PESQUISA:
Primeiro Toque logotipo
Celtic

O pesadelo horrível de Strachan





Caso tivesse vencido o Rangers no derby de Sábado, o Celtic teria tido a oportunidade de alargar a vantagem na liderança do campeonato escocês para seis pontos. O campeão acabou por sair do Ibrox Stadium com uma derrota por 3-0 e o próximo desafio com o Benfica pode, uma vez mais, colocar em evidência alguns dos pontos fracos dos católicos. Ficam aqui algumas notas sobre a equipa do Celtic, que tem em Donati e Scott Brown os dois jogadores mais influentes do meio-campo.


Boruc e McManus contra a incapacidade defensiva

O guarda-redes internacional polaco Artur Boruc é, indiscutivelmente, um dos elementos mais importantes do Celtic. É bastante completo nos vários itens que definem a qualidade geral de um guarda-redes e, perante as falhas que o quarteto defensivo tem vindo a registar, Boruc foi forçado a crescer e a ganhar mais influência dentro da equipa.

Depois de Boruc, o defesa-central e capitão Stephen McManus é o jogador que pode garantir mais estabilidade à linha mais recuada do Celtic. No entanto, o líder do Celtic está em dúvida para o desafio no Estádio da Luz devido a um choque de cabeças com o ponta-de-lança do Rangers, Daniel Cousin. McManus chegou a perder os sentidos e recebeu tratamento hospitalar. Se não jogar contra o Benfica, será uma grande baixa para Gordon Strachan, pois é dos poucos que sabe desempenhar bem as funções de marcação na equipa.

A fragilidade defensiva do Celtic é particularmente notória nos jogos fora de casa, nos quais a equipa raramente consegue manifestar as mesmas agressividade e serenidade que mostra no Celtic Park. O defesa-central que costuma jogar ao lado de McManus, Gary Caldwell, permite muitos espaços aos atacantes adversários, principalmente quando são lançadas bolas para as suas costas. Por vezes, no momento em que a equipa circula a bola em linhas mais adiantadas, aparece no flanco direito do ataque para criar superioridade numérica. McManus deve recuperar, mas, se tal não acontecer, John Kennedy poderá ser o seu substituto, embora este não tenha metade da qualidade do primeiro.

Mark Wilson e Perrier-Doumbé serão as soluções mais adequadas para a posição de defesa-direito, mas, devido às lesões daqueles, é possível que o defesa-central Darren O’Dea, 20 anos, seja o escolhido por Strachan para o lado direito da defesa. Não é um jogador com facilidade em sair a jogar, bem pelo contrário. Aliás, um dos problemas da equipa é que os defesas-centrais e os laterais têm dificuldade em progredir com a bola controlada.


Dependência dos reforços Donati e Brown

Devido a essa dificuldade de iniciativa por parte dos defesas, o jogo do Celtic torna-se bastante dependente de dois jogadores: Massimo Donati e Scott Brown. O italiano das escolas da Atalanta é um dos médios-centro, que joga habitualmente inclinado sobre o lado esquerdo. Seja Paul Hartley ou Evander Sno o médio que joga ao seu lado, Donati é aquele que tem mais capacidade para fazer a bola circular e variar o passe. Note-se ainda que aparece frequentemente na grande área a tentar aproveitar ressaltos ou cruzamentos ao segundo poste.

Tal como Donati, Scott Brown é outro dos reforços para 2007/8. Tem 22 anos, veio do Hibernian para o Celtic Park – juntamente com o ponta-de-lança neo-zelandês Chris Killen – e tornou-se na transferência mais cara de sempre entre clubes escoceses (6.3M euros). Scott Brown é um lutador com grande agressividade. Um jogador com uma energia inesgotável que ataca e recupera com a mesma intensidade. Quando os dois médios-centro têm dificuldades em armar jogo, é frequente vermos Brown aparecer em linhas mais recuadas para receber a bola. Pelo meio, ou pelos flancos.


Os eclipses de Nakamura

Tendo realizado uma fantástica época de 2006/7, o médio-ofensivo Shunsuke Nakamura é uma das referências incontornáveis do Celtic. No entanto, a estrela japonesa, 29 anos, não está nas suas melhores condições físicas e o seu rendimento tem vindo a ser afectado por essa razão. Tem uma qualidade impressionante na marcação de livres directos e cantos com o seu pé esquerdo, mas a verdade é que, além de não ser muito rápido, não é capaz de manter uma grande regularidade durante o tempo em que está em campo. Esconde-se muito do jogo e, quando o adversário o marca bem, raramente consegue dar a volta por cima. A ausência do ponta-de-lança Venegoor of Hesselink (por lesão) aumentou a necessidade de Nakamura estar mais activo, uma vez que, com a presença do holandês, o japonês poderia efectuar mais cruzamentos a partir de zonas exteriores e recorrer menos ao drible, acelerações e a roturas rápidas.


Soluções tácticas de Strachan: Jarosik e McGeady

Tal como pudemos ver nos desafios com o Milan e Rangers, Gordon Strachan utilizou o checo Jiri Jarosik como médio-esquerdo. O ex-Chelsea foi o principal destino dos pontapés de baliza de Boruc, pois é um jogador com uma elevada estatura e bom jogo aéreo. Jarosik, que possui um remate fortíssimo com o seu pé esquerdo, tem jogado mais próximo do lado esquerdo, ainda que também feche a zona central e dê opções de passe aos colegas da linha média. Jarosik é uma boa ferramenta táctica, mas que, apesar de rematar bem de longa distância, não apresenta grande produção ofensiva.

Uma vez que se trata de um jogo fora, e porque a experiência arriscada em Donetsk não trouxe resultados positivos, Strachan poderá ter mais cautelas e Jarosik deverá mesmo ser titular no meio-campo. Assim, se Venegoor of Hesselink não jogar de início, a dúvida reside mais em saber se é Nakamura ou o extremo McGeady que começam na equipa titular. O internacional irlandês Aiden McGeady – jogou os minutos finais no derby – é um destro bastante rápido que tanto pode jogar a extremo direito como esquerdo, embora seja mais vezes utilizado no esquerdo, pois entra bem no espaço interior. Não tem as mesmas potencialidades de Nakamura nas bolas paradas, mas é um jogador que, caso Venegoor of Hesselink não seja titular, se enquadra melhor com a velocidade de Scott McDonald.


Com ou sem Venegoor of Hesselink

A lesão de Venegoor of Hesselink tem provocado bastantes alterações na sistematização táctica do Celtic, que tem vindo a abandonar o 4-4-2 típico face à ausência do holandês. O possante ponta-de-lança holandês, ex-PSV, é um jogador que domina o jogo aéreo e o próprio treinador do Shakhtar Donetsk, Mircea Lucescu, destacou a dificuldade que os seus defesas-centrais tiveram em lidar com as bolas mais altas no jogo da primeira jornada da Liga dos Campeões, pois era muito difícil criar oposição ao avançado.

Se Hesselink conseguir recuperar e for titular, contando que Chris Killen não seja opção, faz mais sentido que Strachan utilize Nakamura de início, pois, mesmo que o japonês não consiga manter a regularidade desejável ao longo da partida, pode mais facilmente executar um cruzamento ou um passe longo tendo em vista o aproveitamento do jogo aéreo do holandês. Na eventualidade de Hesselink não poder jogar (esteve em dúvida para o derby, mas acabou por não estar disponível), então Scott McDonald – que fez dupla com Hesselink em Donetsk – jogará mais sozinho no ataque. O internacional australiano e ex-Motherwell marcou o golo da vitória frente ao Milan e é muito mais rápido que Hesselink. McDonald está em boa forma, tanto que foi eleito melhor jogador do mês de Setembro da liga escocesa. Será titular no Estádio da Luz. Resta saber se com Hesselink ao seu lado.


Hartley ou Sno

O médio-centro internacional escocês Paul Hartley não está em boas condições físicas, mas espera-se que jogue de início. Normalmente faz marcação mais directa ao adversário e no desafio frente ao Milan foi ele que vigiou Kaká. Não actuou frente ao Rangers devido a lesão e o titular foi o internacional sub21 holandês, Evander Sno. Este tem mais capacidade técnica e estatura do que Hartley, mas denota menos garra no momento de recuperação de bola – um aspecto essencial desde a saída de Neil Lennon.


Os Village People e o pesadelo de Strachan no Ibrox Stadium

Gordon Strachan viveu um pesadelo no derby com o Rangers. Aos 27 minutos, a equipa sofreu o primeiro golo após uma falha defensiva clamorosa – centro de Hutton do lado direito e nem Caldwell nem O’Dea se anteciparam a Nacho Novo, que finalizou ao segundo poste. De qualquer forma, o Rangers de Walter Smith foi uma equipa muito mais organizada e na qual se notou menos cansaço. Logo depois do intervalo, o Rangers concedeu a posse de bola ao adversário. Porém, aos 55 minutos, uma actuação quase ridícula de defesa do Celtic ofereceu o segundo golo aos protestantes (Barry Ferguson) e, a partir daí, foi um domínio e controlo completo da equipa da casa.

O resultado ficou fechado em 3-0 a dez minutos do fim com um penalty apontado por Nacho Novo. O pesadelo de Strachan ficava ainda mais carregado com os acordes dos Village People no speaker do Ibrox (“Nacho, Nacho Man!”) a acompanhar a celebração do avançado espanhol. Até ao apito final, as provocações de Hutton e os constantes olés rebaixaram o Celtic que já perdera algum controlo emocional com a substituição do seu capitão Stephen McManus. Contudo, registe-se sobretudo a falta que faz Venegoor of Hesselink na equipa. Com ele em campo, o Celtic consegue ter um comportamento mais adequado para os jogos fora de casa, pois poderia utilizar um jogo mais atlético e com menos probabilidades de perda de bola a meio-campo. O Celtic é uma equipa com duas faces muito distintas – quando joga em casa ou fora.


Luís Catarino

» 2007-10-21
PRIMEIRO TOQUE © 2007
CONTACTOS semmais.com