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O campeão de Bamako


No contexto mundial, poucos médios terão tanta qualidade de marcação e desarme como Seydou Keita. Tanto ele como Christian Poulsen formam, em Sevilha, uma das duplas de médios-centro mais combativas do futebol europeu de top. Atendendo às características de ambos, é legítimo que se problematize a questão da elasticidade táctica da equipa. Porém, quanto a esse assunto, a fórmula de sucesso encontra-se, em grande parte, nos pés de Frédéric Kanouté, um gigantesco avançado com pinta de defesa-central, mas que toca a bola com especial suavidade. A classe e poder de decisão de Kanouté na distribuição nos últimos 35 metros, a definir o último passe para os extremos Diego Capel e Jesús Navas, bem como para o outro avançado-centro, Luís Fabiano, é a condição essencial para que o 4-4-2 do Sevilla funcione com propriedade.


A adrenalina de Diego Capel

Está para o futebol espanhol como Aaron Lennon para o futebol inglês. Ao contrário de Lennon, que joga preferencialmente no lado direito no Tottenham, Diego Capel é um extremo-esquerdo. Porém, ambos coincidem nas doses de adrenalina que injectam no jogo, procurando sempre confrontar o adversário com dribles rápidos. O actual treinador do Sevilla, Manolo Jiménez, já conhecia muito bem as suas características, pois Capel foi treinado por ele no Sevilla Atlético (equipa B do Sevilla) na época passada (campeões da 2.ªB e promovidos à “Segunda”), juntamente com o lateral José Crespo e o defesa-central argentino Federico Fazio, que começou a perder algum crédito depois dum erro cometido no jogo contra o Arsenal, em Londres.

De qualquer forma, a grande prova de Capel já tinha surgido no Verão passado, mais concretamente no Mundial sub20, no Canadá, onde foi um dos melhores jogadores da competição (ver aqui).

Com Capel e Navas a conferirem largura e profundidade pelos flancos e não sendo jogadores com peso no papel defensivo (ainda assim Capel é superior a Navas nesse domínio), é importante que, em 4-4-2, os dois médios-centro actuem bem próximos entre si e que dêem músculo àquela zona do campo. Poulsen já é conhecido por ser um óptimo marcador, mas a equipa ficou muito mais bem preparada em termos de capacidade física, de marcação da zona e de recuperação com a vinda do esquerdino Seydou Keita. O antigo capitão do Lens, outrora dispensado do Marselha (1999/00; treinadores eram Roland Courbis e Bernard Casoni) e prestes a completar 28 anos, consegue também ter mais iniciativa que, por exemplo, José Martí no momento em que a equipa transita para o ataque. Não se faz notar tanto na condução, mas antes com boas incisões sem bola (Poulsen sempre mais recuado, a fechar as subidas de Daniel Alves, que é muito mais ofensivo que Dragutinovic), aparecendo em zona frontal à grande área do adversário. Tem um óptimo remate de meia-distância, mas aquilo que impressiona no seu futebol é a sua liderança, o carácter, a resistência física e a alma de guerreiro que persiste durante todo um encontro.


Sobrinho de Salif Keita

Um dado curioso sobre Seydou Keita é o facto de ser sobrinho de Salif ‘Domingo’ Keita, um dos maiores jogadores africanos de sempre e que passou pelo Sporting nos finais da década de 70, já numa fase mais descendente da carreira. Nascido em Bamako, no Mali, tal como o sobrinho Seydou, o antigo médio-ofensivo/avançado Salif Keita é um dos mais emblemáticos jogadores da história do St. Étienne. No período em que esteve nos Verts (de 67 a 72), foi três vezes campeão nacional e foi o primeiro jogador a conquistar a Bola d’Ouro Africana, em 1970, troféu atribuído pela France Football.

O seu impacto na história do St. Étienne é tão grande que o clube chegou a ter durante algum tempo no seu símbolo uma pantera, precisamente em homenagem a Salif Keita. Transferiu-se depois para o Marselha (fez dupla com o grande goleador Josip Skoblar) e actuou no Valencia durante três temporadas. Salif Keita representou o Sporting por igual período, tendo conquistado uma Taça de Portugal em 1978 numa finalíssima frente ao Porto – no primeiro jogo da (violenta) final registara-se um empate a 1-1 (Fernando Gomes marcou para o Porto e Menezes para o Sporting). O treinador do clube de Alvalade era Rodrigues Dias e os leões venceram por 2-1 no Jamor, com golos de Vítor Gomes e de Manuel Fernandes. O golo dos campeões nacionais, então orientados por José Maria Pedroto, foi apontado por Seninho. Actualmente, Salif Keita é presidente da Federação Maliana de Futebol.


















(O legado de Salif Keita: Gomis comemora um golo imitando uma pantera)


Luís Catarino

» 2008-01-08
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