Chelsea
Ter ou não ter plano
Antes uma equipa com pouquíssima convicção, o Chelsea é hoje um forte candidato à vitória da Liga dos Campeões. O que mudou? Guus Hiddink assumiu o comando técnico e iniciou a metamorfose no jogo dos Blues. Não só o treinador holandês devolveu a confiança a Drogba, o melhor ponta-de-lança do plantel cujo valor era relativamente menosprezado por Luiz Felipe Scolari, como também deu mais consistência ao nível da elaboração de planos de jogo. Consequentemente, os jogadores sentem-se neste momento mais úteis a desempenhar as tarefas.
É indiscutível que Hiddink é um dos treinadores mundiais que mais sagacidade demonstra quando tem de desenvolver esses planos de jogo e também na altura em que tem de ler e de interpretar as incidências que surgem a cada segundo durante uma partida. O último desafio do Chelsea, a contar para a primeira mão da meia-final da Champions, em Barcelona, terminou com um resultado de 0-0. Este foi mais um exemplo de como um plano de jogo inteligente e simultaneamente tão simples pode travar a dinâmica ofensiva de uma equipa de nível excecional como a do Barcelona. Ainda há uma segunda mão para ser disputada, mas, pela forma como os londrinos souberam defender e evitar os ataques dos catalães, Hiddink já teve uma pequena vitória na primeira batalha. O nervosismo de Guardiola no banco já significou alguma coisa.
Entrando na dimensão físicaO Chelsea entrou em Camp Nou com a intenção evidente de se superiorizar no choque, de transportar o jogo para uma dimensão mais física, na qual o Barça teria mais dificuldade em se adaptar. Obi Mikel, Ballack e Essien constituíram uma aguerrida e musculada linha de médios-centro que tentavam impedir que os dois principais dinamizadores do adversário no eixo (Xavi e Iniesta) tivessem condições para apoiar os avançados. Face a essa presença dominante dos três médios-centro recuados do Chelsea, também coadjuvada por Lampard e Malouda (e Belletti numa fase posterior) e com Bosingwa e Ivanovic permanentemente recuados, os catalães tiveram muita dificuldade em encontrar espaços para darem uma boa sequência final aos seus ataques.
Bloquear os apoios para anular MessiPara o Chelsea sair de Camp Nou com um resultado positivo, a ideia mais sensata passaria sempre por baixar as suas linhas. Subir o bloco e procurar o golo tornar-se-ia uma situação difícil de controlar, pois do outro lado estava uma equipa com um potencial ofensivo gigantesco. Daí que Hiddink tenha desenhado um plano de grande prudência defensiva, anulando todos os pontos fortes atacantes do Barça.
Além de Obi Mikel, Ballack e Essien, que não saíam da zona central para fechar os movimentos de Xavi e de Iniesta, também o papel de Malouda se revelou decisivo no controlo às subidas de Daniel Alves pelo flanco. Fora do seu espaço natural, Bosingwa não passava a linha do meio-campo, sempre atento a Messi. Porém, se é verdade que Messi passou praticamente toda a segunda parte sem criar perigo, isso deve-se sobretudo à maneira como a linha média dos Blues bloqueou os principais apoios do argentino: Daniel Alves, Xavi e Iniesta. O truque de Hiddink passou por cortar o problema pela raiz. Ou seja, fazer com que a bola nem sequer chegasse a Messi. De outra forma, Bosingwa teria tido muito mais problemas.
Bloco baixo, linha média em larguraQuando o Barça iniciava a fase de construção, os ingleses, dispostos em bloco médio/baixo, estabeleciam duas linhas paralelas. Malouda, Lampard (Belletti), Mikel, Ballack e Essien alinhavam-se lado a lado na linha média e barravam as primeiras progressões do adversário. Numa fase posterior da construção do Barça, os médios-centro do Chelsea concentravam-se ainda mais no eixo para apertar os adversários.
Os efeitos da troca de Lampard por BellettiA 20 minutos do final, Hiddink trocou Lampard por Belletti. Na verdade, aquela estratégia de recuo permanente no meio-campo não favorecia as caraterísticas do internacional inglês e o treinador optou pela colocação de um médio-direito. Assim, com Belletti mais atento às subidas de Abidal e a conseguir fechar a zona de lateral-direito quando Ivanovic acompanhava Henry para a zona central, Essien passou a ter um papel mais interventivo no núcleo do meio-campo. Agora sem Lampard, a equipa precisava da energia do ganês para levar a bola para fora do seu meio-campo - a outra alternativa aos pontapés longos de Cech...
Cech e Drogba: conversa a doisA estratégia do Chelsea para desenvolver ataques não era muito complexa. Por algum receio de eventuais turnovers e porque a equipa não estava disposta a fazer subir muitas unidades, muito raramente a bola circulou pela zona central. A opção mais utilizada foi o pontapé longo do guarda-redes Petr Cech diretamente para Didier Drogba. Como seria de esperar, o ponta-de-lança do Chelsea teve pouco apoio. Lampard, na primeira parte, e Malouda, na segunda, foram os que ainda tentaram dar algum auxílio, mas o marfinense esteve muito isolado no ataque, quase sempre a receber bolas aéreas. Também aqui se notou a dimensão física que regeu todo o plano de jogo do Chelsea.
Luís Catarino
foto: ap
» 2009-04-29