Liverpool
Os deveres de Gerrard

Devem os jogadores ser escolhidos em função da táctica, ou deve a táctica ser escolhida em função dos jogadores? A resposta não é linear, mas há aspectos que podem sempre ser debatidos. O último jogo do Liverpool em Blackburn expôs, de forma clara, as dificuldades que Steven Gerrard evidencia quando desempenha a posição de segundo-ponta, actuando directamente atrás do avançado-centro do 4-4-1-1 estruturado por Rafael Benítez. Percebeu-se a intenção do treinador espanhol. Sabendo que Ewood Park é um dos campos mais difíceis para os clubes ingleses de maior dimensão, Benítez não quis deixar de aumentar a capacidade de luta meio-campo. Assim, a linha média inicial foi constituída por Mascherano e Sissoko, que garantiram contenção no centro, enquanto Babel e Benayoun encostaram nas alas.
Relativamente à interrogação inicial, parece claro que Benítez privilegiou, uma vez mais, a premissa de que os jogadores devem ser escolhidos em função da táctica. Tal como na última final da Liga dos Campeões, em Atenas, frente ao Milan, o espanhol colocou Gerrard atrás do único avançado-centro, Dirk Kuijt. No meio-campo, Mascherano e Xabi Alonso ombreavam com Ambrosini, Pirlo, Gattuso e Seedorf.
Jogar com um ou dois avançados-centroGerrard é um jogador com uma capacidade física invulgar e que conjuga uma qualidade de passe com uma destreza e uma bravura quase inigualáveis. Ao ser colocado numa posição-base em linhas tão adiantadas, Gerrard perde os seus fundamentos e não consegue exercer o seu melhor futebol, de grande intensidade. Mas mais do que de jogar em linhas adiantadas e não poder espalhar a sua influência por todas as zonas do campo, o que realmente prejudica o seu desempenho nessas funções é o facto de só haver um avançado-centro no perímetro atacante.
Ou seja, se o Liverpool jogar com dois avançados-centro, os defesas-centrais adversários estão mais ocupados na marcação e Gerrard obtém mais vezes espaços para rematar em zona frontal, ou pode utilizar a sua força para executar movimentos de rotura verticais e finalizar na grande área. No caso contrário, apenas com um avançado-centro no ataque, Gerrard acaba por entregar-se demasiado ao desgaste colectivo, sem que a equipa ganhe aquilo que poderia ganhar se o capitão jogasse nas suas condições ideais. Em Ewood Park, foi notória a subida de rendimento do “camisola 8” quando Peter Crouch saiu do banco para fazer dupla de ataque com Dirk Kuijt nos derradeiros 20 minutos.
A táctica em função do jogador?Ainda que esta opção de colocar Gerrard como segundo-ponta não seja assim tão frequente, Rafa Benítez deve preservar ao máximo as características distintas do capitão. É certo que ganhar em Blackburn não é para qualquer equipa, ainda por cima sem poder contar com jogadores influentes como Xabi Alonso e Fernando Torres. Porém, se o Liverpool quiser recuperar a desvantagem que tem em relação aos outros candidatos ao título, não basta transmitir uma imagem de racionalidade, paciência e simetria nas suas linhas tácticas. Ser mais activo e menos reactivo é a receita para este Liverpool, que terá de colocar em prática todos os seus factores extra que permitam desbloquear as partidas mais complicadas. Saber tirar o máximo proveito de Steven Gerrard, ou, se quiserem, montar (parcialmente) a táctica em função deste jogador, é o princípio essencial para que os Reds comecem a pensar que podem vencer a Premier League.
Luís Catarino
» 2007-11-04