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Dinamo Kiev

O computador de Lobanovsky




O paupérrimo desempenho do Dinamo Kiev na presente edição da Liga dos Campeões lançou, uma vez mais, a discussão sobre uma hipotética perda de identidade que as equipas da Europa de Leste têm revelado desde que começou a haver uma aposta mais intensiva em futebolistas estrangeiros. É um facto que os jogadores sul-americanos e africanos podem favorecer, pontualmente, o aumento da capacidade técnica e da criatividade destas equipas. No entanto, a história recente do Dinamo Kiev, designadamente naquilo que diz respeito aos finais da década de 90, também nos mostra que a conservação das ideias e valores próprios daquela região da Europa traz inegáveis vantagens competitivas. O desafio que propomos é, assim, o de recuar à época de 1998/9 e recordar a forma como jogava o Dinamo treinado, pensado e meticulosamente programado pelo grande mestre do futebol da antiga União Soviética, Valery Lobanovsky.


A severa filosofia de Lobanovsky

Aquilo que é mais interessante verificar nesta equipa do Dinamo de 1998/9 é que jogava perfeitamente de acordo com os conceitos do seu treinador, sem desvios. Todos os jogadores tinham funções muitíssimo bem definidas para agirem em função da equipa e nunca individualmente. Daí que não seja assim tão estranho que Lobanovsky tenha chegado a dizer que Shevchenko era um avançado muitíssimo melhor do que o brasileiro Ronaldo. A facilidade com que o Lobanovsky faz esta afirmação pode parecer algo exagerada, mas, ao ver um jogo do Dinamo com Shevchenko em campo, percebe-se por que razão o treinador não hesitava na hora de elogiar o atacante ucraniano. Era, de facto, um avançado brilhante na finalização e quando a equipa não tinha a posse de bola trabalhava tanto como os outros para encurtar os espaços ao adversário. Esta capacidade de entreajuda colectiva era, afinal, a grande força do Dinamo. “Para dizermos que estamos perante um excelente jogador, temos sempre em linha de conta o seguinte princípio: 1% de talento, 99% de trabalho”, revelava Lobanovsky.

Valery Lobanovsky era um treinador extremamente autoritário e disciplinador que sempre impôs muita distância em relação aos seus jogadores. Em 1997, regressou ao Dinamo e foi o principal responsável pela devolução da capacidade competitiva e do prestígio entretanto perdido após o escândalo de suborno que envolveu o árbitro López Nieto. É óbvio que houve um investimento significativo na manutenção dos bons jogadores do plantel. Porém, a capacidade física e sobretudo táctica que a equipa registou na cena europeia foi absolutamente extraordinária e tudo isso tem o cunho inevitável de Lobanovsky, um treinador que aprendeu a trabalhar com números, estatísticas e dados sobre variadíssimos itens nas dimensões técnica, táctica e psicológica. Auxiliado por Anatoly Zelentsov, um matemático com elevados conhecimentos informáticos que o acompanhou ao longo da sua carreira, Lobanovsky foi melhorando a esquematização dos treinos e das tácticas e os jogadores assimilavam a comunicação do treinador. Embora este ostentasse uma figura sorumbática e pouco dada a grandes afectos, era uma personalidade muito respeitada e uma referência indiscutível em todo o universo da antiga União Soviética. Os jogadores que integravam o plantel eram todos oriundos de países da ex-URSS (Ucrânia, Geórgia, Bielorússia) e talvez por aí consigamos detectar algumas das diferenças que verificamos nos desempenhos fraquíssimos do Dinamo de Kiev nas últimas edições da Liga dos Campeões. “Os jogadores de hoje têm mais liberdade. Portam-se como estrelas e não promovem o sentido de equipa”, considerava, há bem pouco tempo, um dirigente dos ucranianos, tentando justificar o recente decréscimo de qualidade.

Até que ponto o incremento de novos futebolistas sul-americanos e africanos é capaz de potenciar um futebol mais disciplinado e exigente do ponto de vista táctico como aquele que era exibido pelo Dinamo nos finais da década de 90? Por mais milhões que se invistam em mercados estrangeiros para a vinda de jogadores de média/boa qualidade, importa reflectir se esses mesmos jogadores serão aquilo que os clubes de leste precisam para, em primeiro lugar, exibir um futebol de acordo com as suas características sociais e geográficas. Sem essa capacidade para interiorizar as suas próprias raízes “proletárias”, que podem reflectir um estilo de jogo mais disciplinado e de grande resistência física, será mais difícil aos clubes ucranianos e russos discutir com os clubes europeus de top. A vantagem do Dinamo de 1998/9 era a de que aquele grupo de bons jogadores, onde se incluíam Kaladze, Luzhny, Shevchenko e Rebrov, era orientado por um treinador cujo trabalho desenvolvido dava uma sequência lógica às suas raízes. Por outras palavras, o Dinamo foi uma equipa que assumiu a sua identidade.


Ênfase no jogo sem bola


Valery Lobanovsky considerava que o mais importante no futebol é aquilo que o jogador faz quando não tem a posse de bola. O Dinamo era um exemplo fantástico de uma equipa com coordenação táctica e disponibilidade física para correr durante o jogo inteiro. As transições rápidas estavam muitíssimo bem delineadas e havia um padrão de jogadas trabalhado ao pormenor.


A demolidora dupla atacante (Shevchenko e Rebrov)

Esta foi, indiscutivelmente, uma das melhores duplas de avançados dos últimos anos. Andrei Shevchenko e Sergei Rebrov tinham na sua velocidade, na mobilidade e na precisão do remate as suas grandes armas no momento ofensivo. Por vezes notava-se o pânico nos defesas adversários sempre que Shevchenko ou Rebrov aceleravam com a bola em direcção à grande área. Eram dois avançados perigosíssimos e com um entendimento perfeito entre si. Um podia receber no meio, enquanto o outro já se desmarcava a pedir a bola numa zona próxima – das alas para o meio, ou do meio para as alas, a mobilidade era constante. O resto da equipa do Dinamo jogava praticamente em função deles, tentando explorar a sua rapidez no meio-campo adversário. Contudo, além da excelente capacidade na finalização, os dois “irmãos gémeos” também participavam bastante no movimento defensivo colectivo da equipa. Se no momento em que a equipa tinha a posse de bola o Dinamo fazia campo grande e alargava o seu jogo às alas para que os avançados e médios de rotura conseguissem mais espaços de penetração nos últimos 30 metros, já quando o adversário tinha a bola os ucranianos sabiam encurtar o bloco em pouco tempo e defender à zona. Shevchenko fechava uma das alas e lutava para impedir os laterais de progredir por aquela faixa e, sempre que a equipa reconquistava a posse de bola, partia rapidamente para o ataque, progredindo com ela ou aproveitando um lançamento longo – inclusivamente do guarda-redes Shovkovsky, que optava muitas vezes por uma reposição rápida da bola.


A importância de Kossovsky e Belkevich na definição ofensiva

Se Shevchenko e Rebrov eram os dois avançados mais adiantados e os responsáveis pela grande maioria dos golos apontados pelo Dinamo, convém igualmente destacar o papel de dois outros jogadores: Vitaly Kossovsky e Valentin Belkevich. Kossovsky era um rápido médio-ala/extremo canhoto e imprimia uma dinâmica acentuada ao flanco esquerdo. O Dinamo era uma equipa que privilegiava as transições rápidas e este era um dos principais impulsionadores desse estilo de jogo veloz. Quando o adversário pressionava mais alto, um dos movimentos típicos de Kossovsky era o de receber a bola numa zona ligeiramente mais interior da linha do meio-campo, libertá-la rapidamente para um colega de equipa e fazer uma desmarcação junto ao flanco esquerdo – ou para arrastar um defesa consigo, ou para receber a bola mais perto da linha de fundo e efectuar um cruzamento.

São movimentos relativamente básicos, mas que eram sempre muito bem executados e que conseguiam que as defesas adversárias não se instalassem no meio-campo do Dinamo. Não era fácil exercer domínio de jogo sobre os ucranianos porque havia processos muito bem assimilados para sair de situações de pressão, já para não falar nos cuidados que o adversário tinha de ter para prevenir situações defensivas de igualdade numérica frente a Rebrov e Shevchenko. Kossovsky tinha essa utilidade no conjunto de Lobanovsky porque acelerava e ao mesmo tempo dava amplitude ofensiva à equipa. Além disso, era muito esforçado a recuperar.

O bielorusso Valentin Belkevich era um médio com características diferentes das de Kossovsky. Era um jogador com mais participação no corredor central, passada elegante, visão e um trato de bola muito desenvolvido. Servia frequentemente de apoio aos colegas, dando uma linha de passe, ou fazendo uma desmarcação para distrair um adversário e permitir que um colega seu pudesse continuar a progredir com a bola. Embora exercesse o seu jogo quase sempre numa posição-base mais central, tinha de cair junto aos flancos para dar os tais apoios e, assim, oferecer uma melhor sustentação às transições ofensivas. Tinha, portanto, uma área de jogo alargada. Com vários movimentos de 2v1 com Kossovsky junto ao flanco esquerdo, permitia que Shevchenko e Rebrov, por exemplo, actuassem próximos da zona de finalização. Por outro lado, também era capaz de fazer o mesmo nas alturas em que Luzhny subia pelo lado direito. Até chegar à “linha dos 30 metros”, e sempre que não havia possibilidade de colocar logo as bolas directamente nos avançados, o Dinamo jogava pelas alas. Só depois de chegar à tal fronteira dos 30 metros é que, então, se iniciavam movimentos de fora para dentro.

Embora não abdicasse da colaboração no trabalho defensivo, Belkevich não era particularmente eficaz na cobertura da zona. Destacava-se naquilo que era a sua especialidade: no lançamento dos avançados com notória qualidade no último passe e na condução de bola.


Flexibilidade táctica dos defesas-centrais (Vaschuk e Holovko)

Um dos aspectos mais interessantes deste Dinamo Kiev era a flexibilidade táctica dos seus jogadores no posicionamento defensivo. Vladyslav Vaschuk e Oleksandr Holovko eram dois defesas-centrais que se complementavam muito bem no plano táctico. Vaschuk saía muitas vezes da zona grande área para zonas exteriores de modo a defender o adversário em superioridade numérica com Husin, Khatskevitch, Kaladze ou Luzhny, conforme a situação. Toda esta articulação só era possível com uma notável capacidade de leitura de jogo e, nesse aspecto, tanto Vaschuk, como Holovko, revelaram enorme categoria. Holovko era um pouco mais lento do que Vaschuk e ficava mais atento às dobras, em funções semelhantes às de um líbero. Além de ser muito alto, tinha um timing de desarme fantástico e interpretava os movimentos colectivos com sabedoria. Porém, não conseguiu travar Jancker no terceiro golo do Bayern, na 1.mão da meia-final em Kiev, por evidente falta de músculo.


Os dois médios de cobertura (Husin e Khatskevitch)

Quando o adversário tinha o bloco baixo e não permitia que o Dinamo lançasse longo para Shevchenko e Rebrov, a bola circulava algum tempo na linha mais recuada da equipa antes de ser colocada numa das alas para que depois o movimento ofensivo adquirisse uma nova velocidade. Para simplificar este processo, eram os dois médios-centro Andrei Husin e Olexandr Khatskevitch que se adiantavam lentamente no eixo para permitir a subida da linha defensiva. O canhoto Husin e Khatskevitch eram jogadores bastante fortes fisicamente, mas sem técnica para progredir com a bola controlada, ou para gerir o meio-campo com troca de bola. Para se ajudarem um ao outro, faziam um triângulo curto, muito próximos de Belkevich, que já tinha outra qualidade no controlo de bola e no passe. Na fase defensiva, tinham a responsabilidade de fechar aquela zona do terreno com um pressing agressivo, mas também com atenção às movimentações dos colegas. Principalmente quando Vaschuk saía do centro da defesa para ajudar um dos laterais e isso forçava a que um dos médios-centro, Husin na maior parte das vezes, recuasse para uma área próxima de Holovko. Por outro lado, o outro bielorusso da equipa, Khatskevitch, que jogava mais inclinado sobre o lado direito, compensava muitas vezes as subidas do capitão Oleg Luzhny.


Movimentos dos defesas-laterais (Luzhny e Kaladze)

Geralmente, o Dinamo defendia muito compacto quando o adversário tinha a posse de bola. Quando havia necessidade de defender mais baixo, Luzhny e Kaladze jogavam muito próximos dos defesas-centrais e essa era outra das situações em que mais se verificava a entreajuda dos restantes colegas. No lado direito, Khatskevitch ou mesmo Shevchenko colmatavam a deslocação de Luzhny para a zona interior, enquanto no lado esquerdo Kossovsky poderia substituir temporariamente o georgiano quando este tinha de defender mais por dentro. Kakha Kaladze, aliás, já demonstrava bem a sua qualidade no 1v1 defensivo e raramente deixava que alguém o ultrapassasse. Comparativamente com Kaladze, Luzhny tinha funções mais ofensivas e tentava mais vezes os cruzamentos para a grande área, uma vez que não havia um médio-ala no flanco direito como havia no lado esquerdo (Kossovsky). Ocasionalmente, Kaladze passava a linha do meio-campo para ajudar Kossovsky, mas não era uma situação muito frequente. Por outro lado, Kaladze também preenchia os espaços vazios no meio-campo defensivo deixados por Husin. Essa assimetria estava bem engendrada, mas era extremamente difícil garantir eficácia em todos estes constantes desdobramentos defensivos, que provocavam um desgaste físico e mental mais acentuado do que o habitual. Os jogadores do Dinamo foram respondendo muito bem na medida do possível, mas o vício em alinhar com o bloco recuado para depois explorar a velocidade dos avançados acabava por ser o ponto fraco mais visível da equipa - ironicamente, esse recuo podia fragilizar um pouco a consistência da defesa, sempre sujeita a vários ataques do adversário e a cansativos desdobramentos tácticos.


Eliminados pelo Bayern na meia-final

O Dinamo disputou a fase de grupos com Arsenal, Panathinaikos e Lens e terminou em primeiro lugar, ganhando o direito a confrontar o campeão em título, Real Madrid, nos 1/4 de final. John Toshack perdeu o duelo com Lobanovsky, que depois encontrou o Bayern de Ottmar Hitzfeld nas meias-finais. O Dinamo acabou eliminado pelos bávaros. Depois de um empate a 3-3 em Kiev frente ao Bayern, a formação de Lobanovsky perdeu em Munique por 1-0, com um golo espectacular apontado por Mario Basler. Os ucranianos perderam, assim, uma grande oportunidade de estar na final da maior competição de clubes do mundo, que, nessa temporada, foi ganha pelo Manchester United na dramática final de Camp Nou, precisamente frente ao Bayern. No ano anterior, o Dinamo foi eliminado pela Juventus nos quartos-de-final, mas já tinham deixado a sua marca ao terem vencido em Barcelona por 0-4, naquela que foi uma das melhores exibições de Shevchenko e, ao mesmo tempo, uma das piores noites da carreira de Vítor Baía.


Resultados do Dinamo na LC de 1998/9:

Fase de grupos:
Panathinaikos – Dinamo Kiev (2-1)
Dinamo Kiev – Lens (1-1)
Arsenal – Dinamo Kiev (1-1)
Dinamo Kiev – Arsenal (3-1)
Dinamo Kiev – Panathinaikos (2-1)
Lens – Dinamo Kiev (1-3)

1/4 de final:
Real Madrid – Dinamo Kiev (1-1)
Dinamo Kiev – Real Madrid (2-0)

1/2 de final:
Dinamo Kiev – Bayern (3-3)
Bayern – Dinamo Kiev (1-0)


Luís Catarino


» 2007-12-23
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