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A razão da expetativa


Há pouco mais de um ano, Arsène Wenger foi questionado sobre qual o jogador que mais orgulho lhe deu treinar. Devido ao facto de ser um treinador com longos anos de mérito na evolução e lançamento de jovens futebolistas, a resposta, como facilmente se compreende, não foi imediata. Mas, alguns segundos depois, Wenger lá conseguiu eleger uma figura: George Weah.

Lembro-me sempre deste caso quando olho para Mantorras porque nunca conseguirei ter uma noção aproximada dos limites daquele diamante de 19 anos que, uma noite, em Alverca, se atreveu a pegar fogo à baliza do impávido Peter Schmeichel. Não tive a oportunidade de conferir isso, mas parece que o melhor que o grand danois conseguiu foi ver as labaredas que envolviam a bola.

Tal como Weah quando chegou ao Mónaco em 1988, Mantorras tinha um ou outro problema de coordenação, mas nada que não fosse possível melhorar com o tempo e porventura integrado numa equipa mais competitiva. No fundo, não era nada que o impedisse de, alguns anos mais tarde, poder vir a tornar-se num dos mais espetaculares pontas-de-lança do futebol internacional. Era inevitável que um jogador com tanta força e simplicidade tinha de provocar atração e expetativa, não só nos técnicos, como também no público e na crítica.

Num clube onde ainda hoje, apesar da presença de David Suazo, se vive a nostalgia dos estoiros de Izaías, não foi difícil aos seus adeptos acarinharem este miúdo angolano que tinha essa rara particularidade de colocar potência e alegria no campo, ao mesmo tempo que dava tudo o que tinha para os animar e entreter. Uma exasperante lesão na cartilagem do joelho fez com que as suas ambições diminuíssem ao longo dos últimos anos. É impossível que algum dia Mantorras alcance o nível que, durante muitos meses no início desta década, se pensou que ele poderia atingir.

Mesmo assim, dá-me algum contentamento saber que, no meio de tanto revés, ainda vai havendo tempo para protagonizar esporádicos lances de decisão. Frente ao Rio Ave, o concentrado molho de adeptos que se refugiava da chuva delirou com o golo do herói (im)provável, mas se calhar nenhum deles captou o mais aliciante de todos os detalhes. Repararam na expressão de Niquinha quando Mantorras o inutilizou com as costas? Aquela é uma pequena demonstração da cara de pânico de todos os defensores que encaram um atacante mais poderoso e que, apesar de estar a um quinto das suas possibilidades físicas, avança para cima dos adversários sem nada a perder, com a derradeira reserva de alma. Se não olharam para Niquinha, posso adiantar-vos que o seu rosto impotente era mais ou menos parecido com o de Schmeichel naquela noite em Alverca. Afinal de contas, só estes curtos episódios já explicam a necessidade de continuar a ter expetativas especiais em relação a Mantorras.


Luís Catarino
Foto: Reuters

» 2009-02-03
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