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Shakhtar Donetsk

O losango de Lucescu




O Shakhtar Donetsk é líder na liga ucraniana com nove pontos de vantagem para o 2.º classificado, o Dnipro. 10 vitórias e 1 empate (28-7 saldo de golos) é o registo do vice-campeão ucraniano nos 11 jogos até agora disputados em 2007/8.

O experiente Mircea Lucescu comanda uma equipa muito disciplinada, na qual os jogadores têm funções bem definidas. Na Liga dos Campeões, a estrutura táctica de Lucescu deverá passar pelo 4-4-2 em losango, tal como aconteceu com o Celtic na primeira jornada da competição – vitória por 2-0, sendo que aos 8 minutos o Shakhtar já tinha marcado os dois golos. É uma equipa sem extremos, com muita participação dos defesas-laterais e que conta com quatro brasileiros no onze-tipo, ainda que um deles, Jadson, esteja em dúvida para esta partida frente ao Benfica.

Nesta altura, pode dizer-se que estão esquecidas as saídas de jogadores importantes como o médio-defensivo Timoschuk (Zenit), o médio-interior Elano (Manchester City), o avançado-centro Ciprian Marica (Estugarda) ou aquele que era, provavelmente, o melhor do plantel, Matuzalém (Real Zaragoza). O Shakhtar conseguiu desenvolver uma boa matriz de jogo com os actuais jogadores e a equipa aparenta estar mais forte do que no ano passado.


Regresso do capitão

O capitão de equipa, Dmytro Chygrynskiy, não havia defrontado o Celtic devido a castigo, mas já pode actuar frente ao Benfica. Tem apenas 20 anos e é uma das grandes esperanças do futebol ucraniano. Defesa-central possante, não esconde alguma falta de agilidade e denota ocasionais falhas de concentração. Aliás, o eixo da defesa do Shakhtar é a zona que tem dado mais problemas ao treinador, pois existem frequentes falhas de concentração na marcação ao adversário na grande área. Kucher e Hubschman foram os titulares contra os escoceses e um deles deverá sair para que Chygrynskiy entre no onze - em teoria, Kucher. Chygrynskiy foi titular no Euro sub21 2006 disputado em Portugal, juntamente com o guarda-redes Andriy Pyatov.


Compreender a dinâmica do lado direito (Srna e Ilsinho)

A dinâmica do lado direito é um dos pontos mais fortes da equipa. Darijo Srna (lateral) e Ilsinho (médio-interior) combinam muito bem entre si e criam problemas ao adversário a partir desse flanco. Quando Srna sobe, Ilsinho protege bem o croata. São, todavia, dois jogadores com algumas diferenças nos seus perfis individuais. Enquanto a qualidade de Srna se faz notar por uma maior bravura no desarme e, sobretudo, pela extraordinária habilidade nos cruzamentos e nas variações de flanco, Ilsinho é um jogador mais ao estilo do futsal. Aproveitando a excelente capacidade de condução de bola e drible no 1v1, Ilsinho – vai fazer 22 anos neste mês de Outubro – percorre várias zonas do meio-campo, com bastante liberdade de movimentos e fantástico toque de bola. O antigo lateral-direito do São Paulo, agora no meio-campo, é uma das peças-chave do Shakhtar, uma vez que transporta a bola com rapidez para o meio-campo adversário após a recuperação da posse de bola, mas também tem a preocupação de fechar os espaços defensivos – não só os de Srna no lado direito, mas também no eixo do meio-campo, principalmente quando o médio-defensivo (Lewandowski ou Duljaj) pressiona mais alto e deixa um espaço vazio à frente da defesa. Em suma, um jogador vital para o losango de Lucescu.


O losango de Lucescu

Mircea Lucescu usa quase sempre o 4-4-2 embora possa haver algumas variantes de acordo com algum adversário mais específico – na liga ucraniana, ante equipas mais fracas, pode recorrer ao 3-5-2. De qualquer forma, no desafio frente ao Celtic, o treinador romeno utilizou um 4-4-2 com losango. Assim, Lewandowski actuou como vértice inferior, Ilsinho (direita) e Fernandinho (esquerda) como médios interiores, e Jadson como vértice superior.

Mariusz Lewandowski – marcou o primeiro golo da Polónia, precisamente no Estádio da Luz, frente a Portugal, no recente 2-2 de qualificação para o Euro 2008 – é um jogador que ganha muitas bolas pelo ar na zona do meio-campo e nesse aspecto vence o “duelo” com o sérvio Igor Duljaj, que tanto pode ser uma alternativa, como um complemento no meio-campo (já iremos ver essa possibilidade com mais detalhe). Lewandowski (28 anos) é um pouco lento, mas o seu porte físico é importante para conferir equilíbrio a um onze que peca por algum peso muscular no meio-campo.

Fernandinho é um brasileiro de 22 anos que tem registado uma boa evolução e é um jogador em quem Lucescu tem depositado muita confiança. Joga no lado esquerdo do losango e tem mais essência defensiva que Ilsinho, juntando-se algumas vezes à linha de defesa-centrais para criar superioridade numérica defensiva – sempre que Lewandowski não o faz. Sendo destro, é um jogador que se desloca da faixa esquerda para zonas interiores depois de receber a bola no flanco. Com esse movimento, os adversários precisam de ter atenção às subidas do lateral-esquerdo, Razvan Rat, que é muito perigoso na fase de definição.

Com a saída de Matuzalém para o Real Zaragoza, o também brasileiro Jadson tem assumido a titularidade no topo do losango. É um jogador que vive da rapidez, da criatividade e da mobilidade nos últimos 40 metros. É devido ao facto de na equipa haver vários jogadores com tanta capacidade técnica – como Jadson, Ilsinho, Rat, Srna e, de certa forma, até o próprio Fernandinho – que o Shakhtar exibe um futebol tão versátil. Bola no chão, com excelente toque de bola, ou um jogo mais físico, quando se recorre aos dois avançados-centro. Jadson – está em dúvida devido a lesão – não é um elemento muito prestável em termos de pressão no adversário, mas é dos primeiros a receber a bola após a equipa ter recuperado a bola – geralmente é o primeiro jogador que Fernandinho procura para efectuar o passe.


A dupla de avançados (Brandão e Lucarelli)

O Shakhtar é uma equipa com uma grande versatilidade, pois tanto consegue jogar rápido, pelo chão, como também sabe aproveitar o porte físico dos dois avançados – Brandão e Lucarelli – para dominar o jogo aéreo. O brasileiro Brandão (esquerdino, 27 anos) atravessa um excelente momento e já tem alguma experiência acumulada na Liga dos Campeões. Contra o Celtic, jogou em conjunto com Cristiano Lucarelli (custou aprox. 9M euros). Ambos são, de facto, muito fortes no jogo aéreo e, mesmo que os defesas-centrais do Shakhtar tenham dificuldades em sair a jogar com a bola controlada, costumam colocá-la para bem longe, por alto, e tanto Brandão como Lucarelli encarregam-se de a receber. Sabendo-se da grande habilidade dos laterais Rat e Srna nos cruzamentos, Brandão e Lucarelli serão referências inevitáveis na elaboração nos ataques dos ucranianos. Tanto um, como o outro, têm uma capacidade técnica mediana. Brandão é mais móvel do que Lucarelli.

Olexandr Gladkiy é habitualmente titular na liga ucraniana, mas Lucescu faz rotatividade do plantel e Lucarelli, em teoria, será titular na Liga dos Campeões. Gladkiy tem 20 anos e é um avançado com boa presença física. É também o melhor marcador do Shakhtar nesta edição do campeonato ucraniano, com 10 golos em 11 jornadas. Dois deles na última jornada, frente ao Metalurg Zaporizhya (vitória por 1-3).



Castillo e a hipótese de um modelo mais prudente

A contratação mais cara do Shakhtar, Nery Castillo, custou 20M euros ao clube de Donetsk. No entanto, a adaptação do internacional mexicano não tem sido fácil. Castillo é um avançado explosivo, que é muito difícil de ser travado em velocidade, mas que ainda possui algum excesso de individualismo. Esse detalhe ganha mais realce quando Lucescu o coloca a jogar atrás dos dois avançados, com liberdade para cair nas alas. Funciona bastante melhor como ponta-de-lança, especialmente se a sua equipa jogar num bloco com linhas mais recuadas, mais vocacionado para ataques rápidos. Esse é o enquadramento perfeito para Castillo. Se Lucescu alinhasse com Duljaj e Lewandowski juntos no meio-campo defensivo, Castillo até seria uma hipótese bastante fiável, como avançado, e não tanto atrás dos dois avançados.

No entanto, Jadson saiu tocado no jogo da última jornada com o Metalurg Zaprizhya e, caso não recupere, Castillo poderá ser o escolhido, mas para a tal posição atrás dos dois avançados.

O Shakhtar tem o hábito de atacar com muitos jogadores em simultâneo e isso pode trazer complicações no meio-campo defensivo. Uma estratégia mais cautelosa iria prevenir um eventual hiato prolongado dos jogadores na recuperação das posições após perda de bola. Por outro lado, essa estratégia mais cautelosa também acaba por negar a versatilidade de jogo que os ucranianos ostentam, fundamentalmente ao nível da troca de bola sustentada no meio-campo adversário. Resta saber se, no Estádio da Luz, o Shakhtar vai entrar tão pressionante como entrou em Donetsk frente ao Celtic. Lembro que os escoceses já perdiam por 2-0 aos 8 minutos (golos de Brandão e Lucarelli).


Bolas paradas

Fernandinho costuma cobrar alguns livres em zona frontal. Essa situação não deixa de causar alguma estranheza, pois ter Srna na equipa e não atribuir-lhe essa função pode considerar-se um desperdício. O croata tem, no entanto, a responsabilidade de apontar os pontapés de canto. Contra o Celtic, Ilsinho e Srna iam ambos para junto da bandeirola de canto e um tocava a bola para o outro depois cruzar. Formas diferentes de interpretar situações de bolas parada, possivelmente esperando que os adversários prestem mais atenção à bola e menos aos homens do Shakhtar que se movimentam na grande área – Brandão, Lucarelli, Lewandowski, Chygrynskiy, ou Gladkiy são jogadores com estatura elevada; muito perigosos a corresponderem aos cruzamentos pelo ar. Nos pontapés de canto, Fernandinho, que tem um bom remate exterior, costuma ficar à entrada da grande área.


Cuidados a ter com o lateral-esquerdo (Razvan Rat)

É um dos melhores jogadores do Shakhtar. Razvan Rat é um internacional romeno de 26 anos com uma sensibilidade técnica impressionante, tendo em conta que é um defesa-lateral. É canhoto, mas toca muito bem com o pé direito. Uma vez que o Shakhtar manifesta uma tremenda inclinação para jogar no lado direito, muitas vezes Rat fica isolado no lado esquerdo. Nessas situações, Srna pode fazer uma variação de flanco rápida e Rat fica em óptimas condições para colocar a bola na grande área para os dois avançados-centro. O romeno é muito rápido na condução de bola e executa excelentes cruzamentos com o pé esquerdo. Também podemos vê-lo integrar-se bastante no corredor central, em tabelas com Fernandinho. É um lateral bastante interessante e, sublinho, joga bem com os dois pés.


Principais contratações

Nery Castillo (20M euros; ex-Olympiacos)
Ilsinho (10M euros; ex-São Paulo)
Cristiano Lucarelli (8,9M euros; ex-Livorno)


Luís Catarino

» 2007-10-02
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