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Futebol como voz da contestação



A faixa branca sobre a bandeira negra da AAC simboliza o Luto Académico, em pleno topo sul do Estádio Nacional. (foto: "Coimbra, 1969").


"O
resto da população portuguesa dormia o seu sono prolongado, protegido pelas garras aduncas do fascismo. Sono de morte, que só uma manhã libertadora de Abril, cinco anos depois, havia finalmente de interromper”. Celso Cruzeiro - “Coimbra, 1969”.


Muitos verão a final da Taça de 1969, disputada entre Académica e Benfica, como um dos vários jogos em que Eusébio fez a diferença e adicionou mais um troféu para o palmarés do clube lisboeta. Contudo, o golo do Pantera Negra, marcado no prolongamento, até nem foi o aspecto mais destacável daquele 22 de Junho no Estádio Nacional.

Um ano depois do Maio de 1968 em França, vivia-se ainda um período conturbado da crise estudantil em Portugal. Os universitários de Coimbra, cidade marcada por uma mentalidade bastante aberta à discussão e ao confronto político, exigiam uma reforma democratizada do ensino e a autonomia das universidades. A intensidade da contestação e da repressão policial em Coimbra era de tal ordem que os estudantes, sob forma de faixas, panfletos, etc, fizeram questão de levar o Luto Académico a Lisboa, para que todos os que estivessem adormecidos no sono enunciado por Celso Cruzeiro acordassem para o combate à triste realidade do país.


A equipa de futebol em harmonia com a luta estudantil (foto: "Académica, História do Futebol").

O Presidente da República, Américo Tomás, bem como o Ministro da Educação, José Hermano Saraiva, não compareceram no Estádio Nacional, uma vez que já anteviam a grande dimensão do protesto que tinha começado nos estudantes, mas que viria a estender-se à própria equipa de futebol da Académica. Em caso de vitória, estava combinado que o capitão Gervásio convidaria Alberto Martins, então Presidente da Direcção-Geral da AAC, a acompanhar a equipa na volta de honra. O golo inaugural apontado pelo avançado Manuel António, aos 81 minutos, era um excelente prenúncio para o embelezamento do protesto académico, mas Simões e, depois, Eusébio, deram a vitória ao Benfica de Otto Glória num jogo em que o governo de Marcello Caetano impedira a transmissão televisiva da final, precisamente para não ampliar a dimensão da manifestação.

De qualquer modo, se ainda hoje a derrota da espectacular Holanda de Cruijff na final do Mundial de 1974, ante a RFA, é lembrada por alguns como uma vitória, talvez o desaire da Académica de 1969 tenha de ser considerado um triunfo ainda maior por aquilo que representou para o país a nível político e social. Afinal de contas, a manifestação movida por Coimbra até Lisboa em 1969 foi a maior contestação ao governo salazarista-marcelista que precedeu a Revolução dos Cravos. “Sabíamos que transportávamos o futuro nas camisolas e tínhamos a consciência que estávamos a dar visibilidade à crise”, disse José Belo, então defesa da Académica.


“Académica, História do Futebol”

Na passada sexta-feira, dia 18 de Janeiro, foi lançada uma extensa obra, da autoria de João Mesquita e de João Santana, que reforça justamente a memória de todos os episódios e individualidades que foram construindo a história da Académica ao longo dos anos. “Académica, História do Futebol” é uma verdadeira enciclopédia que, para além de possuir uma impressionante quantidade e qualidade de fotografias, de dados estatísticos e de testemunhos, relata os factos mais marcantes com profundidade, detalhe e rigor, num trabalho que regista igualmente um belíssimo arranjo gráfico. De todos os livros até agora concebidos em Portugal em torno de um clube de futebol, esta será a obra mais bem conseguida – em termos da escrita, da composição dos temas, da oportunidade na selecção das declarações.

Em qualquer zona do país, torna-se interessante conhecer essa relação tão próxima e tão rica que caracterizou (caracteriza?) o clube de futebol da Académica e a vida estudantil. Hoje, é certo, a industrialização e a profissionalização do desporto danificaram um pouco a viabilidade dessa relação, mas, tal como foi dito pelos autores, é essencial que, para se salvaguardar o futuro, não se deixe cair a memória e, sobretudo, os anos do inconformismo que ajudou a vincar a diferença. Mais do que modelos e sistemas tácticos, são estes factos históricos que acabam por formar a verdadeira identidade de um clube.


Luís Catarino

» 2008-01-23
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