CAN / Gana 2008
Nigéria: A ilha de Obi Mikel
Obi Mikel vence o lance disputado com o ganês Annan.A selecção nigeriana não fazia parte do grupo de principais favoritos à conquista do troféu, mas esperavam-se melhores exibições por parte das Super Águias. Ao longo da competição, Berti Vogts foi testando várias alterações nas linhas mais adiantadas e a verdade é que nunca conseguiu assumir um estilo de jogo claro. Os nigerianos ganharam apenas uma partida nesta edição da CAN – frente ao Benim, na 3.ª jornada da fase de grupos, garantido o 2.º lugar e consequente apuramento – e acabaram eliminados nos 1/4 de final pela selecção anfitriã, sofrendo o derradeiro golo perto dos 90 minutos quando tinham mais um jogador em campo face à expulsão do capitão ganês, John Mensah. Obi Mikel, 20 anos, foi o melhor da Nigéria na prova, mas a sua maior qualidade de jogo nem sempre teve o melhor acompanhamento no resto da equipa.
O efeito Kanu Nwankwo Kanu, o capitão e o jogador com mais experiência internacional da equipa, actuou apenas 55 minutos na CAN 2008. Foi titular na 1.º jornada, na derrota com a Costa do Marfim, mas uma lesão contraída nesse desafio negou-lhe a presença nos restantes. Berti Vogts tinha colocado o atacante do Portsmouth com funções de organizador numa segunda linha do meio-campo, adiantado em relação a Obi Mikel e Olofinjana e ligeiramente inclinado para o lado esquerdo. O objectivo do seleccionador alemão era aumentar a capacidade técnica da equipa nos últimos 35 metros e, aproveitando a sua reconhecida qualidade nas assistências, soltar passes precisos para as desmarcações de Obafemi Martins e Yakubu Aiyegbeni.
Contudo, as coisas não correram como previsto. Nos seus ínfimos 55 minutos de participação na CAN 2008, Kanu manifestou algumas dificuldades em soltar-se da parede montada por Yaya Touré e Zokora, prendeu demasiado a bola e denotou bastante lentidão no processo de construção de jogo. A razão deve-se a vários factores e não só às próprias características de Kanu. A verdade é que a maioria dos jogadores da equipa não soube pressionar o adversário e mostrou-se muito pouco disponível na procura dos espaços na fase ofensiva.
Apatia na pressão e ocupação dos espaços
A Nigéria mostrou um modelo de jogo pouco trabalhado, especificamente na forma como (não) pressionava o adversário e como depois se projectava após a recuperação da posse da bola. Nunca existiu um desenho de pressing verdadeiramente eficiente na selecção nigeriana. Inicialmente, quando Martins ainda era titular (1.ª e 2.ª jornadas), tanto ele como Aiyegbeni não manifestaram coordenação no modo como deviam tapar os espaços da primeira fase de construção do adversário. Com as saídas de Martins e Utaka - entradas de Odemwingie e Uche - a situação melhorou um pouco, mas notava-se que Berti Vogts ainda estava a apalpar terreno e não havia um modelo de jogo tão definido como se desejava.

Além da falta de entrosamento dos atacantes na questão do pressing e nas dificuldades que não criavam aos adversários, também os médios-centro e os alas eram lentos a ler e a reagir. Exceptuando Obi Mikel, que se desdobrou em múltiplas tarefas – recuperação, condução, circulação e último passe – a Nigéria não conseguiu esconder algumas limitações no meio-campo. O médio-defensivo George Olofinjana, que joga em Wolverhampton, na Inglaterra, tem pouca eficácia no passe de curta e média distância e demorou sempre muito tempo a interpretar as várias situações defensivas para impedir a progressão dos adversários na altura certa. Olofinjana estava castigado para o jogo frente ao Benim (3.ª jornada) e Vogts chamou Etuhu para o seu lugar. O possante médio-defensivo, que é treinado por Roy Keane no Sunderland, é, porém, ainda mais limitado tecnicamente do que Olofinjana e quando ambos jogaram frente ao Gana, em duplo-pivot defensivo, com Mikel à frente, facilmente se pôde observar como não acrescentaram nada em termos de qualidade de jogo.
Já se sabia que Etuhu (depois Eromoigbe) e Olofinjana não tinham capacidade para conduzir a bola ao meio-campo contrário. Porém, exigia-se que, no jogo com o Gana, após a expulsão do ganês Mensah aos 60 minutos, a equipa mostrasse mais concentração, atrevimento e, sobretudo, maior capacidade para criar espaços de rotura e fazer a bola circular durante mais tempo entre os seus jogadores. O certo é que o Gana respondeu de forma espectacular, aumentando a velocidade nas alas com as entradas de Kingston e Draman e a Nigéria, completamente confusa, não teve elasticidade para sair do seu bloco baixo. Resultado? A sete minutos do final, Agogo marcou o segundo para o Gana. A Nigéria dizia adeus à CAN.
Algumas razões para o fraco desempenho de Martins Obafemi Martins tentou efectuar algumas desmarcações coordenadas com Aiyegbeni do lado esquerdo para o centro, mas nada de mais – quando, após o intervalo do desafio com a Costa do Marfim, Eboué passou a jogar a lateral-direito em vez do mais pesado Gohouri, Martins acabou. Nos dois únicos jogos em que participou (1.ª e 2.ª jornadas), Martins foi substituído e demonstrou estar claramente em baixo de forma, ou até lesionado. No entanto, mesmo tendo em conta que não estava no melhor das suas capacidades físicas e psicológicas, a Nigéria não tinha um jogo feito à medida das características do avançado do Newcastle. Para que uma equipa aproveite a velocidade supersónica de Martins, é quase obrigatório saber jogar com o bloco recuado. Ou seja, não basta colocar os jogadores em linhas baixas. É essencial que haja métodos bem definidos para soltar a bola de forma rápida e aproveitar o facto de os adversários demorarem tempo a reocupar as suas posições-base.
Se uma equipa estiver disposta a jogar dessa forma e, mais importante que tudo, ter capacidade técnica e táctica para desempenhar os papéis que se impõem, então Martins pode ser um jogador perigosíssimo porque tem condições para explorar o seu grande ponto forte, que é, obviamente, a velocidade. De outro modo, caso se imprima um jogo com transições mais lentas, como acabou por acontecer, primeiro com a inclusão de Kanu e, depois, com alguma inércia geral no jogo com o Mali, não haveria maneira de Martins apresentar um rendimento positivo. Trata-se de um jogador algo limitado em termos de controlo e condução de bola para trabalhar de costas para a baliza ou para desafiar o adversário em espaços mais apertados.
As melhorias com Odemwingie e Uche 
Na medida do possível, Peter Odemwingie e Ike Uche ajudaram a Nigéria a tornar-se uma equipa mais séria e competitiva depois de Vogts ter falhado a aposta em Martins e Utaka. Enquanto Odemwingie foi mais utilizado como extremo, Uche (na foto) actuou sobretudo atrás do ponta-de-lança, Aiyegbeni, que, ainda assim, recuava muito para vir buscar jogo. Uche, 24 anos, é um jogador fortíssimo a perfurar espaços nos últimos 30 metros, pois tem uma enorme capacidade de explosão. No seu clube, o Getafe, é habitual vemo-lo ligeiramente descaído para a direita com tendência para dobrar o ponta-de-lança, mas, aqui, não teve essa mobilidade no perímetro atacante e fixou-se muito mais no corredor central. Não é um jogador com uma visão e um toque de bola assim tão significativos para brilhar no último passe, mas, de facto, a romper as defesas em tabelas, é um futebolista incrível – nesta temporada, o Barcelona já passou um mau bocado com Uche pela frente. Tem um irmão que também joga em Espanha, no Almería, por isso não o confundam.
Quanto a Odemwingie, foi importante para dar mais força ao jogo pelas alas. John Utaka, que, nas vezes em que jogou, esteve sempre muito preso ao flanco direito e muito pouco activo no jogo colectivo, não foi capaz de fazer a diferença. Odemwingie foi um dos melhores da Nigéria em toda a prova e, pelo menos, foi dos que correu mais, quer em recuperação, quer nos movimentos de ataque. Jogou melhor quando encostado ao lado esquerdo, entrando bem na zona central quando em condução com o pé direito.
O talento de Victor Obinna Uma curta referência para este jovem de 20 anos que actua nos italianos do Chievo. Victor Obinna (jogou com Nsofor na camisola) ainda conserva alguns traços normais de imaturidade e vimo-lo precipitar-se ocasionalmente nas tomadas de decisão. Porém, há qualquer coisa de empolgante no seu estilo. No Chievo, Serie B, joga mais vezes como extremo-esquerdo em 4-3-3, aproveitando o facto de ser destro e poder rematar ou entrar na grande área em drible com mais facilidade. Contudo, nesta CAN, os seus melhores momentos até foram quando esteve no lado direito (v Benim). É muito rápido, joga sem medo, tem bastante força e uma técnica bem razoável que vai seguramente melhorar nos próximos tempos, pois precisa mesmo de ser mais refinado para se tornar mais consistente. Tem condições evidentes para ser um bom jogador no plano europeu.
O défice de Taiwo Se alguém achava que a Nigéria poderia ter uma palavra a dizer nesta CAN é porque havia na equipa jogadores como Taiwo, que actuam em clubes importantes do contexto internacional – Marselha, no caso. Taiwo é daqueles que figura nas criticas que terão de ser feitas à equipa no que diz respeito à falta de rapidez de leitura de jogo e no consequente mau trabalho defensivo. Tanto Taiwo como Nwaneri (substituiu Apam), mas principalmente o esquerdino, revelaram alguns problemas no controlo dos espaços, demorando muito tempo a reagir às iniciativas dos adversários, como, aliás, sucedeu com alguns outros jogadores de outras zonas do terreno. Fora os remates em força, que são a sua imagem de marca, Taiwo mostrou muito pouco, mesmo na fase ofensiva.
No centro da defesa, Joseph Yobo, capitão depois da lesão de Kanu, cumpriu bem no jogo aéreo, tal como o seu colega Danny Shittu, mas foi muito passivo no momento em que Kalou entrou na grande área nigeriana para marcar o golo da Costa do Marfim. Quanto a Shittu, fez todos os possíveis por esconder o excesso de peso, que, de facto, condiciona a sua mobilidade. De qualquer forma, aparenta ser mais lento do que realmente é.
A ilha de Obi Mikel O mais esclarecido da Nigéria e a bola nos seus pés estava sempre em terra firme. John Obi Mikel, que pertence ao Chelsea e ainda só tem 20 anos, demonstra uma óptima compreensão do jogo e esteve envolvido em quase todas as melhores jogadas da equipa. Foi obviamente importante a garantir alguma estabilidade no eixo do meio-campo com boa distribuição de passes e também com uma noção posicional e um sentido de desarme que compensou algumas limitações de Olofinjana e Etuhu. Porém, talvez a equipa tenha exigido demasiado de Mikel. Tanto tinha de estar sempre atento às movimentações defensivas, como também era chamado a executar o último passe para os avançados, como se tivesse que fazer esquecer Jay Jay Okocha, o grande criativo da Nigéria dos últimos anos. Apesar de ter efectuado um bom lançamento para o golo de Aiyegbeni, Mikel não é tão influente nos últimos 35 metros como em linhas mais baixas, pois é um jogador que não tem uma especial apetência para o drible rápido e aceleração. Jogando mais baixo, consegue aplicar melhor a sua boa capacidade para desarmar, proteger a bola e soltá-la a um, dois toques para o colega que esteja em melhor situação. É nesta simplicidade de processos, à frente da defesa, que se nota a sua verdadeira qualidade.
Resultados: Grupo B Costa do Marfim (0-1)
Mali (0-0)
Benim (2-0: Obi Mikel 52, Yakubu Aiyegbeni 86)
Quartos-de-final Gana: (1-2: Yakubu Aiyegbeni 34 pen.)
Luís Catarino
» 2008-02-12