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Sledgehammer


Quando Laszlo Sepsi chegou ao Benfica, em Janeiro de 2007, Luís Filipe Vieira afirmou que o departamento de prospecção das águias tinha observado o lateral-esquerdo romeno em mais de dez partidas ao vivo. Estava aparentemente dada a garantia de qualidade. Não podemos dizer que não é um bom número para concretizar uma avaliação relativamente segura de um jogador, ainda que não chegue perto dos mais de 40 desafios em que Gilles Grimandi e os restantes olheiros do Arsenal observaram Bacary Sagna antes de o contratarem ao Auxerre. Observar, ajuizar e tomar uma decisão para a compra final é um processo extremamente complexo e os simpatizantes dos clubes costumam ter dificuldade em entender o porquê de jogador X ter sido o escolhido em vez do jogador Y, que até é mais rápido e mais jovem. Não vamos, agora, discriminar todas as variantes que influem numa decisão desse género, até porque muitas delas não serão assim tão transparentes no quotidiano e também porque não estamos a lidar com o mesmo tipo de pressões que se vive no meio de um jogo de computador.

Longe de mim querer comparar-me a um olheiro profissional. No entanto, na minha humilde qualidade de consumidor (agressivo), admito que há um jogador em Portugal que me suscita um persistente dilema, por mais jogos que veja dele. Umas vezes, assusto-me com a brutalidade e com a falta de clarividência. Outras, depois de pedido o direito ao contraditório, deparo-me com sinais positivos.

Artur Jorge acredita que o futebol deve ser visto com som de música clássica em pano de fundo. Somos dois e não seremos os únicos, embora eu não seja propriamente sectário e possa também escolher outro género musical para cobrir o silêncio ditado pelo inspirador botão do mute da televisão.

Recuperando o tal jogador, trata-se de Gilles Binya. Invade-me a sala, com a pinta guerreira de Wesley Snipes. Ignoro Artur Jorge, calo o compositor do momento e procuro uma estação de rádio que me ofereça Peter Gabriel e o seu Sledgehammer para tentar entrar na mente daquele centrocampista que, por vezes, desata a partir tudo o que mexe. Outras vezes nem tanto, quando acalma. Porém, é notório que Binya continua a ser quase inevitavelmente perseguido pelos árbitros, oposição e adeptos, principalmente após o disparatado assentamento de pitons na perna de Scott Brown. Não é fácil fazer esquecer essa reputação. Ainda no período de aquecimento, já todos lhe mostram o vermelho.

Apesar de ocasionalmente jogar a bola sem nexo e de não se perceber por que motivo não carregou no travão antes de se despenhar contra um adversário, há outras alturas em que sou forçado a contemplar o lado B de Binya. Além da conhecida disponibilidade física, também sou capaz, sem esforço, de ver algum critério no passe, com boa aplicação técnica e boas decisões quando sai a jogar. Deve ser horrível conviver com tantas contradições. A sua ascensão ao Benfica (vindo da Argélia, com escala na Amadora) foi demasiado rápida e o choque, a falta de uma adaptação gradual a uma nova realidade, com tanta pressão, pode explicar, em parte, a sua pouca maturidade para controlar os nervos em situações mais tensas. Talvez ainda não manifeste suficiente estabilidade emocional. Será essa a razão da sua irregularidade, que explica o facto de num minuto fazer uma asneira infantil e de no minuto seguinte dar-nos uma jogada com pés e cabeça? Ou será, simplesmente, um jogador banal que vai errar sempre mais do que os bons? Recuso a defesa da segunda hipótese, mas ainda estou a tentar descobrir onde reside o tal ponto de equilíbrio de Binya. A minha única consolação é acreditar que nem Grimandi conseguiria perceber facilmente ao fim de 200 observações.


Luís Catarino

» 2008-12-17
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