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CAN / Gana 2008

Angola: O perfil dos Palancas Negras



Gilberto, Manucho e Flávio: as três principais figuras dos Palancas Negras


Os Palancas Negras despediram-se da CAN 2008 com um desempenho globalmente positivo, mas há alguns detalhes nos quais o seleccionador, Luís Oliveira Gonçalves, pode e deve incidir mais atenção na preparação para as competições de 2010 – Angola irá acolher a próxima edição da CAN e tentar qualificar-se para o Mundial da África do Sul do mesmo ano. Se é verdade que, por enquanto, a dupla de ataque está muitíssimo bem entregue a Flávio e Manucho, haverá maiores preocupações no que diz respeito à composição da linha defensiva e na falta de concentração quando a equipa está sob pressão.


Falta de soluções nas saídas para o ataque


Não se pode dizer que Angola tenha mostrado uma grande variedade de soluções no momento das transições ofensivas. A opção quase sempre utilizada pelo guarda-redes e pelos defesas-centrais era a de colocar bolas longas para os avançados, pois foram raras as vezes em que os defesas-laterais davam largura para receber a bola junto à linha lateral na primeira fase de construção. A ideia de Luís Oliveira Gonçalves era a de salvaguardar a protecção do eixo central porque Kali e Rui Marques ainda não tinham rotinas suficientemente desenvolvidas entre si e podiam ter bastantes problemas caso houvesse uma perda de bola da equipa com consequente ataque rápido do adversário. Por outro lado, Marco Airosa e Yamba Asha manifestam algumas debilidades técnicas e não foram encorajados a abrir tantas vezes nas laterais, também porque não são eficientes na condução e entrega de bola. Desta forma, por razões de incapacidade técnica e de precaução táctica, muitas vezes parecia que a equipa actuava com quatro defesas-centrais.


Urgente: treinar situações defensivas de bola parada

Em qualquer um dos quatro jogos disputados na CAN 2008, Angola revelou falhas gritantes ao nível da concentração em situações defensivas de bola parada: um pontapé de canto ou um livre do adversário causavam pânico em quase todos os jogadores angolanos. Oliveira Gonçalves terá que treinar este aspecto de forma mais intensiva, pois é inaceitável que tantos jogadores fiquem tão confusos nas marcações e no posicionamento. Mas não foi só ao nível das bolas paradas que a desorientação defensiva se verificou. Quando as equipas da África do Sul, Senegal e Egipto aceleraram nos últimos 35 metros, Angola teve muitas dificuldades em manter uma disposição ordenada da sua estrutura defensiva. Kali e Rui Marques esconderam alguns dos seus limites – velocidade e técnica – com esforço e bravura inexcedíveis, mas a verdade é que, em conjunto com os defesas laterais, a linha mais recuada dos Palancas nem sempre teve a capacidade para reagir da melhor forma quando o adversário aumentava o ritmo.


O bom futebol de Gilberto

Um dos jogadores mais fascinantes dos Palancas Negras e que transporta para os relvados alguns laivos do futebol de rua. Face à ausência de Figueiredo, que foi titular apenas na 1.ª jornada, frente à África do Sul, Gilberto assumiu, sempre que possível, a organização no eixo do meio-campo. Elegante no trato e condução de bola e craque na colocação do corpo a proteger a bola, foi o elemento mais capaz de fazer circulação de forma prática, conseguindo ainda misturar a sua vocação ofensiva com uma notável disponibilidade na recuperação durante os 90 minutos.

Gilberto, 25 anos, é, nesta altura, o complemento ideal para André Macanga, o médio mais defensivo. Ambos são altos, mas André é muito mais vigoroso e baseia o seu jogo nessa pujança física. Com a saída de Figueiredo do onze inicial e com a inclusão de Maurito e Zé Kalanga nas alas, o capitão André ficou mais fixo à frente da defesa e esse facto foi importante para que a equipa ganhasse mais bolas pelo ar naquela zona fulcral. No entanto, à semelhança de Airosa e Asha, André cometeu algumas faltas escusadas e prejudicou a subida da equipa em certos momentos. Ainda em relação a Gilberto, também o vimos descair nas alas para efectuar cruzamentos com o seu pé esquerdo para a grande área.


Zé Kalanga e os habituais problemas de travões


Oliveira Gonçalves começou por atribuir a titularidade a Mendonça (extremo) e Figueiredo (médio-centro), mas ambos não regressaram ao onze inicial nos outros desafios. Assim, o seleccionador apostou em Zé Kalanga para o lado direito do meio-campo. A capacidade de aceleração do jogador do Boavista é espectacular, mas exige-se, obviamente, muito mais consistência na objectividade dos lances. É muito frequente Zé Kalanga desatar a correr para a frente sem um propósito definido e depois perder a bola porque nem sequer antecipou a conclusão da jogada. Consegue meter a quinta velocidade, mas depois os problemas surgem porque teima em não abrandar. De qualquer modo, mesmo que nem sempre tenha sido utilizado da forma mais inteligente, o F1 de Zé Kalanga impôs algum respeito nos adversários. Foi do jogador boavisteiro o cruzamento para o golo de cabeça de Manucho na vitória ante o Senegal.

Maurito, que nos últimos tempos tem tido problemas com lesões, actuou próximo do lado esquerdo. Uma vez que é destro, flectia muitas vezes para o meio e no jogo com o Senegal realizou uma grande jogada, com um drible espectacular sobre Diomansy Kamara seguido de um remate fortíssimo a cerca de 30 metros da baliza (boa defesa de Tony Sylva). Porém, Maurito também saiu do lado esquerdo para deambular noutras zonas do meio-campo adversário, dando mais algumas linhas de passe a Gilberto. Não teve um desempenho brilhante na prova, mas a intenção de Oliveira Gonçalves era a de dar mais consistência à linha do meio-campo. Por esse motivo é que Mateus (Boavista) não jogou mais minutos.


Manucho e Flávio: a grande dupla de ataque

Antes do início da competição, havia alguma expectativa em ver Manucho em acção. O jogador recentemente contratado pelo Manchester United e que irá representar o Panathinaikos, por empréstimo, até final da temporada – será, portanto, orientado pelo antigo adjunto de Carlos Queirós no Real Madrid, José Peseiro – actuou pela primeira vez numa edição da CAN. Manucho, 24 anos, aproveitou da melhor forma a oportunidade de ser titular nesta prova de prestígio internacional e marcou 4 golos. Com o guarda-redes Lama e o resto da defesa a optarem frequentemente por lançamentos longos para o meio-campo adversário, o principal destinatário era Manucho, pois é consideravelmente mais alto que Flávio e teria mais hipóteses de ganhar no jogo aéreo. De facto, a impulsão e a elevada estatura são características que se destacam neste ágil avançado com grande propensão para o jogo de cabeça. Também sabe jogar bem com a bola no chão, tem uma passada elegante e um remate explosivo com o pé esquerdo, como fez questão de mostrar no jogo frente ao Egipto ao assinar um golo fantástico com um tiro de fora de área. Falta-lhe ainda a experiência necessária em campeonatos mais competitivos e saber definir o último passe com mais exactidão. Apesar de “já” ter 24 anos, nota-se que ainda tem bastante potencial para evoluir.

A personalidade pacata e serena de Manucho é o contraste quase total com a de Flávio, o seu companheiro no ataque. O rebelde Flávio, 28 anos, é um dos melhores avançados da actualidade a jogar em África e tem esse traço característico de refilar por todas as razões possíveis. Na partida dos 1/4 de final até pode ter tido mais razões para se sentir zangado com o mundo, não tanto pelo lance polémico que deu origem à grande penalidade do primeiro golo do Egipto (apesar dos protestos excessivos por parte dos angolanos, a infracção de André é tão evidente quanto ingénua…), mas sobretudo porque fartou-se de sofrer faltas cometidas pelos adversários, alguns deles companheiros seus do Al-Ahly.

Flávio é daqueles que nunca desiste e está sempre disposto a lutar pelo resultado. Trabalhou muito bem em conjunto com Manucho, tanto na pressão que ambos exerciam nas saídas do adversário para o ataque, como também em posse de bola, onde desenharam bons movimentos de tabela e roturas. Flávio possui a particularidade de ter uma facilidade impressionante em jogar com o pé direito ou esquerdo, o que lhe dá uma desenvoltura técnica muito grande. Gilberto, que curiosamente joga com Flávio no Al-Ahly, também tem alguma facilidade nesse aspecto.


A barreira do medo

Enquanto a bola estava nestes dois avançados, não se notou que Angola tivesse dificuldades em assumir a responsabilidade do jogo. Já o mesmo não se passou com alguns outros elementos, que terão acusado mais alguns complexos de inferioridade perante determinados adversários, às vezes sem motivos práticos para isso. Angola tem ainda de ultrapassar essa barreira do medo perante selecções com mais nome e a situação vai certamente melhorar à medida que continuarem a surgir bons resultados. A vitória contra o Senegal, por exemplo, foi mais um grande passo para que os angolanos adquiram mais confiança e possam confrontar as maiores potências africanas, efectivamente, de igual para igual. Contudo, no caso do Egipto, é preciso ter em conta que se trata de uma equipa de um nível competitivo completamente diferente. Ou seja, não foi pela incapacidade psicológica que os Palancas Negras foram eliminados nos 1/4 de final. Contribuiu, mas não foi esse o factor decisivo.


Resultados:

Grupo D
África do Sul (1-1: Manucho 29)
Senegal (3-1: Manucho 50, 67 e Flávio 78)
Tunísia (0-0)

Quartos-de-final
Egipto (1-2: Manucho 25)


Luís Catarino

» 2008-02-09
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