O que correu assim tão mal no primeiro jogo do Brasil? Houve vários detalhes que levaram à derrota neste desafio inaugural e que originaram uma série de críticas ao trabalho de Dunga na selecção. Desde falhas no sistema e modelo de jogo, até à boa capacidade de marcação dos mexicanos, houve, de facto, razões suficientes para que as coisas não tivessem corrido da melhor maneira para o Brasil.
Dunga fez alinhar Gilberto Silva e Mineiro como médios mais defensivos no eixo, enquanto Elano era um médio interior-direito de equilíbrio, prevendo subidas de Maicon pelo flanco ao mesmo tempo que complementava a marcação no eixo e tentava dar alguma (pouca) elasticidade ofensiva. Diego seria, em teoria, o pensador da equipa, em linhas mais adiantadas em relação aos anteriores. Depois, Robinho teria um papel de grande mobilidade no apoio ao avançado-centro Vágner Love. Este era o desenho do Brasil.
O problema é que o México colocou em prática uma estratégia bastante cautelosa, privilegiando os lançamentos rápidos de longa distância para o velocíssimo Nery Castillo. Logo à partida, era visível que a aposta em três médios de essência defensiva era uma estratégia excessivamente prudente por parte de Dunga tendo em vista o controlo deste jogo específico. Hugo Sánchez utilizou um bloco com linhas muito baixas, convidando o adversário a entrar no seu meio-campo para depois recuperar a bola rapidamente e lançá-la para Castillo. O facto é que Diego não soube entender-se com a presença de Elano e o congestionamento na zona central ia sendo cada vez maior. E os espaços para o médio-ofensivo do Werder Bremen exercer a sua criatividade cada vez menores. O defesa-esquerdo Gilberto apenas subia quando tinha a posse da bola e era frequente vermos Robinho, que gosta de correr em velocidade do flanco esquerdo para o centro, completamente desapoiado e a perder a bola. Os mexicanos jogaram muito unidos e conseguiam ter, pelo menos, dois jogadores em cima das peças brasileiras mais propensas a desequilibrar (Robinho e Diego). Além disso, Vágner Love não recuava para oferecer linhas de passe e desmarcação. Assim, um lance mágico de Castillo e um livre directo de Morales marcavam 2-0 para o México ao intervalo.
A nova dinâmica com Anderson Dunga tinha de tomar medidas drásticas ao intervalo e fê-lo com as entradas de Anderson e Afonso Alves, tirando Elano e Diego. Foi uma alteração táctica de relevo, pois com dois avançados-centro (Vágner e Afonso Alves), Correa e Torrado – que não largaram Diego na primeira parte - tiveram de defender mais à zona, de forma a prevenir situações de igualdade numérica na defesa. Anderson foi a dose certa de ruptura que Dunga injectou na ‘Canarinha’. Alternando, fundamentalmente, entre o lado direito e o centro, o novo reforço do Manchester United exibiu um futebol de alto nível, com precisão no passe e alta-rotação na condução de bola. Tocando a bola no pé esquerdo, Anderson foi capaz de dar mobilidade nas linhas adiantadas do Brasil, ajudando igualmente Robinho a respirar e encontrar os melhores espaços para receber a bola. A partir das alas ou do corredor central, os dois protagonizaram uma dupla muito interessante na dinâmica ofensiva da selecção de Dunga durante a segunda parte. O México – como até se constatava pela direcção das entregas do guarda-redes Ochoa - manteve a sua estratégia de recorrer única e exclusivamente à velocidade de Castillo, que, sozinho, irritava toda a defesa brasileira. Nos descontos, podia ter feito o 3-0, mas falhou escandalosamente. Fica, também, a dúvida se o Brasil, com a nova dinâmica imposta pelo futebol de Anderson e Robinho, teria condições para alcançar um resultado melhor. A verdade é que a qualidade dos dois avançados-centro está longe de ser a ideal para uma selecção com a exigência do Brasil. Mesmo valorizando a boa exibição de Rafael Márquez, seremos sempre forçados a apontar o dedo à incapacidade de Vágner Love e Afonso Alves em definir ou finalizar lances de ataque com a melhor eficácia.
Chile I: As alterações no meio-campoApós a derrota com o México, teria de ser o Chile a pagar a factura. Dunga escolheu praticamente o mesmo onze que alinhou de início na partida inaugural, mas apenas com uma diferença. Diego, que tivera uma exibição frustrante, foi para o banco, substituído por Anderson, que esteve num plano muito aceitável naquela segunda parte contra os centro-americanos. Anderson começou a actuar mais do lado direito do ataque, sempre com tendência para entrar para o meio. Uma vez que Robinho é muito mais forte na esquerda e Anderson estava já a ocupar o lado direito, Elano (mais adiantado em relação a Mineiro) ficou, desta vez, a cobrir o lado interior-esquerdo, zona onde talvez conviesse pressionar mais alto de modo a dificultar os arranques do influente e irreverente playmaker chileno Valdivia, que tem muito boa aceleração com bola. Refira-se que os chilenos defenderam de forma desapoiada - sem que os defesas e médios efectuassem dobras entre si - e isso reflectiu-se na maior facilidade que os brasileiros tiveram em manobrar no meio-campo adversário. Com a substituição do lesionado Maicon (ombro) por Daniel Alves, Elano passou, então, a fechar mais vezes o lado interior-direito para cobrir as subidas do jogador do Sevilla.
O Brasil alcançou o primeiro golo aos 40 minutos e Anderson, que parecia não estar nas melhores condições físicas, foi substituído por Júlio Baptista ao intervalo. O 4-3-3 manteve-se, mas agora com Júlio Baptista a repartir esforços entre a clausura do meio-campo e a criação de rupturas nos últimos trinta metros pela faixa central.
EquadorDevido ao afastamento de Anderson por lesão, Júlio Baptista ganhou a titularidade em definitivo e foi convencendo Dunga que seria uma boa opção para a equipa titular. Assim, no terceiro jogo, com o Equador, o Brasil voltou a controlar grande parte do desafio, privilegiando os ataques pelo lado esquerdo por Robinho. Tal como Júlio Baptista, também Josué não mais largou a titularidade, formando com Gilberto Silva e Mineiro o meio-campo ideal de Dunga na Copa América. O Equador, com um meio-campo bastante desarticulado, revelou imensas dificuldades em sair a jogar e o Brasil teve nova tarefa facilitada. Na segunda-parte, perante uma tentativa de resposta dos equatorianos, Dunga substituiu Júlio Baptista por Diego, a fim de incutir maior capacidade de circulação e gestão da posse de bola, travando o breve ímpeto do adversário.
Chile II: O massacreNos quartos-de-final, o Brasil encontrou o Chile, selecção que havia já defrontado na fase de grupos. A principal referência na organização dos ataques, Jorge Valdivia, não estava nas melhores condições físicas e só participou na segunda parte. O Brasil aproveitou também essa baixa na equipa titular chilena e foi para o intervalo a vencer facilmente por 3-0. Visivelmente descoordenados no plano táctico, os chilenos, orientados por Nelson Acosta, não tiveram qualquer hipótese de aguentar o vendaval ofensivo do Brasil desencadeado por Robinho.
Uruguai: Defender cedo de maisO Uruguai foi o adversário dos brasileiros nas meias-finais. Agressivos nas marcações, os uruguaios constituíram-se como uma oposição complicada para Dunga, que começou a defender muito cedo a vantagem de 2-1. O bloco brasileiro baixou demasiado e tanto Mineiro como Maicon tiveram problemas em segurar a hiperactividade de Fucile e Cristian Rodríguez. Aliás, foi de uma jogada entre os dois últimos que surgiu o golo do empate assinado por ‘Loco’ Abreu com conclusão ao segundo poste. Vitória brasileira nos penalties.
Argentina: Cometer faltas, sim. Mas longe de DoniFace à Argentina, o Brasil apontou um golo aos quatro minutos. Bastante mais cedo do que Dunga certamente esperaria. Aproveitando um passe displicente de Messi a meio-campo, Elano – substituiu o castigado Gilberto Silva no onze titular – viria, alguns segundos depois, a executar um passe longo para as costas de Ayala. Júlio Baptista recebeu, ganhou facilmente espaço ao defesa argentino e desferiu um remate que Abbondanzieri não conseguiu parar. Por razões que enunciamos num texto dedicado à Argentina de ‘Coco’ Basile, o Brasil foi capaz de controlar quase toda a partida. Josué e Mineiro tiveram um jogo de coberturas à sua medida, enquanto Júlio Baptista foi um auxílio muito importante no desarme do adversário.
O meio-campo brasileiro cometeu imensas faltas. Dunga sabia que Messi e Tevez não poderiam avançar para a grande área com a bola controlada e por isso é que o seleccionador brasileiro alertou os seus jogadores para cometerem faltas bem longe da grande área de Doni. As chamadas “faltas inteligentes”. Primeiro, para evitar os livres directos de Riquelme. Segundo, porque era menos provável que essas faltas significassem cartão amarelo. Terceiro, e provavelmente o motivo mais importante, porque era mesmo a melhor zona para travar a mobilidade de Messi e Tevez – caso estes conseguissem receber e virar, seria muito complicado defendê-los. Foi essa, aliás, a principal dificuldade da Argentina em criar lances ofensivos, pois na ausência de um ponta-de-lança alto como Crespo para disputar bolas pelo ar, Basile tinha de fazer os atacantes buscar jogo em linhas recuadas, sempre pelo chão. O Brasil ganhou por 3-0, com mais dois golos resultantes de ataques rápidos.
A defesa
Uma referência especial para Juan. O defesa-central que irá actuar na Roma a partir de 2007/8 tem vindo a registar uma boa evolução e é, hoje, um jogador menos nervoso, apesar de ter passado um mau bocado no confronto com Nery Castillo no primeiro jogo. Concentrado, viril e determinado em vencer o jogo aéreo, foi capitão na final devido à ausência do castigado Gilberto Silva. Dobrou muitas vezes o defesa-esquerdo Gilberto, que nem sempre revelou um posicionamento adequado. O antigo flop do Inter é bastante permeável e não demonstra uma presença dominadora no flanco. Actualmente no Hertha de Berlim (colega de Mineiro), é um jogador perfeitamente mediano para a dimensão da selecção brasileira.
Já vimos Alex realizar jogos exibições bem melhores com a camisola do PSV, mas, mesmo assim, notou-se que é um dos poucos jogadores de classe mundial da actual ‘Canarinha’. Imbatível no jogo aéreo, o novo elemento do Chelsea raramente deixou os adversários ganhar confiança. Houve apenas a excepção protagonizada pelo endiabrado Castillo, mas que foi uma circunstância sobretudo derivada de alguns equívocos tácticos de Dunga no início.
Maicon nunca esteve a 100% na Copa América, mas, globalmente, teve um bom desempenho na competição. O seu drible característico de colocar a bola por um lado e ir buscá-la pelo outro ainda chegou a ser utilizado nalgumas ocasiões e não ficou a perder para Daniel Alves em rendimento ofensivo. Este último não jogou com a mesma agressividade que mostra no Sevilla, mas ainda ajudou a selecção em momentos importantes – por exemplo na final, “cruzando” para o auto-golo de Ayala e marcando o terceiro golo; actuou como médio-direito (substituindo o lesionado Elano) à frente de Maicon. Alex Silva, irmão do benfiquista Luisão e habitual defesa-central, jogou poucos minutos como defesa-direito no desafio contra o Equador.
O meio-campoTal como o guarda-redes Doni, o baixinho Josué (28 anos) foi ganhando cada vez mais confiança com o andamento da competição. Actuou como médio-defensivo do lado esquerdo e, bem como Mineiro (fará 32 anos em Agosto) do lado direito, ajudou Gilberto Silva na recuperação de bola. Dunga pretendia exactamente isso – um trio de contenção, mas que houvesse dois jogadores que acompanhassem os defesas-laterais quando estes transitavam para o meio-campo adversário. Sem o castigado Gilberto Silva, tanto Josué como Mineiro encontraram na final com a Argentina a melhor altura para realizar um jogo de acordo com as suas características em matéria de recuperação. Josué mais atento aos movimentos de Messi do flanco para o eixo central, ao passo que Mineiro seguia Riquelme com uma marcação mais individual, sempre sob a atenção de Josué. Nem tiveram de correr grandes distâncias. O médio do São Paulo tem a grande desvantagem do fraco poder de choque.
O capitão Gilberto Silva esteve ausente da final devido a castigo, mas exerceu um ascendente muito positivo sobre os colegas durante a prova. É um líder, uma referência necessária à selecção. Não tem a mesma energia de há uns anos, mas é perfeito na leitura dos movimentos do adversário. Dunga reservou-lhe o papel de médio-defensivo mais recuado.
O ataqueAndersonNão fossem os recorrentes problemas físicos, Anderson poderia ter sido uma das estrelas da Copa América. A forma em como agarrou o jogo na segunda parte contra o México foi suficiente para ver que não há camisola que pese para o ex-jogador do Porto. A precisão com que executa o passe rasteiro é absolutamente fenomenal e é realmente uma pena que não o tenhamos visto durante mais tempo em competição. Protege e toca a bola como os melhores predestinados e é, claramente, um dos jogadores de grande categoria deste Brasil. É pelo corredor central que melhor consegue exercer a rapidez do seu futebol.
Júlio Baptista
O possante Júlio Baptista acabou por ser um dos jogadores com desempenho mais satisfatório. Especialmente comparando com Diego, foi muito útil a Dunga na prossecução do plano defensivo, com auxílio permanente aos médios mais trabalhadores. No plano ofensivo, tentou entender-se com Robinho, mas são dois jogadores com realidades futebolísticas muito distintas. Naturalmente que Júlio Baptista hesita um pouco mais no momento do passe e não tem um terço da técnica de Robinho para que tivesse sempre sucesso nas tabelas. No entanto, foi bastante combativo e útil a disputar bolas pelo ar, pois essa não era, em definitivo, a especialidade do avançado-centro Vágner Love e não havia mais ninguém para desempenhar essa tarefa no meio-campo contrário.
RobinhoVisivelmente mais desenvolvido a nível de massa muscular, Robinho foi o principal dinamizador do ataque brasileiro, não encontrando em Vágner Love o avançado ideal para concluir as suas jogadas de ataque com mais propriedade. Preponderante nos últimos trinta metros - pela esquerda, ou pelo meio -, também recuou com alguma frequência para lutar pela bola. Fantasia, velocidade e agressividade – ingredientes básicos para um dos futebolistas mais entusiasmantes da actualidade. Terminou a Copa América como melhor marcador da prova. Schuster aguarda ansiosamente por ele em Chamartín.
Vágner LoveUm dos jogadores mais fracos da equipa titular. Face à súbita lesão de Fred e à condição fragilizada de avançados como Adriano ou Ronaldo, o seleccionador brasileiro decidiu apostar em Vágner Love para principal avançado-centro da ‘Canarinha’. Não podemos dizer que o jogador do CSKA Moscovo não tenha trabalhado para recuperar a bola em linhas recuadas ou tentar uma tabela, mas os seus limites são perfeitamente evidentes. Atrapalha-se no 1v1, precipita-se a tomar decisões e nem sequer desgasta as defesas. Se o Brasil tivesse um avançado-centro mais dominador na grande área e com melhor capacidade de finalização, muito provavelmente os lances ofensivos teriam tido mais consequência.