Euro 2008
A emenda de Bilic
Na segunda parte do jogo com a Áustria, a Croácia passou por dificuldades. Os croatas, em vantagem por 1-0 desde o quarto minuto, permitiram o avanço do adversário e Slaven Bilic não foi capaz de corrigir a situação, a tal ponto que os austríacos estiveram perto de igualar o resultado.
A vitória sobre a Alemanha tem uma dose de surpresa, mas também algum mérito da parte do seleccionador croata, que deu conta do problema que residia no eixo do meio-campo. Por várias razões, entre as quais
o desgaste intensivo a que Modric estava a ser sujeito, Bilic abdicou de um avançado-centro (Petric), para colocar Rakitic no lado esquerdo do meio-campo ofensivo, deslocando Kranjcar para o meio, actuando atrás do único ponta-de-lança, Olic, em 4-2-3-1.
Estas mudanças traduziram-se num aumento da resposta técnica e da habilidade para segurar a bola no meio-campo do adversário. Rakitic e Pranjic (este é um dos jogadores com melhor técnica de cruzamento na Europa) estiveram em óptimo plano em situações de 2v1 no flanco esquerdo, Modric jogou perto de Kranjcar e o jogo ofensivo da Croácia teve sempre muitos apoios e sustentabilidade. Assim, com uma boa posse e circulação dos croatas, não só a Alemanha não conseguia ter a bola para fazê-la chegar da forma ideal aos seus avançados, como também o veterano médio-defensivo Niko Kovac não tinha de se adiantar tanto no terreno para acompanhar as subidas de Modric.
Um dos maiores problemas provocados pelo uso do 4-4-2 estava relacionado com a necessidade de Modric de preencher a zona central do meio-campo ofensivo para fazer a distribuição de jogo. Por esse motivo, era essencial que Kovac se articulasse com Modric e subisse mais alguns metros para evitar uma clareira na linha média, situação que não se desejava pelo facto de Kovac ter 36 anos e de já não ter uma resistência assim tão elevada. Logo, a fadiga deste, especialmente visível nas segundas partes, obrigava a que a acção de Modric fosse mais restrita e a equipa perdia capacidade para conservar a bola e definir em linhas altas. Com o recurso de Bilic ao 4-2-3-1, a equipa pressionou com amplitude, mas, sobretudo, atacou com mais e melhores apoios e compensações, tendo Modric obtido condições para armar jogo e conseguido uma exibição próxima daquilo que o seu nível pressupõe.
AlemanhaPor outro lado, fica a dúvida se Joachim Löw tomou uma boa decisão ao ter utilizado Fritz novamente no onze ideal, uma vez que Polónia e Croácia apresentam modelos tácticos e intérpretes completamente distintos. Se é certo que Fritz podia ajudar Lahm a defender o flanco, também é verdade que não é o jogador mais indicado para desequilibrar (com bola no pé) no momento ofensivo. Se enquanto no desafio contra a Polónia era necessário alguém que desse largura nas alas para que o bloco polaco se desconcentrasse do eixo, hoje, contra a Croácia, as circunstâncias eram diferentes. Exigia-se mais capacidade para reter e trocar a bola em zonas interiores, indo ao encontro das maiores dificuldades dos croatas em dominar a zona à frente da linha de defesas. Nesse âmbito, Hitzlsperger e especialmente Schweinsteiger teriam sido, em teoria, opções mais viáveis. Com o regresso do losango, é claro.
Luís Catarino
» 2008-06-12