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Copa América / Venezuela 2007

Basile complicou





Como encaixar Riquelme no meio-campo?


Perante a influência que Juan Riquelme demonstrou no desenvolvimento ofensivo do Boca Juniors durante a última época – sobretudo na Taça dos Libertadores –, o seleccionador ‘Coco’ Basile considerou que esta era altura ideal para devolver o perfumado futebol de ‘Romy’ à alviceleste. Protegido por três médios com características de recuperação de bola, Riquelme teve boas condições para exercer a sua criatividade ao longo da prova, designadamente no último-passe. Com Messi e/ou Tevez em desmarcações nos últimos trinta metros, Riquelme conseguia mais facilmente executar o passe em profundidade ou chegar perto da grande área. Mas nem sempre isso foi possível, como na final com o Brasil em que Dunga desenhou um meio-campo com três médios-defensivos e com o apoio de Júlio Baptista na recuperação. Riquelme – não tem a mesma energia de há alguns anos, mas tem vindo a ganhar em precisão de passe e decisões - não se libertou da marcação rígida e faltou à Argentina mais dinâmica dos dois médios-interiores da equipa. Essa questão nem surpreende, ao analisar o tipo de jogadores que são Cambiasso e Verón.

Obrigatório rever os papéis de Cambiasso e Verón

O principal problema da Argentina residiu, porém, na restante composição do meio-campo, pois tanto Cambiasso como Verón não deram um contributo tão útil quanto seria desejável. Se é verdade que o futebol de rua de Verón ainda conseguiu ser útil na circulação de bola colectiva, também é certo que a sua presença inibiu a equipa de ganhar o mínimo de profundidade ao flanco direito, especialmente quando Messi era obrigado a pegar na bola na zona central. Ao longo da sua carreira, o veterano Verón nunca foi jogador para percorrer áreas muito extensas; toca muito bem a bola, mas em espaços curtos, numa zona necessariamente delimitada. No entanto, este último detalhe ainda é agravado pela crescente falta de resposta física quando o adversário actua com mais intensidade. Contra o México e Brasil, desafios em que a Argentina não pôde contar com o ponta-de-lança Crespo para desgastar os defesas adversários e eventualmente servir de pivot, Messi teve de deambular muito pelo eixo e pelo flanco esquerdo para conferir dinâmica ao ataque. Isso implicaria que os médios-interiores Verón e Cambiasso tivessem de ter uma participação mais válida na fase ofensiva. Frente ao México, o jogo resolveu-se com a rebeldia de Messi, infortúnio do adversário com remates ao ferro da baliza de Abbondanzieri e também com alguma falta de cuidados defensivos por parte dos tricolores. Todavia, o Brasil não deu o mesmo tipo de facilidades e tanto Messi como Tevez foram engolidos pela teia dos brasileiros. Verón não teve pernas para acelerar e esticar o jogo e Cambiasso não é adequado para actuar junto ao flanco. Tudo somado deu em 0-3.

Esse foi, aliás, um dos pontos negativos do desempenho de Basile nesta Copa América. Perante adversários mais frágeis, como EUA e Colômbia, poderiam ser cometidos mais erros tácticos, que depois o talento individual de Messi, Riquelme ou Tevez resolvia. No entanto, esses equívocos do meio-campo nunca foram corrigidos a tempo de evitar problemas perante uma táctica mais bem preparada, como a do ferrolho do Brasil. Cambiasso é um jogador perfeito para recuperar bolas imediatamente à frente da defesa. Na posição onde actuou Mascherano, portanto.

Só que colocar o médio do Inter junto à linha lateral esquerda é diminuir-lhe mais de metade do potencial, ainda que colabore sempre com uma pequena percentagem nos roubos de bola e na marcação. Projectando para desafios com maior grau de dificuldade, a Argentina tem de apresentar um onze mais dinâmico entre sectores. Não podem ser apenas os dois/três elementos mais adiantados a criar roturas e haver dois médios que, por motivos diferentes, não conseguem incutir velocidade na fase de definição ofensiva. Verón ainda conserva cicatrizes do mais agreste futebol de rua e resolveu bem algumas das situações mais complicadas que enfrentou em disputa directa. No entanto, e agora só reportando à questão de Verón, até que ponto Lucho González (em plenas condições físicas) não teria sido uma opção mais benéfica na globalidade das acções colectivas? Pablo Aimar entrou bem nas segundas-partes para dar rapidez ao último terço do campo, mas talvez Lucho pudesse ter sido um melhor ponto de equilíbrio na meia-direita do que o antigo jogador da Lázio e Manchester United.


Um espectáculo à parte

Apesar de não ter tido uma exibição fulgurante na final, Lionel Messi pode ter sido o melhor jogador desta edição da Copa América. Acima do melhor marcador, Robinho. Messi foi espalhando lances espectaculares durante a prova e culminou com um chapéu fabuloso ao guarda-redes do México, reforçando, uma vez mais, a ideia de que é quase um crime um adepto de futebol perder um jogo em que participe o pequeno extremo.

Com a ausência do lesionado Crespo e das exibições pouco convincentes de Diego Milito, Messi tomou mais liberdade para percorrer outras zonas do ataque, em troca constante de posições com Tevez, por exemplo. Messi é mais forte partindo do flanco direito, mas, em qualquer que fosse a sua posição temporária, não deixou de ser o jogador mais difícil de derrubar. Velocidade e potência tremendas. Fenomenal!


Luís Catarino


» 2007-07-20
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