Argentina
A definição de simplicidade segundo Riquelme
Apareceu e volta a desaparecer.«Há jogadores que às vezes têm coragem porque não seguem a corrente. Faltam rebeldes no futebol.»Esta afirmação pertence a José Pekerman e foi proferida numa entrevista concedida pelo técnico argentino há alguns meses à revista brasileira ‘Trivela’. Decidi recuperá-la precisamente porque o sujeito rebelde implícito na utopia de Pekerman é o mesmo jogador que decidiu os dois últimos jogos da Argentina: Juan Román Riquelme.
Ostracizado por Pellegrini no Villarreal, pelo menos
ad Invernum, Riquelme só no último fim-de-semana voltou a jogar uma partida oficial, três meses depois da derradeira presença na final da Copa América.
Pekerman diria que a Pellegrini, tal como a Van Gaal, faltou capacidade de diálogo para desenvolver um trabalho adequado ao médio argentino. Segundo Pekerman, a marginalização é muitas vezes a sina dos jogadores com mais horizontes, que são dotados de uma visão e uma autonomia mais ricas do jogo – como é, no seu entender, o caso de Riquelme. Apesar da inegável existência de talento, o problema surge quando essa boa capacidade de leitura e consolidação de ideias dos futebolistas interfere e/ou colide com as pretensões dos seus treinadores. Aí, sem cedências e sem a tal manifestação de diálogo, as relações podem complicar-se de forma irreversível.
Uma vida de pugilista“Vou tentar dar o meu melhor domingo a domingo” é daquelas expressões que não iremos ouvir da boca de Riquelme nos próximos tempos. A fase actual do médio-ofensivo lembra-nos mais a de um pugilista que na sua agenda só tem combates importantes de poucos em poucos meses. Até chegarem esses combates, a vida de Riquelme é simples. Vai treinando livres e mais livres no El Madrigal, à espera da próxima convocatória de Basile para a selecção.
A simplicidade com que Riquelme, sem precisar de correr, arrumou o Chile (por ironia, o país de origem de Pellegrini) com dois livres directos, ou como assistiu Gabriel Milito no jogo contra a Venezuela, é o extremo oposto da sua complexa personalidade. O treinador que encontrar o ponto de equilíbrio entre os seus conceitos de jogo e as especificidades muito particulares de Riquelme tem caminho aberto para o sucesso. Porém, também no caso dos treinadores, é preciso saber ser minimamente rebelde para ir contra a corrente. Contas simples, para Riquelme.
Luís Catarino
» 2007-10-19