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O efeito no livre directo


A extraordinária capacidade para marcar livres directos é um dos muitos itens que faz com que Cristiano Ronaldo seja um dos futebolistas mais completos e valiosos da cena internacional. O golo que o camisola 7 dos Red Devils apontou em Old Trafford, contra o Sporting, tem, aliás, semelhanças com um outro golo fabuloso de livre directo assinado por Del Piero há dois anos em Viena, frente ao Rapid.

O ponto de encontro entre esses dois tentos reside na técnica com que os jogadores prepararam o remate e enganaram os guarda-redes. Observando o último golo do madeirense, destaca-se a forma como tomou balanço, pressupondo um remate de pé direito para colocar a bola junto ao primeiro poste. Porém, já no momento do contacto com a bola, em vez de rematá-la com a parte interna do pé para desenhar uma curva lateral para dentro, apanhou-a por baixo, utilizando o peito do pé e inclinando as costas para a frente. Resultado: Rui Patrício foi apanhado em falso, pois a bola saiu direita ao segundo poste e com velocidade suficiente para evitar que o guarda-redes recuperasse o tempo perdido após a indecisão. É um gesto técnico que Cristiano Ronaldo executa excepcionalmente e que lhe permite apontar imensos livres directos de longa distância com muita força e com um efeito de ziguezague mais pronunciado.


Tudo sem chips de bipolaridade

Trabalhar a postura correcta na execução destes livres exige muitas horas de treino e só assim se conseguem obter bons resultados com regularidade. É perfeitamente notório que Cristiano Ronaldo tem registado cada vez mais progressos, mas, neste momento, o rei da especialidade, modestamente, sem poses para as câmaras, ainda vai sendo o brasileiro Juninho Pernambucano.

Existem excelentes marcadores de livres directos. No entanto, poucos conseguirão apresentar a mesma versatilidade de Juninho, pois, seja qual for a distância ou a situação em que a bola é rematada, o perigo para os guarda-redes é sempre real.

Há uma situação muito específica nos livres directos de Juninho que vale a pena ser vista com mais detalhe. Em faltas marcadas a longa distância da baliza, e em que é muito improvável marcar golos directamente, Juninho remata muitas vezes de forma a que a bola caia na zona do guarda-redes, saindo sempre muito tensa e cheia de efeitos. Geralmente, os guarda-redes não conseguem segurá-la e podem ser forçados a defender para a frente ou, no pior dos casos, nem sequer conseguem evitar o golo.

No ano passado, em Roma, Juninho, quase junto à linha do meio-campo, marcou um livre que foi cair exactamente na pequena área, à frente de Doni, que teve óbvias dificuldades em segurar aquela bola. Há duas épocas, em Eindhoven, também de longa distância, o brasileiro do Lyon imprimiu um efeito de tal forma espantoso que a bola, seca, caiu com uma velocidade impressionante na sua trajectória descendente.

À primeira vista pode parecer que alguns guarda-redes são mal batidos, como no caso de Gomes, do PSV. A distância até pode ser muito longa, mas, uma vez que as bolas que têm sido fabricadas nos últimos anos são cada vez mais susceptíveis a mudanças de trajectória, é compreensível que um guarda-redes entre em pânico assim que vê um especialista deste nível a tomar balanço. Não havendo nenhum chip que confira bipolaridade às bolas, tudo isto está naturalmente relacionado com a confiança com que os jogadores executam o gesto técnico adequado às situações. Nos casos de Juninho e Cristiano, isso passa frequentemente por saber aplicar uma curva descendente mais abrupta e é nesse pormenor que ambos revelam a sua mestria e se distinguem da grande maioria dos especialistas.


Luís Catarino

» 2007-11-29
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