Internacional
Nunca tomar nada como garantido
Não tenhamos dúvidas que são jogos como o Twente v Sporting que fazem do futebol um acontecimento espetacular e único. Pode parecer estranho vangloriar uma partida destas, dada a melancolia do jogo ofensivo sportinguista, que passou o exame com 9.5, e a compreensível pouca audácia dos holandeses.
Na final da Liga dos Campeões de 1999, o então presidente da UEFA, Lennart Johansson, permaneceu na bancada presidencial do Nou Camp até ao 90.º minuto, momento em que decidiu que era tempo de descer até ao relvado para entregar a taça das orelhas grandes ao capitão do Bayern, Oliver Kahn. Quando Johansson chegou lá abaixo, o quadro já era bem diferente. Em profundo estado de desespero, Samuel Kuffour, equipado com um triste cinzento, dava palmadas no chão como se não houvesse amanhã. O Manchester United virou o resultado nos descontos para 2-1 e os alemães, que estiveram tão, tão perto da celebração, acabaram prostrados na relva, diminuídos, grogues e a tapar a face esperando por uma nave espacial que aparecesse do céu para os levar para bem longe daquele retângulo traiçoeiro.
Ontem, no jogo do Sporting, é muito possível que os jogadores do Twente tenham sentido algo parecido com aquilo que os bávaros experienciaram naquela final de há dez anos em Barcelona. Estiveram em vantagem durante praticamente noventa minutos e tudo se desmoronou nos derradeiros segundos.
Nunca se pode tomar nada como garantido. Provaram-no Sheringham e Solsjkaer em 1999, Miguel Garcia em Alkmaar, Iniesta há poucos meses em Londres, N’Kufo esteve quase a prová-lo na primeira mão em Alvalade e provou-o este épico pontapé de canto em Enschede.
Nem sempre a bola é tratada com a maior decência e quando isso acontece até pode ser motivo para ficarmos mal dispostos. Porém, basta captar a volatilidade da Frustração e da Alegria para percebermos como o futebol consegue ser realmente belo.
Luís Catarino
» 2009-08-05