Juventus
O guerreiro napolitano em Turim
Basta ver Antonio Nocerino em acção durante poucos minutos para se perceber por que razão Claudio Ranieri lhe dá tanto crédito. Simplesmente inexcedível no esforço e na entrega que despende, Nocerino dá tudo o que tem em cada jogada. A integração de Tiago na equipa inicial da Juventus tem sido muito dificultada devido à presença deste enérgico médio-centro nascido no sul de Itália, em Nápoles, há 22 anos.

Nocerino foi o melhor jogador do Piacenza na época passada (equipa 4.ª classificada na Serie B 2006/7) e provou que tinha capacidade para lutar por um lugar no plantel bianconero. No último Euro sub21, pela selecção italiana, jogou como vértice inferior do triângulo invertido do meio-campo desenhado por Pierluigi Casiraghi, onde também alinhavam Aquilani (Roma) e Montolivo (Fiorentina). Depois de a Itália ter derrotado Portugal, garantindo, dessa forma, um lugar nos Jogos Olímpicos de 2008, Nocerino efectuou a pré-temporada na Juventus de Ranieri, que tinha contratado Almirón e Tiago para posições semelhantes no meio-campo.
No início do campeonato, Ranieri ainda tinha algumas dúvidas sobre a melhor forma de colmatar a ausência de Camoranesi. Assim, Nocerino chegou mesmo a actuar numa desgastante posição de médio-direito, onde tinha de dar profundidade ao flanco e, simultaneamente, fechar a zona central ao lado de Zanetti e Almirón. Com o tempo, à medida que os contornos do 4-4-2 ficaram mais delineados, Ranieri foi concentrando cada vez mais o raio de acção de Nocerino e hoje é um jogador com funções muito mais bem definidas, no eixo. Nocerino é quem transmite mais bravura ao jogo da Juventus, embora ainda cometa demasiadas faltas devido ao excesso de entrega e à vontade de mostrar tudo o que tem. Se quiserem, Nocerino está para a Juventus um pouco como Gattuso para o Milan.
Porquê a má adaptação de Tiago?A principal resposta para a pouca assiduidade de Tiago nos bianconeri chama-se, portanto, Antonio Nocerino. Apesar de ter um óptimo toque de bola e de saber levar a equipa para a frente, Tiago não joga com a mesma intensidade de Nocerino. E esse aspecto da intensidade ganha mais significado quando o habitual segundo médio-centro é Cristiano Zanetti, um jogador de ritmos baixos – o mesmo aconteceria se fosse Almirón em vez de Zanetti, uma vez que o argentino é um pouco displicente nas marcações. Tiago é um médio com valor inquestionável, que tem características muito particulares na condução e circulação de bola.

Aquilo que, para já, é preciso ter em conta, é que esta equipa da Juventus, segundo a interpretação de Ranieri, precisa de uma certa dose de agressividade e capacidade de choque no momento da recuperação da posse de bola, que Tiago, aparentemente, não consegue garantir. Na perspectiva do 4-4-2 actual, Nedved (35 anos) já não trabalha tanto na recuperação e tem de estar em condições para definir as transições ofensivas, Del Piero e Trezeguet estão juntos no ataque, e Palladino, Camoranesi e Salihamidzic são opções para o lado direito.
Quer o sistema, quer o modelo da Juventus são bastante distintos daqueles com que Tiago jogava, por exemplo, no 4-3-3 do Lyon. No campeão francês, a cadência de jogo era mais rápida e os médios poderiam mais facilmente tirar partido da desorientação do adversário nas marcações. O Lyon tinha habitualmente um bloco muito organizado, com três médios a ocupar a faixa central (Toulalan, Tiago, Juninho) e com uma óptima colaboração dos defesas-laterais em toda a mecânica colectiva. No entanto, o problema de Tiago não terá tanto a ver com algum suposto choque de estilos. A questão reside, sobretudo, na agressividade e intensidade que um dos dois médios-centros do 4-4-2 da Juventus tem de apresentar para garantir equilíbrio no corredor central, especialmente quando o outro é Cristiano Zanetti. E a verdade é que, nesse aspecto, Nocerino oferece, objectivamente, mais garantias do que Tiago. Porém, não é uma situação que o português não consiga inverter. É necessário mais trabalho para moldar o seu estilo em função das necessidades do clube, que, recorde-se, não participa em competições europeias, razão pela qual não existe tanta rotatividade no plantel.
Raffaele Palladino, outro napolitano em TurimAntonio Nocerino não é o único napolitano na equipa da Juventus, pois também Domenico Criscito e Raffaele Palladino nasceram nessa província do sul de Itália. Nocerino já foi brevemente retratado neste texto. No que diz respeito aos outros dois, enquanto o defesa-central Criscito, que fez uma época regular em 2006/7 pelo Genoa na Serie B (em sistema de três defesas-centrais), tem revelado imensas debilidades e é incapaz de dar garantias, Raffaele Palladino tem demonstrado um futebol bem mais encantador e com bastante classe.
Palladino tem 23 anos e ajudou a Juventus a subir de divisão na época passada, tendo apontado 8 golos. Participou no Euro sub21 em 2006, em Portugal, e em 2007, na Holanda. É um jogador alto, veloz, com um perfil elegante e tecnicista, que encaixa muito bem no ataque pelas alas, embora também saiba entrar no espaço central. No último clássico frente à Inter, em Turim, Palladino foi titular, surgindo inicialmente como extremo-direito.
A sua grande arma é a forma espectacular com que simula e dribla. Muda de velocidade ou direcção com muita facilidade, efectuando também excelentes cruzamentos para a grande área, tanto com o pé esquerdo, como com o direito, o mais forte. Ainda no âmbito do desafio com a Inter, quando os nerazzurri baixaram (demasiado) o bloco na segunda parte e Nedved foi substituído por Iaquinta, Palladino deslocou-se para o lado esquerdo e a sua capacidade para enganar o adversário com fintas de corpo foi decisiva para fazer frente a Maicon, que, por exemplo, não conseguiu parar o extremo da Juventus no lance que deu origem ao golo do empate. Palladino é um dos jovens futebolistas mais interessantes da actualidade no Calcio e, em teoria, terá futuro quase certo na Squadra Azzurra a médio prazo, uma vez que não abundam jogadores italianos com estas características.
A principal preocupação de Ranieri: a defesaÉ indiscutivelmente o sector da equipa que dá mais preocupações a Claudio Ranieri. Mesmo antes da lesão grave de Jorge Andrade, a linha mais recuada da Juventus já cometia imensos erros e falhas de marcação. O historial da Juventus obriga-nos a observar a equipa com mais exigência, e não propriamente como um qualquer clube que acabou de chegar da Serie B. Para que a Juve atinja um nível qualitativo próximo do da Inter, tem forçosamente de se reforçar na defesa. Giorgio Chiellini jogou muitas vezes como defesa-esquerdo com Fabio Capello, mas, na temporada passada, Didier Deschamps já o tinha utilizado como defesa-central, como, aliás, aconteceu no último Euro sub21. Chiellini é um defesa possante, com bom jogo aéreo, mas que denota uma clara falta de maturidade na abordagem dos lances, tal como Domenico Criscito. Ranieri tem vindo a utilizar Nicola Legrottaglie ao seu lado, mas não passa de um bom defesa para uma equipa de meio da tabela. Jean-Alain Boumsong está praticamente recuperado da lesão e pode vir a garantir alguma estabilidade no centro da defesa. Ainda assim, é notório que a Juventus precisa de jogadores com mais qualidade para atingir um nível que corresponda às suas ambições.
No lado esquerdo joga Cristian Molinaro. Foi um dos principais beneficiados com a lesão de Jorge Andrade, pois Chiellini (canhoto), que começou 2007/8 como defesa-esquerdo, passou a jogar regularmente no eixo. Molinaro actuou na temporada passada no Siena e, embora seja um jogador com uma boa corrida, comete demasiados erros e precipita-se imenso. Tem 24 anos e já deveria revelar uma maturidade de jogo mais sólida. Na decisão do passe e na marcação ao adversário, é um jogador bastante fraco.
O lado direito é aquele que, aparentemente, está mais bem entregue. Embora Salihamidzic – já sem a pujança física de outros tempos – jogue melhor como médio-direito, também pode servir de alternativa a Zebina, Grygera e Birindelli. Com Salihamidzic a lateral-direito, Ranieri ainda tentou colocar a equipa a jogar com três defesas, mas isto quando Chiellini era o defesa-esquerdo e podia fechar no meio, ao lado de Jorge Andrade e Criscito.
O desenho táctico da JuventusNa gravura está desenhado o 4-4-2 com que Ranieri começou o jogo com a Inter, que terminou com o resultado de 1-1. Camoranesi, o autor do golo do empate, ainda recupera a sua melhor forma depois de ter estado ausente devido a lesão e, caso Ranieri mantenha o mesmo sistema, deverá roubar o lugar a Palladino no futuro – tanto Camoranesi como Palladino têm a particularidade de entrarem bem pela zona central a partir do flanco.
Um dos movimentos ofensivos típicos da Juventus consiste nas roturas de Pavel Nedved pela zona interior-esquerda. Quando a equipa recupera a posse de bola, o checo entra em velocidade nos últimos trinta metros e é nesses momentos que o ataque ganha mais força. Del Piero e Trezeguet entendem-se muitíssimo bem e são inteligentes na forma como ocupam os espaços na grande área, apesar de Del Piero descair frequentemente no lado esquerdo para depois tentar o 1v1 ou cruzamento. Uma outra possibilidade no ataque é a inclusão de Vincenzo Iaquinta, que joga mais no lado direito e que, em relação a Del Piero, oferece um estilo de jogo mais físico, incutindo maior desgaste nas defesas adversárias. Nedved, Del Piero e Trezeguet constituem, juntamente com Buffon, o núcleo duro da Juventus. Porém, os dois primeiros já se encontram numa notória curva descendente.
Luís Catarino
» 2007-11-08