Benfica
Vida de ponta-de-lança
Às vezes leva tempo para que um futebolista consiga convencer meio mundo que tem valor para jogar numa determinada equipa. A situação pode ser ligeiramente mais morosa quando, para além das compreensíveis e habituais dificuldades de adaptação a uma realidade diferente, o clube pelo qual o jogador acaba de assinar inicia a época de uma forma extremamente desequilibrada e nervosa a todos os níveis.
Óscar Cardozo foi contratado para ser o goleador do Benfica e a massa adepta considera que o avultado investimento que nele foi feito obriga a um aumento das exigências. O cartão de visita do paraguaio foi exibido na Roménia, num desafio de preparação frente ao Cluj, quando apontou o primeiro golo com um forte remate de pé esquerdo de fora de área. Mais tarde, à medida que surgiram os maus resultados, o ponta-de-lança começou a ouvir as primeiras críticas. O mimetismo foi, assim, tentando estabelecer a ideia que Cardozo não sabia ou não sabe cabecear.
Percebe-se que as exigências sejam altas em relação ao rendimento que Cardozo pode e deve apresentar, mesmo que o Benfica ainda esteja longe da organização colectiva ideal. Porém, há situações no jogo do avançado que têm de ser melhoradas, mesmo antes dessa alegada incapacidade técnica para cabecear, que já foi, de certa forma, contrariada com os golos ao Shakhtar e à Académica. O principal problema de Cardozo reside, sobretudo, na falta de bravura a disputar os lances com os adversários, especialmente naqueles em que está de costas para a baliza. Esse é o grande defeito que o paraguaio revela e que prova que ainda terá de se adaptar à maior agressividade e intensidade de jogo do futebol europeu.
Quando Cardozo perder o medo de ir ao choque e aprender a executar o passe e o remate com mais rapidez, então teremos um avançado mais próximo daquilo que é possível exigir. Não dribla, não é tão resoluto nos espaços curtos como se desejaria, mas tem, indiscutivelmente, alguns pontos que devem ser bem desenvolvidos e que o podem tornar num dos melhores avançados que o Benfica teve nos últimos anos. Esta “súbita” incapacidade para cabecear, tão difundida por uma grande parte da comunicação social que possivelmente tenta vender um D. Sebastião em forma de Van Basten ou Mário Jardel, acaba por ser uma falsa questão. Para além das lesões, há outros factores muito mais decisivos que estão implicados nos desempenhos menos conseguidos no início de época. É também contra as frases feitas que os jogadores têm de lutar e, neste caso, Cardozo até mostrou que tem sido capaz de ultrapassar o momento de crítica.
O tempo, conjugado com uma visão ajustada do fenómeno do futebol, é sempre o melhor conselheiro para travar a euforia dos media enquanto veículos de informação e criadores de sonhos no grande público. Gonzalo Bergessio, rapidamente promovido a estrela nos treinos de pré-época, foi um exemplo cabal da velocidade com que os media queriam a todo o custo criar uma referência que fizesse com que os aficionados do Benfica não se sentissem defraudados com a saída de Fabrizio Miccoli.
Luís Catarino
» 2007-12-10