualmente no Nottingham Forest e nos últimos 10 anos representou 11 clubes.


Ganhar contra Marrocos e contra… a imbecilidade


Gyan Asamoah é um dos melhores jogadores da selecção do Gana, mas o seu desempenho acabou por ser sofrível. Nos dois primeiros jogos esteve muito activo e marcou mesmo um golo (de penalty) na vitória no desafio inaugural. No entanto, a imprensa entendeu que devia criticá-lo por uma suposta má exibição frente à Namíbia, que o Gana bateu por 1-0, e o tom cresceu de tal modo que a sua mãe sofreu ameaças de morte. Para o jogo seguinte, o seleccionador Claude Le Roy colocou-lhe o seguinte objectivo: “Há que ganhar dois jogos. Um, que é contra Marrocos, e o outro, contra a imbecilidade”. Compreendia-se a ira de Le Roy em relação às críticas do exterior. Afinal de contas, o Gana tinha somado 6 pontos em 6 possíveis. O avançado da Udinese foi titular nesse jogo da 3.ª jornada, mas o seu frágil estado psicológico, juntamente com uma lesão nos adutores que já se arrastava há algum tempo, não o deixaram expressar a sua verdadeira qualidade.


Anthony Annan, a maior revelação da CAN 2008


A ausência de Stephen Appiah pode ter sido bastante sentida na selecção de Le Roy, mas nem tudo foi mau. O facto de o capitão ter estado de fora facilitou-nos a descoberta de Anthony Annan, um promissor médio-defensivo que ainda só tem 21 anos e que joga actualmente no Start, da segunda divisão da Noruega.

Só começou a ser titular a partir da 3.ª jornada, no desafio com Marrocos, mas jogou suficientemente bem para que Le Roy continuasse a apostar nele para as partidas seguintes. A sua inclusão na equipa, actuando à frente da defesa, libertou Essien para acções mais ofensivas, nas quais o médio do Chelsea ia fazendo a diferença com a sua inacreditável capacidade física. Annan é um recuperador de bolas agressivo, rápido, com bom poder de antecipação, que não larga o adversário enquanto não lhe tirar a bola e que conta também com um bom toque de bola.

Pelo que mostrou na CAN, não tem o hábito de ultrapassar a linha do meio-campo e joga simples, embora também o tenhamos visto desenvencilhar-se bem de lances em que estava sob pressão. Prefere, antes, dedicar-se às dobras e a possibilitar que os outros médios participem mais activamente no momento ofensivo. Annan foi, muito provavelmente, a maior revelação do torneio – a expectativa em torno do angolano Manucho já era grande – e parece ser um jogador com um potencial elevado para se afirmar na elite do futebol europeu a médio/longo prazo. Um jogador com fibra, que sabe o que faz em campo e que de certeza que não vai ficar muito mais tempo na Noruega. Tem ainda muito para crescer.


O pé esquerdo de Muntari

Curiosamente, Sulley Muntari, mesmo sendo um dos melhores jogadores da sua geração, não participou nos últimos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. O motivo? Mariano Barreto, o seleccionador da altura, não aceitou o excesso de vedetismo que Muntari tinha revelado em determinados comportamentos e preteriu o médio que então representava a Udinese.

Hoje, Muntari pertence ao Portsmouth e surgiu na CAN 2008 como uma das principais figuras de cartaz. Logo no jogo de abertura, frente à Guiné-Conacri, marcou um grande golo com um excelente remate de longe – o primeiro de três na competição. Tem um pé esquerdo excepcional, com o qual remata muitíssimo bem e executa passes precisos, quer em lances corridos, quer em bolas paradas. Como médio de lançamento, é fantástico.

Em contrapartida, necessita de ter um meio-campo que saiba compensar a sua menor capacidade de desarme e aptidão na marcação. Fica o registo de ter protagonizado uma boa exibição frente a Marrocos, quando uma hora antes de a equipa ter partido para o estádio estava deitado com malária na cama do hotel.


O extremo que faz lembrar Douala e o guarda-redes que não quis aquecer

Muntari foi igualmente importante a preencher o flanco quando Quincy Owusu-Abeyie participava mais no lado direito. Quincy, nascido em Amesterdão há 21 anos e antigo internacional “esperança” pela Holanda, é um extremo que tem características muito particulares e que foi bem aproveitado em determinadas circunstâncias. Tem um estilo que faz lembrar o ex-sportinguista Douala, pela postura e pelas acelerações abruptas que impõe no seu jogo. Corre a uma velocidade extraordinária, mas não consegue executar com a mesma rapidez. Ainda comete muitos erros no passe porque começa a correr antes de raciocinar. De qualquer modo, se treinar bem os seus maiores defeitos, como a leitura e o passe, pode tornar-se num jogador muito interessante porque não há muitos que tenham a sua explosão. Requer mais precisão e melhoria nos movimentos entre linhas.

Quincy começou a CAN como extremo-esquerdo e, uma vez que é destro, flectia frequentemente para o centro. A colocação de Quincy na esquerda permitia que Laryea Kingston, 27 anos, tivesse oportunidade de ser titular na sua posição preferida de médio-direito. Kingston, joga no Hearts, da Escócia, corre muito e até nem fez um mau jogo contra a Guiné-Conacri. No entanto, foi exibindo várias falhas nos momentos em que tinha de definir sob pressão e, frente à Nigéria, quando a equipa tinha de gerir a vantagem de 2-1, revelou um comportamento bastante infantil e desrespeitoso para com os adversários. A colocação de Annan no onze titular, o castigo frente a Marrocos e uma pequena lesão tiraram algum protagonismo a Laryea Kingston nos restantes desafios.

Kingston é irmão do guarda-redes, Richard Kingson. Este último, embora tenha mostrado coragem na discussão dos lances, falha em aspectos determinantes. Tecnicamente, é bastante limitado (não só com os pés), falta-lhe reflexos e não consegue manter os mesmos níveis de concentração ao longo do jogo. Nas meias-finais com os Camarões, passou-se um episódio curioso com o seu suplente, Adjei. Durante esse encontro, Kingson recebeu assistência médica por causa de uma lesão. Como é normal nestes casos, mais vale prevenir do que remediar e Claude Le Roy ordenou que o suplente, Adjei, fosse fazer exercícios de aquecimento porque talvez fosse precisa a sua entrada, no caso de Kingson não estar em condições de continuar. Qual não foi o espanto de Le Roy e de todos os jogadores no banco do Gana quando Adjei, talvez num acesso de vedetismo, se recusou a sair do banco para o mero trabalho de aquecimento. Um belo exemplo de falta de profissionalismo.

Ainda em relação aos extremos, uma curta referência para André Ayew, filho do lendário Abedi Pelé e que defrontou recentemente o Porto na Liga dos Campeões. Actua no Marselha, tem apenas 18 anos e o seu potencial físico e técnico é bastante elevado. Esquerdino com passada elegantíssima, tem força, drible e velocidade. Não participou tantos minutos como Quincy, por exemplo, mas não lhe vão faltar oportunidades para representar os Estrelas Negras no futuro.


Sarpei, o defesa-esquerdo que só usa o pé direito

Se a bola viesse de frente e pelo ar, John Mensah ganhava todos os lances. Porém, se ela aparecesse dos lados ou pelo chão, o defesa-central e capitão sentia mais dificuldades e perdia imediatamente parte da sua pose de líder aparentemente imponente. De facto, Mensah é quase implacável no jogo aéreo, mas tudo se complica quando tem a bola nos pés, ou quando o confrontam em drible. Aí, torna-se um defesa que treme como os outros. No entanto, a sua qualidade é superior à do colega do lado, Eric Addo, que é muito menos concentrado e que, também por isso, oscila bastante no desarme.

Tanto Addo como o defesa-direito, John Paintsil, foram os dois jogadores mais fracos da selecção de Le Roy e às vezes chegavam mesmo a cometer faltas quase ridículas. Em várias situações em que tinham de aliviar ou cortar a bola, faziam-no para onde estavam virados, sem sequer se preocuparem se ela ia cair numa zona perigosa para a equipa. Paintsil é um jogador bastante limitado, com uma estranha agressividade e que perde facilmente o equilíbrio emocional, vacilando quando tem de tomar decisões.

Hans Sarpei foi o melhor defesa do Gana e, muito possivelmente, o melhor defesa-esquerdo da CAN. Tem o defeito de usar quase somente o pé direito, mas a verdade é que também não teve muitos problemas nas saídas para o ataque. Feroz no 1v1 defensivo, nunca facilitou o trabalho dos adversários que surgiam no seu lado. A experiência no campeonato alemão (actualmente pertence ao Bayer Leverkusen) deu-lhe calma para um desempenho positivo, embora não se tenha aventurado muito em subidas pelo flanco. Jogou simples e, apesar de lhe faltar alguma imponência física, especialmente para ganhar bolas pelo ar, foi raro o adversário que conseguiu superá-lo. No jogo de 3.º e 4.º classificados já não tinha a cabeça na CAN…

Le Roy, o treinador que descobriu George Weah em 1988

O francês Claude Le Roy, 60 anos de idade, tem uma larga experiência no âmbito do futebol africano e já venceu a CAN no ano de 1988, quando era seleccionador dos Camarões. Foi, aliás, nessa qualidade que descobriu George Weah, quando o avançado liberiano actuava no Tonerre, do campeonato camaronês. Surpreendido com aquele talento, telefonou a Arsène Wenger, que, na altura, treinava o Mónaco, para lhe dar conta da pérola.

Esta foi a quarta vez que o seleccionador Le Roy atingiu as meias-finais de uma edição da CAN: 1986 e 1988 com os Camarões, 1990 com o Senegal e, agora, 2008 com o Gana.


Resultados:

Grupo A
Guiné-Conacri: 2-1 (Gyan 55 pen., Muntari 90)
Namíbia: 1-0 (Agogo 41)
Marrocos: 2-0 (Essien 27, Muntari 44)

Quartos-de-final
Nigéria: 2-1 (Essien 45+3, Agogo 83)

Meias-finais
Camarões: 0-1

3º/4º lugares
Costa do Marfim: 4-2 (Muntari 10, Quincy 70, Agogo 80, Draman 85)


Luís Catarino

» 2008-02-25
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