Spartak de Moscovo
O momento de Pavlyuchenko
O Spartak de Moscovo não venceu qualquer uma das últimas três jornadas da liga russa e perdeu já a liderança para o Zenit (distância de três pontos quando faltam seis jornadas para disputar). O último desafio acabou numa derrota por 4-3 nos descontos frente ao Lokomotiv e, uma vez mais, foi possível constatar que o principal problema da equipa de Stanislav Cherchesov reside no seu desempenho defensivo.
No entanto, há um jogador que se encontra num momento particularmente positivo e que vale a pena destacar: Roman Pavlyuchenko (25 anos; 13 golos no campeonato russo esta temporada). Apontou os três golos do Spartak contra o Lokomotiv, já depois de ter marcado outros três na vitória ante o Hacken, da Súecia, em partida a contar para a Taça UEFA. Ou seja, dois hat-tricks em menos de uma semana é o registo do principal avançado do Spartak. Recorde-se que os moscovitas foram eliminados pelo Celtic na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, após desempate por grandes penalidades.
A nova dupla de ataque: Pavlyuchenko + WellitonDesde que assumiu o comando técnico do Spartak, Stanislav Cherchesov – antigo guarda-redes do clube, bem como das selecções soviética e russa – colocou a equipa a actuar regularmente num sistema táctico de dois avançados, contrariando a perspectiva do antigo treinador, Vladimir Fedotov, que utilizava Pavlyuchenko sozinho no ataque. Um dos principais motivos para essa nova utilização táctica prende-se com a contratação do brasileiro Welliton, um avançado de 20 anos que chegou a Moscovo em Agosto, vindo do Goiás, clube pelo qual realizou uma boa temporada. Welliton é bastante mais rápido que Pavlyuchenko e a solução da definição do ataque passa muitas vezes pelo recuo do último – um pouco lento na progressão – enquanto o brasileiro faz desmarcações rápidas para destabilizar os defesas e permitir igualmente a entrada dos médios.
Estes movimentos dos dois avançados pressupõem, precisamente, o frequente auxílio dos restantes médios. Os dois médios-ala de baixa estatura Dmitry Torbinskiy e Vladimir Bistrov (ambos de 23 anos) são muito rápidos e são eles que transmitem o carácter aguerrido do ataque do Spartak (opondo a macieza de Kalinichenko), embora quem comande os ritmos do meio-campo seja Titov. Apesar de ter feito um excelente jogo contra o Hacken, com vários dribles e muita velocidade à mistura, Torbinskiy já não teve o mesmo tipo de facilidades frente ao Lokomotiv, pois na sua zona encontrava-se um excelente defesa chamado Ivanovic.
A presença do sérvio fez com que Torbinskiy se deslocasse frequentemente para a zona central, aplicando sempre o mesmo estilo de aceleração. Sem grandes efeitos, porém, pois é um jogador que sente dificuldades se não tiver espaços largos. No flanco direito, Bistrov é um jogador com uma maturidade de jogo mais avançada e que tem mais “cabeça” que Torbinsky. É mais consistente nas decisões e sabe utilizar bem a sua velocidade para contra-atacar, lançando a velocidade de Welliton pelo eixo, ou até recorrer aos cruzamentos no flanco direito para aproveitar o forte jogo aéreo de Pavlyuchenko ao segundo poste. Com o recuo deste último, podemos ver Torbinskiy e Bistrov executar roturas até à grande área.
Sem Jiranek e Mozart, a defesa ressente-se. A resposta do Lokomotiv.Para a realidade do futebol russo, o ataque tem capacidade mais que suficiente para produzir golos. O problema da equipa encontra-se no comportamento defensivo, uma vez que o Spartak sofre golos bastante infantis. O factor indissociável desta questão tem a ver com a lesão prolongada do checo Martin Jiranek, que era o grande estabilizador do sector mais recuado do Spartak. Face a este contratempo que se arrasta há algum tempo, Cherchesov tem vindo a efectuar uma série de alterações na defesa. Frente ao Lokomotiv, só para citar o último jogo, Radoslav Kovac, que habitualmente joga como médio-defensivo, recuou para defesa-central para jogar ao lado do brasileiro Geder, que não é nada favorecido em termos de agilidade e rapidez. Muito pesado, por outras palavras. As constantes trocas no centro da defesa – o austríaco Martin Stranzl não pôde actuar e o lituano Dedura não foi opção – e o posicionamento muitas vezes deficiente dos defesas-laterais Florin Shoava (romeno que tem vindo a ocupar a vaga deixada por Clemente Rodríguez, que se transferira para o Boca Juniors) e Roman Shishkin originam muitas situações complicadas para a equipa. E defrontando uma equipa com muita mobilidade no último terço – dinamizada por Bilyaletdinov, Samedov e especialmente Sichev e Odemwingie – a tarefa de Cherchesov ficou mesmo muito dificultada.
O Lokomotiv começou a virar o jogo com a entrada de Maminov e a saída de Yambayev, o médio-esquerdo. Maminov deu um importante apoio aos dois avançados da equipa orientada por Anatoliy Bishovets – tem operado uma revolução no Lokomotiv desenvolvendo um futebol mais aguerrido, deixando, por isso de contar com os “conformados” Izmailov ou Loskov – e foi aí que mais se fez notar a ausência do habitual médio-centro titular do Spartak, o brasileiro Mozart. No seu lugar actuou Renat Sabitov, jovem de 21 anos que cumpre os requisitos mínimos, mas que não acrescenta o fulgor extra que Mozart costuma impor no campo. A grande diferença é que Mozart consegue estabelecer uma boa comunicação entre os sectores através da sua excelente capacidade de passe, mas também ocupando bem os espaços no momento de circulação de bola com Titov e os restantes elementos. Foi também nesta perspectiva que o Spartak não conseguiu prevenir a resposta do Lokomotiv.
A perder por 3-2, Cherchesov tirou um defesa-lateral (Shoava) e colocou Artem Dzuba. O jovem avançado – esteve presente no último Europeu de sub19 disputado na Áustria – possui uma enorme estatura (aproximadamente 1.93m) e tem um bom domínio de bola. Em certa medida, tem um estilo parecido com o de Pavlyuchenko, pois também não é muito rápido, mas marca uma presença de respeito na grande área. Neste caso, perante os defesas-centrais Efimov e Asatiani. O treinador do Spartak ainda lançou Boyarintcev (substituiu Torbinskiy) e Bazhenov (substituiu Welliton) para potenciar o jogo mais físico de Dzuba e Pavlyuchenko e até conseguiu chegar ao empate. No entanto, os evidentes problemas defensivos vieram à superfície, já nos descontos, com novo um novo golo infantil, marcado pelo defesa-central georgiano Malkhaz Asatiani. Lembro que na jornada anterior, contra o CSKA, o Spartak deixou-se empatar nos descontos, na altura com um golo do polaco Janczyk.
Furar as redes? Aprendam com PrudnikovAlém de Dzuba, há outro jogador em quem os responsáveis do Spartak têm alguma expectiva a longo prazo. Alexandr Prudnikov, 18 anos, é um avançado-centro possante e que tem um remate fortíssimo com o pé esquerdo. Tem alguns tiques de vedeta, alguma brutidão, mas a força daquele pé esquerdo é arrepiante. Num recente encontro amigável entre Turquia e Rússia na categoria de sub21, Prudnikov apontou os dois golos da sua selecção. Um deles num livre frontal que, pensei, tinha furado a rede.
Luís Catarino
» 2007-09-25