Euro 2008
Em alta definição
Antes do derrube, Abidal contempla a agilidade de Toni.
Dez dias depois do fim dos Jogos Olímpicos de 2000, começava o campeonato italiano. Na primeira jornada dessa edição de 2000/01, o recém-promovido Vicenza visitava o Milan, em San Siro. Na altura, o clube onde jogava o brasileiro Marco Aurélio (antigo defesa-central do União da Madeira e Sporting) era orientado por Edoardo Reja, actual treinador do Nápoles. O prometedor Mohammed Kallon, então com 21 anos, tentava consolidar o seu nome no Calcio e era no jogador da Serra Leoa que incidiam maiores expectativas. Porém, houve outro avançado do Vicenza a merecer destaque naquele 1 de Outubro de 2000. Estreava-se na Serie A com 23 anos de idade, media 1.95m, pesava aproximadamente 90kg e tinha um nome de muito fácil memorização: Toni.
Desde os primeiros anos na Serie A, quer pelo Vicenza, quer pelo Brescia, ao lado de Pep Guardiola e Roberto Baggio, Luca Toni foi melhorando drasticamente o seu entendimento do jogo, mantendo o estilo marcadamente físico. Além disso, desses anos para cá apurou o trabalho individual que foi sendo realizado, fundamentalmente no aspecto mental.
Consta que Luca Toni até pensou em desistir após uma má temporada no Fiorenzuola, que disputava a Serie C1 na época 1997/98 (apontou 2 golos em 26 partidas). No entanto, depois de um exame de consciência e sabendo que não podia baixar os braços, recuperou o fôlego e soube desenvolver-se a partir dos seus pontos fortes. Resultou. Actualmente, não há um ponta-de-lança de topo no futebol internacional que, de costas para a baliza, consiga segurar tão bem bolas a meia altura como Toni. A expressão de pânico de Boumsong, que o marcava no último Itália v França, é bem demonstrativa do poder do italiano.
Embora lhe falte alguma capacidade técnica e eficácia no passe e no remate, é um jogador que nunca desmoraliza quando dois ou três remates não vão à baliza. Tenta, tenta, continua a tentar e não se deixa vencer pelo erro. Sempre a desgastar os adversários, a servir os colegas e a perseguir o golo. Um avançado-centro tem de aproveitar as poucas ocasiões de que dispõe para marcar golos e a forma como consegue esquecer o erro é essencial para ser bem sucedido. Toni tem noção das suas limitações, bastante visíveis sobretudo quando tem de encarar os defesas-centrais de frente, mas tem a persistência e a inteligência para tirar o máximo proveito das suas características. Isso faz toda a diferença e o seu treinador em 2005/06 na Fiorentina, Cesare Prandelli, era o primeiro a admitir a grande influência do ponta-de-lança: “Sem Toni, não existimos”.
Saber encontrar os níveis de confiança ideais e entrar em campo com uma atitude positiva perante qualquer situação é algo que também se treina, sendo a carreira de Toni um exemplo perfeito disso mesmo. Durante aquele Milan v Vicenza, ou nas duas épocas seguintes, a última coisa que iria imaginar era que Toni, algum dia, fosse capaz de fazer uma recepção de bola com tanta leveza como aquela que fez em Zurique na sequência do passe longo de Pirlo. Esse instante, em que Toni se livra de Abidal e segura a bola aérea com a ponta da bota, constitui, até agora, a melhor imagem em alta definição do Euro 2008. Plena inspiração em HD.
Luís Catarino
» 2008-06-18