Real Madrid
O ténis de Schuster

Na véspera do fabuloso resultado obtido em Valência (1-5), Bernd Schuster tinha comparado o desempenho do Real Madrid a Roger Federer. Na perspectiva do técnico alemão, o conjunto merengue é comparável ao tenista suíço porque, caso seja necessário, tem capacidade para “meter a quinta” e ganhar os seus jogos.
O Real Madrid foi inequivocamente superior ao Valencia, mas vale a pena enunciar alguns aspectos relativos ao momento dos chés. É óbvio que os jogadores tinham responsabilidades e não deveriam ter revelado uma apatia tão grande como acabaram por revelar neste jogo. No entanto, tal como a saída de José Mourinho abalou inevitavelmente a equipa do Chelsea antes do desafio frente ao Manchester United, também a saída do treinador Quique Flores, com as devidas diferenças, injectou uma elevada dose de soporíferos nos jogadores do Valencia. Temporariamente orientados pelo inexpressivo Óscar Fernandez – nesta altura já se sabia que Ronald Koeman iria ser o futuro treinador –, os chés actuaram perfeitamente anestesiados, lentos e permissivos nas marcações. No eixo do meio-campo, Gago (mais recuado), Diarra (ligeiramente inclinado para o lado direito para marcar David Silva) e Guti (mais livre) não tiveram problemas em trocar confortavelmente a bola entre si. Sem uma oposição consistente dos valencianos, a confiança do Real Madrid foi crescendo ao mesmo ritmo que a do Valencia diminuía.
O choque térmicoDepois da grande vitória por 1-5, o “Real Federer” de Schuster deslocou-se a Sevilha. Os locais, já sem Juande Ramos, tinham uma enorme necessidade de ganhar para dar um salto na tabela, pois os resultados neste início de 2007/8 têm sido relativamente fracos devido a múltiplos factores.
O cenário que o Real Madrid encontrou em Sevilha foi o completo oposto daquilo que tinha encontrado dias antes na visita aos gélidos jogadores do Valencia. Schuster tinha pela frente uma equipa super aguerrida liderada por Manolo Jiménez, que montou um duplo-pivot defensivo de grande agressividade constituído por Poulsen e Keita. Aos 20 minutos, o Real já perdia por 2-0 e a “onda Federer” tardava em aparecer em Nervión. Para Gago, Diarra e Guti, foi um jogo substancialmente diferente do de Valência. Com muito menos espaço e tempo para trocar a bola, o trio de médios do Real foi triturado pela máquina sevilhana, que, apesar da boa exibição, ainda caminha para se aproximar do seu potencial máximo de qualidade.
Avançados passivos na transição ataque-defesaA agressividade dos jogadores do Sevilla foi decisiva para desequilibrar a partida, mas a forma como Schuster estrutura a equipa também possibilita que os merengues sintam dificuldades em campos onde o adversário imprime mais dureza e exerce domínio de jogo. No 4-4-2 do Sevilla, todos os jogadores lutavam pela recuperação imediata da bola. Além do lateral-direito Daniel Alves, Adriano (inicialmente médio-esquerdo) e Jesús Navas (médio-direito) e os dois avançados-centro Kanouté e Luís Fabiano foram incansáveis a ajudar Keita e Poulsen a fechar os espaços do bloco sevilhano, perturbando a fase de construção do Real Madrid. Pelo contrário, Robinho, Raúl e Van Nistelrooij abstiveram-se nitidamente dessas funções defensivas e deixaram o meio-campo muito desprotegido na luta pela posse de bola. Esse comportamento dos três avançados é visível em praticamente todos os desafios do Real Madrid. Por isso, quando o adversário tem a tal pré-disposição para anular as unidades-chave dos merengues, então Schuster tem que lidar com um grande problema.
Guti e os habituais dilemas do Real MadridO técnico alemão é um grande apreciador de Guti, mas, a este nível, muitas vezes não chega possuir visão de jogo e qualidade no último passe. Se Schuster se quer diferenciar de Capello e não trabalha os avançados de modo a serem parte activa no momento da recuperação de bola, então Guti está muito longe de ser o médio armador ideal para ser utilizado em confrontos com elevada intensidade física. As dificuldades que Guti tem em livrar-se de marcações próximas são mais que evidentes.
Wesley Sneijder é um óptimo médio para transmitir equilíbrio entre linhas e o seu regresso após lesão vai voltar a dar mais força à equipa. Porém, caso se mantenha o desenho de 4-3-3, Gago irá para o banco e Diarra irá actuar sozinho directamente à frente dos defesas-centrais, onde não é tão forte. Estes são alguns dos problemas actuais do Real Madrid, que, seguramente, irá ganhar mais alguns jogos por margens folgadas. Contudo, também irá perder bastantes pontos se não corrigir alguns dos defeitos mais visíveis. Afinal de contas, a vida do Real é um jogo de ténis, com bola cá, bola lá. Para já, o que se pode confirmar é que Schuster, ao contrário de Roger Federer, não é o número 1 do mundo. E ainda está longe.
Luís Catarino
» 2007-11-05