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Quando o futebol não pode ser levado tão a sério


Há pessoas que não sabem ou não têm capacidade para degustar futebol. Fazem-no com excessivo pedantismo e seriedade, insistindo em fechar os olhos aos detalhes inequivocamente hilariantes que imploram por serem saboreados. Sou da opinião que esses momentos particulares dentro do campo, tal como as respectivas personagens que lhes dão corpo, devem ser respeitados na sua plenitude. E só por essa razão é que ainda hoje me recordo de um lance verdadeiramente tragicómico que teve lugar no Santiago Bernabéu, em Fevereiro de 2006, na receção do Real Madrid ao Arsenal. David Beckham bateu um pontapé de canto do lado direito e a bola foi voando suavemente, até que começou a desfalecer à frente da grande área, pedindo que lhe batessem de primeira. Não havia jogadores do Arsenal por perto, apenas um do Real, já a postos para tratar do assunto. O pior, ou o melhor (depende da perspetiva), é que não era um jogador qualquer. Realmente ele executou o tal disparo que se exigia, sem deixar cair a bola no chão - teve tempo e espaço suficientes para o fazer em condições. O que não estava planeado era que a bola, em vez de bombardeada em direção à baliza dos londrinos, saísse em rosca devolvida a Beckham, que ainda estava encostado à linha lateral, pois tinha acabado de apontar o pontapé de canto. Gargalhadas e mãos na cabeça no estádio inteiro!

Não sou desonesto ao ponto de pensar que os remates desajeitados não acontecem a todos. Mas admito que tudo isto ganha muito mais piada quando o protagonista se trata de uma figura absolutamente caricata, que tem a quase exclusiva capacidade de converter uma transmissão desportiva em noventa e tal minutos de desenhos animados. Naquela temporada de 2005/06, bastava o realizador dar-nos um plano aproximado dos seus colegas para vermos como era tratado este Calimero em versão viking -  um corpo cada vez mais estranho. Marginalizado pelo núcleo da equipa, quase todos lhe davam pouca importância e, ao mesmo tempo, também quase todos manifestavam condescendência pela infantilidade dos seus comportamentos e disparates psicopatas.

Tentem imaginar alguém a deslocar-se para os treinos matinais do Real Madrid sob a inspiração de uma sinfonia dos Cannibal Corpse libertada pelo autorádio de um Hummer. É evidente que estou a falar de Thomas Gravesen. O “incompreendido” e frequentemente enfurecido boneco animado dinamarquês que corria com os cotovelos abertos anunciou esta semana o fim da carreira. Enquanto durou a sua estada no Everton, dificilmente ele sentiria o conceito de injustiça como acabou por sentir em Chamartín, num clube mergulhado em soberba e onde a clivagem de estilos e de personalidades configurou um choque assustador. No entanto, mal sabia o médio nórdico que foi exactamente esse período anti-galático que lhe possibilitou a obtenção do melhor título possível: passar à eternidade no clube dos mais inesquecíveis cromos do futebol.


Luís Catarino

» 2009-01-29
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