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O que é que lhe respondia?


Se ao longo dos últimos dez anos um amigo seu, que tivesse estado completamente alienado do futebol, lhe fizesse a pergunta ‘Quem é este jogador chamado Thierry Henry?’, o que é que lhe respondia? Bom, creio que até seria fácil. Dir-se-ia qualquer coisa como: ‘É um avançado francês com uma classe fora do comum, que humilha os defesas adversários com bruscas mudanças de velocidade e direcção. Um craque com todas as letras que tem o espectacular dom de jogar ao mesmo tempo para si, para a equipa, para os espectadores e para os fotógrafos. ‘ O seu amigo ficaria minimamente esclarecido e identificado com o futebolista. Porém, se hoje lhe fizessem a mesmíssima pergunta, a resposta mais acertada dificilmente seria idêntica.


Há algum problema com Henry?

Não necessariamente. É fácil verificar que no 4-3-3 do Barcelona – sem Eto’o e Ronaldinho, ambos lesionados – foram dadas a Henry exigências um pouco diferentes daquelas que teve na maior parte da sua carreira em Highbury. Designadamente nesta “nova” função de pivot, uma vez que Frank Rijkaard lhe pede muitas vezes para ficar na grande área, de costas para a baliza, aguentando as marcações dos defesas-centrais e tocando a bola para trás – auxiliar, portanto, o envolvimento dos extremos e médios. Um trabalho de desgaste que é mais conseguido por pontas-de-lanças efectivamente especializados nessa matéria, como Luca Toni ou Van Nistelrooij, mas que nunca foi propriamente habitual em Henry, que sempre foi um avançado que viveu das tais mudanças de velocidade para conduzir a bola ou desmarcar-se. Ou seja, é verdade que Henry não tem tido as melhores condições para demonstrar o melhor das suas capacidades. Contudo, na medida do possível, está a realizar o trabalho que a equipa mais precisa neste momento. Mesmo que não dê para humilhar os defesas.


Fugir ao caldeirão do canibal

No jogo do último fim-de-semana, frente ao Sevilla (2-1), foi notório que Henry se sentiu mais à-vontade quando Giovani (entrou aos 60) e Messi começaram a marcar mais presença no eixo. Assim, permitiram que o francês finalmente saísse do caldeirão do ‘Canibal’ Boulahrouz e se deslocasse para o flanco esquerdo, obtendo, assim, mais espaços para romper de frente para a baliza. O primeiro golo de Messi (aos 72) é o melhor exemplo dessa acção do francês, que, praticamente na primeira vez em que saiu da zona de marcação central, efectuou um passe fabuloso para o argentino – um tento que vale a pena rever com atenção, pois, para além da finalização de Messi, conta igualmente com um bom trabalho sem-bola de Abidal e Deco.


Iniesta, a alternativa a Ronaldinho

Para já, é assim que Henry tem iniciado 2007/8. Face à lesão de Ronaldinho – o brasileiro foi titular na vitória com o Lyon (3-0) – Iniesta tem sido colocado no lado esquerdo do meio-campo/ataque. A sua exibição formidável, ontem, contra o Real Zaragoza (4-1), sublinhou o crescente desenvolvimento da mecânica ofensiva do Barcelona, que tem em Lionel Messi a sua indiscutível grande figura da temporada. Iniesta, tal como o argentino, imprime sucessivos movimentos interiores, provocando enormes dificuldades às equipas que querem defender a zona central.

Henry pode sentir-se ocasionalmente limitado no seu posicionamento, mas, face às actuais circunstâncias, é ele que vai muitas vezes servir de referência na grande área - Deco, mais confiante, entra no espaço de definição e finalização pela zona central. O Barcelona é, neste momento, uma equipa muito bem carburada no momento de posse de bola e que tem no seu médio-defensivo Yaya Touré um jogador em clara ascensão. Ganha muitas bolas pelo ar e, comparando com anteriores pivots defensivos - como Edmílson, Motta, ou mesmo Márquez - tem mais facilidade em transportar a bola e a iniciar uma boa circulação. Depois basta passá-la a Messi.


Luís Catarino

» 2007-09-27
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