Euro 2008
O enquadramento de Modric
No cômputo geral, a exibição da Croácia frente à Áustria foi relativamente fraca. Depois de uma primeira parte em que os croatas controlaram as incidências do jogo com facilidade, o que terá passado, então, para que tivesse havido uma quebra tão acentuada de rendimento no segundo período? Uma das principais razões prende-se com a situação da dupla que preenche o meio-campo, constituída por Luka Modric e Niko Kovac.
Modric, que irá actuar no Tottenham na próxima época, tem excelentes atributos na distribuição e na forma como se movimenta entre linhas. Sempre muito rápido no jogo sem bola, a procurar os espaços de recepção (tabelas e roturas) a partir da meia esquerda, oferece grande dinamismo ofensivo à equipa. No Dinamo Zagreb, clube onde era capitão, Modric possuía a vantagem de ter atrás de si dois médios-centro de cobertura (Vukojevic e Vrdoljak) que o libertavam para criar jogo. Zvonimir Soldo, o treinador, utilizava também um 4-4-2, o mesmo sistema táctico a que recorre o seleccionador croata Slaven Bilic. No início das transições ofensivas do Dinamo, Modric começava no lado esquerdo e aproximava-se lentamente das zonas interiores para depois começar a distribuir a bola. No Tottenham, até é possível que o seu treinador, Juande Ramos, o coloque igualmente no lado esquerdo do seu 4-4-2, no mesmo papel que era dado a outro destro de cariz técnico com pendor ofensivo: Steed Malbranque.
Porém, o mesmo não acontece na Croácia, que já conta com Niko Kranjcar naquela posição do lado esquerdo do meio-campo. O principal problema da selecção no desafio com a Áustria residiu no eixo. Em todos os jogos de qualificação para o Euro, sempre se notou a quebra física de Niko Kovac (36 anos). Reparem na diferença de rendimento que ele apresenta das primeiras para as segundas partes. A sua fadiga é perfeitamente notória e deixa de ser capaz de subir ao meio-campo adversário para encurtar o espaço que o separa dos companheiros durante o processo ofensivo.
É verdade que Srna também tenta fechar um pouco a zona central na linha média, mas isso não é suficiente para uma equipa que quer controlar o jogo e que pretende que os seus melhores jogadores consigam impor-se pela circulação e passes curtos: casos de Kranjcar ou Modric. O crescimento da Áustria no segundo tempo acaba por não ser assim tão surpreendente, uma vez que, ao longo destes últimos meses, Bilic não tem apostado em muitas alternativas a Niko Kovac. Ter somente Kovac à frente da defesa constitui um grande risco para a equipa. Por consequência, Modric fica muito mais limitado nas suas funções: neste 4-4-2, é obrigado a recuar bastante e, como é óbvio, não surge nas áreas de acção onde é capaz de acrescentar qualidade extra. Em suma, a questão até nem está tanto no facto de Modric só ter um médio-centro nas suas costas. Para ele seria melhor que fossem dois, mas, a ser apenas um, que não seja Niko Kovac.
Luís Catarino
» 2008-06-09