Internacional
Recompensa pouco fenomenal

Nos finais da década de 90, Giacinto Facchetti comentava com alguém que estava ao seu lado a assistir a um treino da Inter no Centro de Appiano Gentile: “Nunca pensei que fosse possível alguém fazer uma coisa destas!”. O autor da jogada sensacional que provocou um arrepio em Facchetti foi exactamente o mesmo que, meses antes, em Compostela (1996/7), deixara Bobby Robson de mãos na cabeça, na sequência de um golo que demorou 12 segundos a ser concebido e que viria a passar 180 vezes em 48 horas nos canais de televisão espanhóis.
Esta semana, cerca de dez anos depois dessa escultura dinâmica de Compostela, as imagens televisivas exibidas em torno de Ronaldo são significativamente diferentes. É certo que se mantêm as repetições exaustivas e as “mãos na cabeça”, mas o conteúdo mudou drasticamente. O Fenómeno, que já tinha rompido o tendão rotuliano do joelho direito por duas vezes (rotura parcial em 1998 e rotura total em 2000), sofreu, no último jogo do Milan, contra o Livorno, uma rotura total no tendão do joelho esquerdo e vai, agora, cumprir um plano de recuperação de aproximadamente um ano.
A chegada de Ronaldo à clínica de Paris, aonde se deslocou para ser operado, foi acompanhada por dezenas de jornalistas e fotógrafos. Ao ver o melhor marcador da história das fases finais de Mundiais refugiado no banco traseiro do automóvel, munido de uns óculos escuros que tentavam camuflar o desgaste do rosto e socorrido da fiel bolsa de gelo que lhe arrefecia o joelho, a minha primeira reacção foi procurar jogos antigos e, dessa forma, desligar de toda aquela degradante sequência de imagens filmadas à porta da unidade hospitalar.
É difícil aceitar que este corpo que hoje parece feito de porcelana seja o mesmo que, há alguns anos, tinha força para um arrebatador hat-trick frente ao Valencia em Camp Nou. É, também, recorde-se, o mesmo que, na final da Taça UEFA de 1998, entre Inter e Lazio, tinha registado uma exibição do outro mundo, a ponto de ter deixado o habitualmente sereno Alessandro Nesta num invulgar estado de nervosismo e impaciência perante a velocidade assombrosa com que o brasileiro executava os dribles e todo o tipo de jogadas.
Mesmo sabendo que Ronaldo já não era capaz de emular os lances do passado, fica sempre uma sensação de injustiça pelo facto de ver que a recompensa pelos inúmeros e singulares momentos protagonizados nos estádios de futebol acaba por ser um par de canadianas, um saco de gelo, mais uma longa cicatriz e infindáveis horas passadas no centro de fisioterapia.
Luís Catarino
» 2008-02-15