Mundial 2010
Coreia do Norte
Brasil e Costa do Marfim são as duas equipas do Grupo G do Mundial 2010 que impõem mais respeito à selecção portuguesa. Porém, não deixa de ser interessante conhecer alguns detalhes da Coreia do Norte, país que participa numa fase final de um Mundial pela segunda vez, quarenta e quatro anos após a estreia no Inglaterra 66.
Esqueçamos futebol técnico e circulação pausada da bola com passes curtos. A Coreia do Norte é uma equipa que tem consciência dos seus limites e não perde muito tempo a pensar naquilo que não consegue fazer. Estes jogadores formam um conjunto solidário e não têm receio de disputar lances no choque, com virilidade, mesmo em situações notórias de desvantagem física. No entanto, convém sublinhar que a maioria dos jogadores que constituem esta selecção revela fraca qualidade de passe e pouca clarividência nos movimentos para jogar em apoio, o que, neste caso, só torna o processo de transição ofensiva mais atabalhoado.
Alguns tópicos que ajudam a compreender esta selecção.1. Recuperada a posse de bola, e utilizando o habitual bloco defensivo bastante recuado, é frequente o lançamento rápido e longo para os dois avançados. Neste âmbito, também é importante ter em conta o apoio que é dado pelos dois médios-interiores (#4 Pak Nam Chol e #11 Mun In Guk) para dar algum seguimento à jogada.
2. Qualquer um dos três defesas-centrais despeja muitas vezes a bola sem critério. A entrega da bola a partir da defesa é invariavelmente feita sem sentido e em más condições de recepção. Ri Jun Il (#3) é o defesa-central que joga mais no eixo e parece ser aquele que é tecnicamente mais dotado e mais ágil. Pak Chol Jin (#13) é o mais possante, mas pouco clarividente com a bola nos pés. Ainda que destro, Ri Kwang Chon (#5) é o central que melhor joga com o pé canhoto e é por isso que actua mais próximo do lateral-esquerdo, Ji Yun Nam (#8; destro). Os três defesas-centrais, em particular o #13 e o #3, jogam muito na antecipação (no chão e pelo ar). Interceptam alguns lances, mas também acabam por cometer faltas ou perder a posição. Defendem baixo e não é habitual utilizarem a armadilha do fora-de-jogo.
3. O lateral mais dinâmico e aquele que apoia mais vezes os movimentos ofensivos é o da ala direita, Cha Jong Hyok (#2). É rápido, tem uma técnica razoável e procura ganhar a linha de fundo sempre que possível, ainda que a sua eficácia nos cruzamentos não seja a melhor. A equipa pode recorrer a ele para transportar a bola para o ataque.
4. Quando sujeita a uma pressão minimamente agressiva por parte dos adversários, a generalidade da equipa norte-coreana perde a calma e assim aumentam consideravelmente as probabilidades de perda de bola. Isto deve-se, em grande parte, à falta de qualidade técnica para efectuar o passe e a recepção, mas também a uma falta de maturidade competitiva para saber discernir em situações de maior aperto. Fica a dúvida se esta selecção se sentirá intimidada pelos nomes mais sonantes dos adversários na fase final do Mundial. Se isso acontecer, tudo piora para o seu lado e tanto Portugal, como o Brasil e a Costa do Marfim sabem que podem jogar com esse aspecto psicológico.
5. Em situações defensivas de bola parada, a equipa geralmente coloca um jogador em cada poste. Marcação maioritariamente executada “ao homem”.
6. Quando a equipa adversária tem capacidade de circulação junto à grande área da Coreia do Norte, os jogadores (norte-coreanos) têm tendência para abandonarem a marcação à zona e acumularem-se rapidamente junto ao portador da bola. Estas precipitações originam espaços descobertos, o que pode tornar-se perigoso no caso de o adversário ter visão e técnica para colocar a bola nos tais espaços mal cobertos.
#4. Pak Nam Chol (Médio interior-esquerdo, 24 anos, 25 de Abril)Não é muito alto, mas tem robustez. Pak Nam Chol é um médio que demonstra na perfeição aquilo que é a selecção norte-coreana: grande espírito de sacrifício e combatividade. À imagem da maioria dos jogadores desta equipa, não é especialmente dotado ao nível técnico, mas possui uma característica interessante, que é o facto de ser ambidestro. Aparenta “dar primazia” ao pé direito, mas controla, passa, cruza e remata facilmente com o pé esquerdo. Tem resistência, é duro no choque e, juntamente com o #11 Mun In Guk, desenvolve um trabalho de contenção do adversário (também com recurso a faltas) e de auxílio aos defesas-laterais para defender em superioridade numérica. Joga no 25 de Abril, clube do Exército Popular da Coreia.
#9. An Yong Hak (Médio-defensivo, 31 anos, Suwon Bluewings)An Yong Hak é o médio com estatura mais elevada e preenche a zona à frente da defesa, deixando sobretudo os movimentos mais destacados da transição ofensiva para os #4 e #11. Algo lento e sem atributos técnicos, faz do físico a sua principal virtude, limitando-se praticamente a desarmar e a entregar a bola curta para os colegas. Pode constituir algum perigo nos lances de bola parada. Nasceu no Japão e representa um clube da Coreia do Sul, o Suwon Bluewings, actualmente treinado por Bum Kun Cha, um dos melhores executantes da história do futebol asiático que venceu duas edições da Taça UEFA: pelo Eintracht Frankfurt (1980) e pelo Bayer Leverkusen (1988).
# 11. Mun In Guk (Médio interior-direito, 31 anos, 25 de Abril)Tem uma estrutura física frágil e uma baixa estatura, mas subestimá-lo pode ser um erro. Este camisola 11 é muito veloz e se o adversário não estiver prevenido irá ter problemas. É um jogador determinante na equipa, pois é ele um dos primeiros a dar apoios aos dois avançados com roturas nas linhas mais adiantadas. Sempre um bom suporte a nível ofensivo, mas também no plano defensivo: se necessário, na ausência de An Yong Hak (#9) ou de Kim Yong Jun (#15), pode preencher a posição de trinco, se bem que a sua baixa estatura seja um contratempo considerável no desempenho dessas funções.
#10. Hong Yong Jo (Segundo-ponta, 27 anos, Rostov)É o capitão e, a par do ponta-de-lança, o jogador desta selecção com melhor toque de bola. O seu drible curto é razoável e é também o responsável pela marcação de livres-directos e de alguns pontapés-de-canto (com o pé direito). Se, durante uma partida, o seleccionador optar pela colocação de mais um avançado a juntar a Jong Tae Se (#12), então este camisola 10 pode recuar e até eventualmente actuar como médio-direito. Hong Yong Jo pertence ao Rostov, clube que em 2009 lutou para evitar a despromoção na primeira liga russa.
#12. Jong Tae Se (Ponta-de-lança, 25 anos, Kawasaki Frontale)Em tempos, imitava nos treinos o ídolo Patrick Kluivert e não é coincidência que, hoje, um dos seus pontos fortes enquanto ponta-de-lança seja o de segurar jogo de costas para a baliza (característica rara no futebol do Extremo-Oriente). Sobretudo na dimensão asiática, Jong Tae Se vai-se distinguindo pela sua capacidade física dentro da grande área e também pela boa técnica de cabeceamento, que lhe costuma valer alguns golos. No seu clube, o Kawasaki Frontale, da principal liga japonesa, Jong Tae Se marcou 14 golos em cada uma das duas últimas edições. Refira-se que, tanto no campeonato de 2008, como no de 2009, o Kawasaki Frontale terminou em 2.º lugar na tabela e sempre como a equipa com melhor ataque na prova
1.
Descendente de sul-coreanos, Jong Tae Se nasceu no Japão, mas frequentou um sistema de ensino que o fez abraçar a ideologia norte-coreana, razão pela qual o avançado nunca pensou em representar outra selecção que não fosse a de Pyongyang. O processo de naturalização teve alguns contornos complexos, mas Jong Tae Se, talvez sacrificando prestígio internacional e melhores condições financeiras, acabou por vestir a camisola que verdadeiramente o preenche.
Mais do que Hong Yong Jo (#10), este jogador é a principal referência da equipa quando os defesas ou o guarda-redes lançam bolas longas para o ataque. Jong Tae Se possui um bom domínio de bola e um físico que lhe permite ganhar alguns duelos no choque e nos lances pelo ar. Tem um remate forte com os dois pés (é destro). Falta-lhe ainda uma maior consistência nos seus desempenhos, mas também é verdade que na selecção a bola não lhe chega muitas vezes e/ou nas melhores condições. É um jogador pouco dado a movimentos para zonas exteriores, confinando-se na maior parte do tempo ao espaço entre os defesas-centrais adversários.
*1: Além de Jong Tae Se, destacam-se no ataque do Kawasaki Frontale os dois brasileiros: Juninho, mais à esquerda, e Renatinho, à direita. O capitão Kengo Nakamura, médio-ofensivo, é também um dos principais elementos a desenvolver situações de ataque.Luís Catarino
» 2009-12-09