Inter
Os génios contrariam os livros
Ganha bolas no ar como Luca Toni, inventa como Dennis Bergkamp e movimenta-se com a agilidade e estética de Rudolf Nureyev. Em teoria, é difícil imaginar que um corpo consiga transmitir esta perfeita conjugação de estilos, mas, cada vez que assisto a uma performance de Zlatan Ibrahimovic, creio que não só essa conjugação é possível, como existe uma tentativa de superação dos elementos terrenos.
Entre vários lances no jogo de Atenas, frente ao Panathinaikos, ‘Ibra’ assinou as duas assistências para os golos de Mancini e de Adriano. No primeiro, ganha de cabeça ao seu marcador directo (o moçambicano Simão), dá quatro passos em corrida, faz a bola passar por cima do sueco Mikael Nilsson, finta para dentro para evitar Nilsson e Goumas e termina com a oferta do golo a Mancini. Muito simples.
No segundo, toda a magia reuniu-se num único toque. Em situação de contra-ataque, Figo, no lado esquerdo, estava sozinho para receber o passe. ‘Ibra’ olha para o português, fingindo que lhe vai entregar a bola, mas, no mesmo instante, lança Adriano em profundidade com a máxima precisão.
É esta capacidade que define os grandes jogadores: a destreza e aferição para perceber quando se pode e deve contrariar aquilo que vem nos livros. Ibrahimovic podia perfeitamente ter jogado a bola de forma mais segura em Figo para conservar a vantagem de 0-1, pois estávamos no 85.º minuto de jogo. No entanto, preferiu arriscar o passe para Adriano, mesmo que fosse nessa zona que se acumulavam os defesas do Panathinaikos. Ainda Adriano escolhia para que lado ia rematar e já o fenómeno sueco passeava, de costas para o golo, em direcção ao abraço triunfal de José Mourinho. Há futebolistas por quem vale a pena pagar um bilhete. Ibrahimovic é um deles, por um milhão de motivos.
Luís Catarino
» 2008-09-20