CAN / Gana 2008
Desprezo pela bola
“Há momentos em que mesmo o jogador mais corajoso compreende que deve jogar pelo seguro ou arriscar-se a sofrer um golo. Existem três reacções “Jogar Seguro”, nenhuma delas popular entre os espectadores e todas usadas à saciedade por equipas inferiores, mas completamente justificadas em condições extremas. São o pontapé para fora, a concessão de um canto e a passagem ao guarda-redes.”Concentremo-nos na questão do “pontapé para fora”. Quando Desmond Morris explanou as suas teorias e reflexões em “A tribo do futebol”, fê-lo a pensar na perspectiva do jogador que relega o “futebol positivo” de modo a não comprometer os objectivos da equipa. Um passe directo para a bancada pode, em certas alturas, ser bastante conveniente, certo? Porém, há um outro dado que, a partir de hoje, terá de ser tido em conta no estudo do "pontapé para fora".
O capitão que não dá o exemploO que faltava era, assim, acrescentar uma variante, que até foi recentemente exibida pela selecção sub20 da Costa do Marfim no último torneio de Toulon, mas que ganhou muito mais projecção quando Pascal Feindouno a executou em representação da Guiné-Conacri, na presente edição da CAN. Se ainda não perceberam do que se trata, não se preocupem, pois a descrição da jogada é assustadoramente simples: o árbitro coloca a bola ao centro, o pontapé de saída do desafio pertence à selecção guineense e o capitão Feindouno, de forma propositada, despacha a bola directamente para fora da linha lateral.
Pegando naquele excerto de Morris e excluindo a possibilidade de estarmos a assistir a uma partida de râguebi, torna-se extremamente complexo descobrir algo de corajoso ou de previdente nesta jogada de Feindouno. No fundo, uma opção deste género só ajuda o adversário a aperceber-se de que a Guiné, logo à partida, não tem confiança nas suas capacidades para... jogar à bola.
Muntari fez a vontade ao laboratório da GuinéEntretanto, a Guiné, neste jogo inaugural da CAN, ia conseguindo o seu objectivo estipulado para a partida, que era o de roubar pontos aos anfitriões ganeses. Contudo, já perto do apito final, o explosivo pé esquerdo de Sulley Muntari fez-nos esquecer a tragédia futebolística do kick-off guineense, selando a vitória para o Gana (2-1) com um remate formidável. Confesso que fiquei na dúvida sobre qual seria o estado de espírito dos jogadores da Guiné após o tento de Muntari: desiludidos com o golo sofrido, ou mais motivados pelo facto de a bola ir de novo ao centro do terreno, onde teriam hipóteses de desenvolver mais uma elaborada jogada de laboratório?
Luís Catarino
» 2008-01-24