Liga Portuguesa
Quando tudo se resolve no banco
Nas declarações proferidas após o clássico entre Sporting e Porto, Jesualdo Ferreira desvalorizou a questão do 4-4-2. O treinador dos dragões utilizou aquele sistema em detrimento do habitual 4-3-3 e, segundo ele, não foi devido a essa alteração que os campeões nacionais perderam em Alvalade. Será que não foi?
É óbvio que tudo poderia ter sido diferente se o Porto tivesse concretizado metade das claras oportunidades de golo de que beneficiou durante toda a partida. Lucho González, por exemplo, teve no pé direito a possibilidade de colocar os visitantes em vantagem logo aos 24 segundos. Se houve falta de inspiração no momento da finalização, será, então, legítimo incidir as críticas sobre a opção inicial de Jesualdo, que, em certa medida, possibilitou a criação de várias jogadas de perigo?
A questão incontornável está na forma como o Porto trabalhou a cobertura da zona defensiva no primeiro quarto de hora, precisamente até ao momento em que o Sporting recuou para gerir a vantagem de 2-0 com mais prudência. Naqueles primeiros 15 minutos, foi bastante notório o modo como a segunda linha de médios do Porto não marcava com acerto. A inclusão de Marek Cech acabou por confudir a própria equipa, pois não só o eslovaco tinha dificuldades em encontrar referências para fixar a marcação, como também Raúl Meireles e Paulo Assunção se viram mais atrapalhados na estabilização das suas posições.
1.º golo (Vukcevic 12')Reparem no primeiro golo do Sporting. O Porto, com pressão e vigilância mais próxima exercida por Lisandro e Lucho, estava a cumprir bem a tarefa de não permitir que Miguel Veloso distribuísse jogo, mas tudo falhou no lance do primeiro golo do Sporting. Pela primeira vez, Veloso teve imenso espaço e tempo para avançar desde a linha do meio-campo, desmarcou Izmailov, depois o russo driblou Bosingwa e cruzou para a grande área, onde estava Vukcevic.
1) Não houve um atacante do Porto que tivesse recuado para fechar a zona onde Veloso começou a progredir. Havia uma grande distância entre a linha de meio-campo e o local onde estavam Quaresma e Lisandro. Além disso, Lucho demorou muito a recuperar e a fechar a zona central.
2) Raúl Meireles, deslocando-se da esquerda para o meio, foi o primeiro a tentar bloquear a iniciativa de Veloso, mas foi muito à queima e acabou por ser ultrapassado pelo médio do Sporting, que depois também superou Paulo Assunção. Lance defensivo do Porto efectuado com pouca convicção e solidez e com jogadores fora das suas posições normais.
2.º golo (Izmailov, 14')No segundo golo, o Porto aliviou mal a bola por duas vezes. Paulo Assunção e Pedro Emanuel não tiraram a bola de zona perigosa da melhor forma e permitiram que o Sporting tivesse mais tentativas para desenvolver a sua jogada de ataque, até que Bruno Pereirinha acabou por efectuar o cruzamento que deu origem ao golo de Izmailov.
Este foi o melhor exemplo de como Marek Cech tinha problemas em fixar uma referência do Sporting para a marcação. Quando a bola foi da zona central para o lado direito leonino, Cech não estava recuado nem estava a antecipar a solicitação de Bruno Pereirinha. O eslovaco ficou num meio-termo muito pouco conveniente: a imagem da sua pálida exibição.
Quaresma para confrontar PereirinhaEm suma, depois de uma exibição tão personalizada e tão organizada em 4-3-3 como foi aquela do
Porto no Estádio da Luz, – e como muitas outras ao longo da temporada – Jesualdo terá surpreendido um pouco pela negativa. O treinador do Porto deu a ideia de ter montado a equipa demasiado em função dos tais “cinco médios” do Sporting e quis juntar Cech à linha do meio-campo. Contudo, o eslovaco desestabilizou a dinâmica defensiva e ofensiva colectiva.
Teria sido importante que Quaresma tivesse jogado de forma mais aberta no flanco, nomeadamente o esquerdo. Apesar de ser um jogador com potencial para desempenhar outras posições, Bruno Pereirinha vacila na cobertura defensiva quando actua especificamente a lateral. Esse tipo de debilidades do Sporting devia ter tido um melhor aproveitamento por parte de Jesualdo, que, em vez de confrontar alguns dos pontos mais fracos dos leões, retraiu-se com a opção Cech no meio-campo, o que fez com que Pereirinha tivesse aumentado gradualmente a sua confiança e terminado o desafio como um dos melhores em campo. Além disso, se o Porto,
desde início, tivesse aplicado uma maior largura com jogo pelos flancos e incutido mais mobilidade e trocas posicionais nos últimos 30 metros como aconteceu na Luz, João Moutinho teria menos liberdade de organização pelo eixo, pois tinha de auxiliar os laterais, neste caso Pereirinha, para que a equipa defendesse com superioridade numérica.
É verdade que o Porto teve oportunidades para marcar e, nesse aspecto, Jesualdo pode defender-se parcialmente da derrota. Porém, é importante referir que, nos dois lances que originaram os tentos do Sporting, o Porto mostrou alguma desorganização táctica que, porventura, não veríamos naquela fase inicial se Jesualdo tivesse mantido uma estrutura de 4-3-3 com Adriano ou Farías no onze alinhados com Quaresma e com o melhor jogador da edição 2007/8 da Liga, Lisandro López - por uma questão de manutenção de dinâmicas e rotinas (em todos os sectores), mas também de modo a demonstrar mais eficácia e persistência a explorar alguns pontos mais débeis do Sporting, como seria o caso dos defesas-laterais: Bruno Pereirinha e Ronny. Se Tarik Sektioui estivesse disponível, talvez nem sequer houvesse lugar a esta discussão.
A adaptação de IzmailovUm dos segredos para o Sporting ter vencido este clássico esteve na agressividade e disponibilidade para o trabalho. Izmailov, por exemplo, quando o Sporting passou a actuar com o bloco mais recuado, nunca desistiu de fechar a sua zona de marcação, embora seja evidente que não tem especial vocação para o posicionamento defensivo.
Vitória SC - SL BenficaManuel Cajuda e o minuto 61Já se percebeu que Manuel Cajuda não é um grande admirador do seu lateral-esquerdo, Luciano Amaral. É um jogador limitado técnica e tacticamente e, em partidas anteriores (devido a lesão ou a opção técnica), a solução passou pelo recurso a Desmarets para esse posto. No entanto, Desmarets é muito mais produtivo e útil à equipa quando actua do meio-campo para a frente, sem amarras. Quando Cajuda, logo depois do golo de Ghilas, colocou o ponta-de-lança Roberto e tirou Luciano Amaral, movendo Desmarets para lateral-esquerdo, quebrou o ritmo elevadíssimo que a equipa estava a demonstrar desde que Camacho foi obrigado a tirar o combativo Katsouranis do meio-campo para o colocar na defesa. Com aquela substituição aos 61 minutos, o Vitória perdeu capacidade de desdobramento e condução de bola no meio-campo adversário e isso facilitou o desempenho do Benfica no resto do desafio.
LC
» 2008-01-29