CAN / Gana 2008
Egipto: A pirâmide de Shehata
O capitão Ahmed Hassan levanta a taça. O seleccionador Shehata, em baixo, à esquerda, também participa na festa.
O Egipto revalidou o título de campeão africano de forma inequívoca, vencendo na final os Camarões por 1-0 com um golo de Aboutreika. A selecção orientada por Hassan Shehata foi aquela que demonstrou maior organização colectiva e espírito competitivo, sendo ainda perfeitamente visível que os jogadores tiveram sempre funções muito bem definidas durante toda a prova. Em conversa telefónica com o
Primeiro Toque desde o Cairo, Manuel José, actual treinador do Al-Ahly, esclareceu-nos sobre algumas questões relacionadas com a realidade do futebol egípcio.
“Equipa com grande atitude competitiva” – Manuel JoséAntes do apito inicial da meia-final entre Egipto e Costa do Marfim e já depois da cerimónia dos hinos, a realização da transmissão televisiva mostrava-nos a imagem de todos os suplentes das duas selecções. No banco da Costa do Marfim, praticamente todos se riam e divertiam. Já no do Egipto, o comportamento era bem diferente, denotando muito mais seriedade e concentração. Tendo em conta o contraste gritante dos dois bancos, que, de alguma forma, acaba por reflectir o estado de espírito geral da equipa, não é de estranhar que o desafio tenha acabado em 4-1 a favor dos Faraós. De facto, é legítimo concluir que o triunfo da selecção orientada por Hassan Shehata começou mesmo antes do pontapé de saída.
Questionado pelo
Primeiro Toque acerca das diferenças mais salientes entre esta selecção actual e a campeã de 2006, Manuel José considera que “este ano a atitude competitiva foi ainda maior do que há dois anos”. Além disso, o facto de a prova ter sido disputada no Gana e não em casa, como em 2006, terá jogado a seu favor: “Julgo que o facto de terem jogado fora do Egipto fez com que a pressão tivesse baixado e isso ajudou os jogadores a libertarem-se mais. Há dois anos, notou-se que tinham mais dificuldade em expressar o seu jogo”.
O técnico do Al-Ahly expõe a diferença entre os Faraós e os concorrentes mais directos: “O espírito competitivo do Egipto foi completamente diferente do das outras selecções. Segui a CAN com atenção e vi as grandes vedetas a passearem-se como prima-donas, mais preocupadas com os penteados. A Costa do Marfim é a selecção com mais potencial ao nível das individualidades, mas jogaram a passo. O Eto’o (Camarões) andou a passear na final. Agora veja-se como jogou o Egipto: foram agressivos, iam a todas as bolas sem medo de se lesionarem, deram tudo o que tinham!”
Utilização intensiva dos alasO Egipto foi uma equipa que, em todos os jogos da competição, revelou uma dinâmica táctica bastante desenvolvida, sendo o trabalho dos alas – Sayed Moawad (esquerda) e Ahmed Fathy (direita) – determinante para a consistência do modelo de Hassan Shehata. No plano defensivo, ambos foram muito pressionantes e raramente deixaram o adversário ganhar a linha de fundo – a linha de centrais actuava geralmente em linhas baixas. Nesse aspecto, verificou-se uma articulação táctica notável entre os alas, os dois médios-centro e os avançados de forma a defender em superioridade numérica e a fazer uma gestão das subidas e recuos do bloco, dificultando ao máximo as transições dos adversários.
Moawad é um ala-esquerdo de 29 anos, de baixa estatura, rápido e muito esforçado. Procura bastante as tabelas com os colegas de equipa e foi, naturalmente, uma presença assídua nos últimos 35 metros do perímetro ofensivo do Egipto. Mesmo não tendo a posse de bola, era importante que os alas dessem largura ao desenho do ataque, facilitando as entradas de Hosny, Aboutreika ou Hassan. Por outro lado, subindo a sua posição-base, Moawad conseguia interceptar de forma mais rápida os ataques do adversário, contando ainda com o precioso auxílio de Zaky, que foi inexcedível na pressão alta. O ala-esquerdo titular de há dois anos era Mohamed Abdel-Wahab, que faleceu pouco tempo depois dessa edição 2006 da CAN, vítima de uma paragem cardíaca em pleno treino do Al-Ahly; tinha 22 anos.
No que diz respeito ao lado direito, Ahmed Fathy, 23 anos, pertence aos quadros do Al-Ahly e registou um dos melhores desempenhos na CAN – rápido, aguerrido, confiante com a bola nos pés, denotando uma óptima condição física e facilitando muito pouco no 1v1 defensivo. Além disso, é um jogador que não sofre grandes oscilações de rendimento quando percorre a zona central – aparenta ter uma melhor noção dos espaços do que Moawad. Essa polivalência faz com que Manuel José o possa usar no Al-Ahly, por exemplo, como médio-defensivo, sendo conciliável com o ala-direito Mohamed Barakat, que foi o titular na CAN 2006 e que não esteve presente na edição 2008.
Quando o bloco do Egipto estava mais recuado, mantinha-se a importância dos dois alas, fechando a zona defensiva e partindo com muita rapidez para o ataque. Um dos aspectos onde a selecção de Shehata demonstrou bastante qualidade era neste tipo de transições rápidas, com a colaboração dos dois avançados e dos dois médios-centro. Todos os jogadores compreendiam a mecânica colectiva nas mais variadas circunstâncias de jogo e conseguiam ter elasticidade táctica para dar linhas de passe aos colegas, possibilitando um melhor encaminhamento dos ataques.
Quando Gomaa não deixou Drogba tocar na bolaNo Egipto, os principais clubes jogam todos com três defesas, desde o Al-Ahly, passando pelo Zamalek, até ao Ismaili. Deste modo, é natural que também o sistema de jogo do Egipto se baseie no 3-4-1-2. Segundo Manuel José, “há uma certa falta de cultura táctica nos defesas-centrais do futebol egípcio e a utilização de três defesas serve como forma de segurança perante essas fragilidades”.
Wael Gomaa foi o melhor defesa do Egipto na CAN. Desempenhou as funções de marcação homem-a-homem e, por exemplo, não deixou o marfinense Drogba tocar na bola no jogo das meias-finais. Frente a Angola, na eliminatória anterior, Gomaa já se tinha encarregado da marcação a Flávio e também lhe tinha dificultado a tarefa. É um defesa duro, forte, com boa capacidade de superação no jogo aéreo e que exerce marcações muito rígidas, também como forma de defesa para evitar que seja batido em velocidade.
O outro defesa com mais responsabilidades na marcação foi Shady, que marcou Eto’o individualmente na final. Sendo um jogador com pendor menos físico e ligeiramente mais técnico, Hany Said funcionou como líbero, atento às dobras dos dois marcadores (Gomaa e Shady ou Fathalla) e a possíveis ressaltos. Falta-lhe, contudo, alguma velocidade e músculo para, entre outros aspectos, dominar o jogo aéreo – nos lances de bola parada ofensivos, ficava mais recuado, na linha do meio-campo, enquanto nos defensivos era um dos que marcava o poste.
El-Hadary e a fantástica segunda parte contra a Costa do MarfimAos 35 anos, Essam El-Hadary foi o melhor guarda-redes da CAN. O sub-capitão da selecção egípcia teve o seu ponto mais alto da competição na meia-final frente à Costa do Marfim, efectuando várias defesas importantes, especialmente na segunda parte. Era o mais seguro de todos os guarda-redes da prova, mas, ainda assim, não revelou a mesma consistência a interceptar cruzamentos do que a defender entre os postes.
Hosny, o melhor jogador da CAN 2008Provavelmente, o melhor jogador da CAN 2008. Embora todos os jogadores tenham tido a sua importância para o desenvolvimento colectivo do Egipto, o médio Hosny Abdrabou, 23 anos, destro, merece um destaque especial pelo seu desempenho. Além dos quatro golos que marcou – dois de penalty – Hosny foi fundamental a conduzir a bola até ao meio-campo contrário e a controlar as iniciativas do adversário quando exploravam o espaço vazio deixado pelas subidas de Moawad, o ala-esquerdo. De qualquer modo, mesmo com Moawad presente na ocupação defensiva, Hosny nunca relegou o trabalho de recuperação e esteve sempre atento à movimentação dos colegas para que a equipa não deixasse de defender em superioridade numérica.
Foi o principal marcador de livres da equipa, é um bom rematador, mas foi na forma como fechava o espaço central e depois assumia uma condução inteligente dos ataques que fez realmente a diferença. Cometeu muito poucos erros e, juntamente com Aboutreika e alguns outros jogadores, conferiu qualidade à equipa no momento em que tinham de circular a bola.
Hosny joga actualmente no Ismaili, da liga egípcia, clube ao qual regressou depois de uma passagem não muito positiva pelo Estrasburgo. “É preciso ter em conta que, antes de ir para França, o Hosny jogava numa equipa habituada a dominar, a ter a bola em 70% do jogo. Em Estrasburgo, passou a actuar numa equipa que lutava para não descer de divisão. Ou seja, sucedeu-se o inverso, passando 70% do jogo sem a bola e a jogar muito mais longe da baliza”, explica Manuel José em relação às diferenças verificadas entre a realidade do Ismaili e a do Estrasburgo. Porém, também admite que “a generalidade dos jogadores egípcios tem, por norma, um carácter sedentário e, por vezes, isso dificulta a adaptação a novos ambientes”.
Ahmed Hassan, o pitbull do NiloO seleccionador Hassan Shehata acabou por fazer alguma rotatividade no outro lugar de médio-centro ao lado de Hosny. Assim, o capitão Ahmed Hassan e Mohamed Shawky foram alternando o lugar no onze nas funções de médio de cobertura. Ahmed Hassan, 32 anos, que pertence aos belgas do Anderlecht, é um jogador enorme em termos de garra, que dá verdadeiramente o exemplo aos colegas, para que nunca lhes falte determinação a lutar pelos objectivos. Não tem a capacidade técnica de Hosny, mas possui uma combatividade e uma resistência física que nunca mais acabam e isso verificou-se no modo veemente como exerceu pressão no adversário para recuperar a bola. Tal como Hosny fechou o lado esquerdo no momento em que Moawad subia pelo flanco esquerdo, Ahmed Hassan fez o mesmo no lado direito em relação a Fathy, mostrando, uma vez mais, o fabuloso espírito de entreajuda e organização colectiva entre todos os jogadores do Egipto. No jogo da 2.ª jornada, frente ao Sudão, chegou a jogar momentaneamente como ala-direito depois da saída do defesa-central Fathalla e consequente colocação de Fathy no centro da defesa. Depois, com a entrada do rápido El-Mohamady (lateral com tendência muito ofensiva) para a ala direita, Ahmed Hassan regressou à sua posição habitual no meio-campo.
Em relação a Mohamed Shawky, médio de elevada estatura de 26 anos, foi suplente na meia-final e na final em detrimento, precisamente, do capitão Ahmed Hassan. Contudo, deu para perceber por que razão o Middlesbrough o contratou no último Verão ao Al-Ahly. Além da sua boa compleição física, tem uma capacidade de passe bem razoável e é um jogador que tem uma forte presença no controlo dos espaços do meio-campo e nas bolas paradas. A adaptação de Shawky a Riverside tem sido lenta, mas, ainda antes do início da CAN, Gareth Southgate, o treinador do clube inglês, teceu-lhe elogios e confirmou que irá apostar mais vezes no médio egípcio.
O médio-centro Hossam Ghaly não foi convocado para esta CAN, uma vez que foi emprestado pelo Tottenham ao Derby County na condição de recusar a convocatória de Shehata e participar imediatamente nos trabalhos dos Rams.
A força descomunal de ZakyUm avançado com titularidade mais que assegurada no onze ideal da CAN 2008. Há dois anos, na edição de 2006, durante a meia-final entre Egipto e Senegal, o avançado Mido, que não viajou para o Gana devido a lesão, foi protagonista de um episódio bastante controverso. Se bem se recordam, Shehata, aos 80 minutos, com o jogo a registar 1-1 no marcador, ordenou a substituição de Mido, que partiu, então, para uma discussão excessivamente acalorada com o seleccionador. Ironicamente, o jogador que substituiu Mido só precisou de dois minutos em campo para apontar o golo da vitória por 2-1 e que permitiu ao Egipto chegar à final. Lembram-se quem foi? Amr Zaky, o mesmo que teve um óptimo desempenho nesta edição de 2008.

À primeira vista, até pode parecer que é um jogador banal, refém de alguns limites técnicos e que até nem possui uma capacidade de finalização brilhante. No entanto, tentem observar o seu comportamento durante um desafio inteiro e dificilmente ficarão indiferentes ao valor deste avançado que fará 25 anos no próximo dia 1 de Abril. Tendo o gigante Zaky como adversário, não há defesa que tenha descanso. Luta com bravura e persistência pela recuperação da bola, é rápido, muito agressivo, marca golos e conta, de facto, com um poder físico absolutamente espantoso que lhe permite vencer inúmeras bolas pelo ar ou simplesmente superar o adversário no choque. Por vezes dá a sensação que lhe falta algum equilíbrio emocional e, como foi dito acima, está longe de ser um jogador com precisão técnica. Marcou 4 golos nesta edição da CAN e exemplifica, na perfeição, o espírito altamente competitivo dos bi-campeões africanos. Depois de uma brevíssima passagem por Moscovo (Lokomotiv), merece uma nova oportunidade para se afirmar no futebol europeu.
O incansável Zaky foi o principal avançado no papel de desgaste das defesas contrárias e caía frequentemente nas zonas exteriores, sendo ainda a principal referência dos lançamentos longos executados pelos defesas e pelo guarda-redes, pois tinha capacidade física para disputar os lances aéreos. Já Emad Moteab tinha outras funções no último terço. Moteab, que faz dupla com Flávio no Al-Ahly, é um avançado muito disponível para o trabalho sem bola e jogou como elemento mais adiantado da equipa. O ponto forte de Moteab é a mobilidade que impõe no momento da subida dos alas e a iniciativa para efectuar tabelas com os colegas, embora perca vantagem nos duelos individuais, pois falta-lhe alguma destreza no momento do confronto no 1v1. Comparativamente com Zidan, que também desempenhou as funções de Aboutreika, deambulando atrás dos dois avançados, Moteab tem mais capacidade de sacrifício colectivo, embora o atacante do Hamburgo seja mais forte no drible e consiga transmitir um certo toque de irreverência, que, por vezes, se torna fundamental para fazer a diferença.
“Aboutreika ainda é melhor como pessoa do que como jogador” – Manuel JoséPor uma questão de gestão de esforço, Mohamed Aboutreika não foi titular em nenhum dos três primeiros jogos. No entanto, é necessário ter em conta que este médio-ofensivo/segundo-ponta é, muito provavelmente, a maior estrela da actualidade no futebol egípcio e foi ele o autor do único golo dos Faraós na final frente aos Camarões. Jogando sempre de cabeça levantada, Aboutreika realizou partidas de nível bastante bom, nas quais se destacaram a sua facilidade na execução do passe de média distância e a protecção e toque de bola. Neste sistema de 3-4-1-2, Shehata colocou-o atrás dos dois avançados, mas gozou sempre de bastante mobilidade para receber a bola junto à faixa, fugir das marcações e voltar a aparecer na zona central para, então, continuar a definição dos lances ofensivos.

Manuel José foi o treinador que levou Aboutreika para o Al-Ahly quando este ainda actuava no modesto Tersana e até nos enuncia um curioso termo de comparação. “Fui eu que trouxe o Aboutreika para o Al-Ahly (em 2004). Só a partir dos 25 anos é que ele começou a jogar a sério e até me faz lembrar o caso do Rui Águas. O Águas, na altura, jogava no Atlético, fui buscá-lo para o Portimonense (primeira divisão em 1983/4) e foi mais ou menos com a mesma idade do Aboutreika que também começou a dar mais nas vistas”, recorda.
Sobre o facto de um jogador com a qualidade de Aboutreika, que já tem 29 anos, nunca ter actuado no futebol europeu, Manuel José dá a seguinte explicação: “Ele tem tido propostas de imensos campeonatos europeus, mas a sua permanência no campeonato egípcio, até agora, deve-se a uma opção pessoal”. O actual técnico do Al-Ahly também sublinha outros aspectos que têm peso na decisão, como “o forte apego à família e à religião”.
Recentemente surgiram notícias de que Aboutreika estaria entusiasmado com a hipótese de experimentar o campeonato espanhol e não é de excluir a possibilidade de uma transferência nos próximos meses. Contudo, enquanto continuar no Egipto, Manuel José só terá razões para estar satisfeito: “Ele tem uma humildade extraordinária. Ainda é melhor como pessoa do que como jogador”, reforça Manuel José.
Quem é Hassan Shehata?O seleccionador egípcio, 58 anos, notabilizou-se como avançado do Zamalek nos anos 70 e foi considerado o melhor jogador da CAN de 1974. Como treinador, levou a selecção de sub-20 do Egipto ao título de campeã africana em 2003 – final disputada no Burkina Faso e ganha à Costa do Marfim – e, um ano mais, tarde, substituiu o italiano Marco Tardelli no cargo de seleccionador AA dos Faraós. Venceu a CAN de 2006, onde teve lugar a famosa discussão com Mido, e, agora, conquistou a CAN 2008, sempre com sistema de três defesas. E no Mundial de 2010?...
Os vencedores da CAN

Resultados do Egipto (versão 2008):Grupo CCamarões: 4-2 (Hosny 13 pen., 82, Zidan 17, 45)
Sudão: 3-0 (Hosny 29, Aboutreika 77, 82)
Zâmbia: 1-1 (Zaky 15)
Quartos-de-finalAngola: 2-1 (Hosny 21 pen., Zaky 36)
Meias-finaisCosta do Marfim: 4-1 (Fathy 12, Zaky 62, 67, Aboutreika 90)
FinalCamarões: 1-0 (Aboutreika 78)
Nota: O Al-Ahly é o clube com mais campeonatos conquistados no Egipto (32), à frente do Zamalek (11). Tanto o Al-Ahly como o Zamalek são, igualmente, os clubes que mais vezes venceram a Liga dos Campeões Africanos (5 cada). Em 2000, o Al-Ahly foi eleito o clube africano do século XX pela Confederação Africana de Futebol (CAF). Manuel José assinou pelo Al-Ahly em 2001 e já venceu mais de uma dezena de troféus pelo conjunto do Cairo, dos quais se destacam três edições da Liga dos Campeões Africanos.
Luís Catarino
» 2008-02-20