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O Arsenal pós-Henry


Após vários anos a jogar em função de Thierry Henry, o Arsenal é hoje uma equipa perfeitamente equilibrada, não mostrando sinais de fragilidade ofensiva face à saída daquele que era, indiscutivelmente, o melhor avançado-centro dos Gunners. O mérito dessa extraordinária capacidade de compensação pertence, quase exclusivamente, ao seu treinador, Arsène Wenger.


Adebayor – o novo desafio de Wenger

Quando Henry chegou a Londres, vindo de Turim, em 1999, Wenger começou a desenvolver um trabalho de adaptação do jogador à posição de avançado-centro, pois tanto no Mónaco, como na Juventus, actuava predominantemente como extremo-esquerdo. Essa adaptação teve resultados bem evidentes, como se sabe.

Actualmente, por consequência da transferência de Henry para Barcelona, um dos principais desafios do técnico francês é o desenvolvimento e enquadramento de Emmanuel Adebayor na dinâmica ofensiva do Arsenal. O avançado tem vindo a registar uma evolução bem favorável ao nível da ocupação dos espaços, mas o capítulo onde podemos observar uma notória supremacia perante os defesas adversários caracteriza-se pela perfeição com que retém a bola e como vence no jogo aéreo. Na verdade, o mérito de Wenger esteve em apurar esses detalhes onde o jogador já era forte, como bem víamos nos seus desempenhos pelo Mónaco, sob orientação de Didier Deschamps, e não tanto no período de Francesco Guidolin, com quem manteve uma relação difícil no clube monegasco.

Vendo os últimos jogos do Arsenal, é fácil constatar onde estão os pontos críticos de Emmanuel Adebayor. Quanto a uma eventual falta de explosão, pouco haverá a fazer. No entanto, em relação à velocidade e clareza com que define/finaliza com a bola nos pés nos últimos metros, ainda existe uma margem considerável que poderá e deverá ser trabalhada. Wenger tem feito igualmente uma tentativa de reduzir a faceta temperamental do avançado, que lhe tem dado alguns problemas durante a ainda curta carreira.

Não sendo um jogador que possa resolver tudo sozinho, como Henry, é um bom elemento para ter no ataque. Fundamentalmente porque sabe cada vez mais como melhor aplicar o seu poder físico e, até com deslocações para as alas, proporcionar o jogo mais rápido de Rosicky, Hleb, Van Persie, ou mesmo Eduardo da Silva. Este, comparativamente com Adebayor, tem menos capacidade para aguentar a posse de bola e esperar pelos companheiros. Contudo, o internacional croata (nascido no Brasil) tem, em contrapartida, mais corrida e frieza na finalização dentro da grande área.


A dinâmica de posse de bola nos últimos trinta metros

O Arsenal - sem um único jogador inglês - teve o controlo quase absoluto do jogo e o resultado de 3-0 frente ao Sevilla pode, de facto, exprimir a diferença de qualidade entre ambas as equipas na última noite de quarta-feira. Um dos pontos onde a formação inglesa conseguiu fazer a diferença de forma categórica foi na capacidade de desdobramento de Rosicky e Hleb porque, em posse de bola, movimentavam-se com grande rapidez no meio-campo adversário. Hleb, da direita para o meio, enquanto o checo, mais posicionado no lado interior esquerdo, participava nos ataques com mais roturas pelo corredor central até à grande área de Palop.

Movimento. Esta é a palavra-chave de qualquer esquema táctico, mas que constitui todo o sentido de existência deste Arsenal de Arsène Wenger. Enquanto Rosicky subia sem-bola até à grande área, Van Persie descia dez metros para tentar partir os adversários com a sua capacidade de aceleração com a bola controlada ou fazer situações de 2v1 com Adebayor, Hleb, ou com o próprio Rosicky, por exemplo. De salientar também as iniciativas do lateral-direito Bacary Sagna, que deu sempre largura ao desenho táctico do Arsenal para que as unidades criativas obtivessem mais linhas de passe nos últimos metros.


A clausura

Falámos de forma breve no modo como Rosicky e Hleb participaram na definição dos últimos trinta metros, mas vale a pena destacar os seus papéis no momento de clausura no seu meio-campo. Quando perdia a bola, o Arsenal agrupava rapidamente quatro médios alinhados à frente da linha mais defensiva. Daí que seja importante enfatizar a capacidade física destes dois médios que tanto atacaram activamente, como fecharam e perturbaram a fase de definição dos espanhóis. Principalmente porque tendo os mais defensivos Martí e Poulsen na zona central do 4-4-2, Kanouté teve dificuldades em ganhar o espaço central mais recuado, na zona de Flamini e Fàbregas. Assim, a equipa de Juande Ramos tentava atacar ainda mais pelos flancos, à imagem do que já fizera em épocas anteriores – situações onde se destacavam os defesas-laterais Daniel Alves ou Antonio Puerta, que, refira-se, era um excelente elemento na definição ofensiva, tanto como defesa-lateral, tanto como médio-ala.

Neste jogo, Diego Capel e Jesús Navas, este último com ajuda de Daniel Alves, tentaram resolver sobretudo por via de jogadas individuais, pois os apoios não chegavam facilmente nas zonas mais adiantadas. É precisamente por essa tendência do Sevilla em atacar pelos flancos – que, efectivamente, já não vem de hoje – que o trabalho de Rosicky e Hleb a pressionar o portador da bola e a fechar as linhas mais recuadas terá de ser mais valorizado no âmbito deste encontro.

Após a recuperação da posse de bola, tanto Tomas Rosicky como Alexander Hleb partiam rapidamente para o meio-campo adversário. Tendo em conta o estilo com que jogava em Estugarda há uns anos, Hleb – ambidestro fortíssimo na condução de bola e drible – é agora um jogador muito mais completo e adaptado às necessidades colectivas. É o tipo de craque que o Arsenal precisava para perfurar defesas desde a quebra de Ljungberg.

No início da segunda parte, Wenger substituiu Rosicky por Abou Diaby. O francês – titular como médio interior-esquerdo no último derby em White Hart Lane, frente ao Tottenham, no qual Adebayor marcou um golo espectacular – tem um poder físico tremendo e nota-se que tem potencial para evoluir porque possui uma boa técnica. No entanto, ainda é um jogador que precisa de mais regras e compenetração no que diz respeito ao posicionamento defensivo e na velocidade de execução sob pressão. Tem apenas 21 anos e é legítimo esperar por um jogador de qualidade inequívoca a médio/longo prazo. Após a substituição de Adebayor por cansaço, Diaby avançou alguns metros para ganhar bolas pelo ar, além de esticar a equipa pelo flanco esquerdo. Pelo lado direito, o velocíssimo Theo Walcott pode ser uma opção para os últimos trinta metros.

Destaque-se que, em comparação com o meio-campo do Sevilla (Martí e Poulsen), o do Arsenal teve, obviamente, mais capacidade para fazer a bola circular e adiantar o bloco. Nesse aspecto, juntando as várias funções que são exigidas a um jogador naquela zona, Cesc Fàbregas é cada vez mais essencial na estabilidade táctica do Arsenal. E Flamini joga com mais confiança, fazendo menos faltas.

Nos minutos finais, o antigo jogador do Chelsea, Lassana Diarra, substituiu Van Persie - ao contrário de Adebayor, a quem não estavam destinadas funções de pressing com maior grau de intensidade, o holandês pressionava o portador da bola em linhas mais recuadas - para fortalecer a zona defensiva ao lado de Flamini, com Cesc a fechar mais o lado direito, Hleb mais solto na zona central e (o destro) Diaby no lado esquerdo.


A linha mais recuada e o crescimento de Clichy

Muita atenção a Gaël Clichy. Este defesa-esquerdo francês tem crescido imenso nos últimos meses e é parte integrante do bom futebol que o Arsenal tem praticado neste início de 2007/8. Tem vindo a precipitar-se muito menos a encarar os lances divididos e tem uma agressividade que é difícil os adversários contrariarem. Além disso, possui um óptimo toque de bola, é rápido e sai a jogar com facilidade. Falta-lhe ainda alguma robustez muscular.

Face à lesão do capitão Gallas, e do castigo do suíço Senderos, foi Gilberto Silva que jogou ao lado de Kolo Touré no centro da defesa frente aos Spurs. Já contra o Sevilla, Senderos regressou, mas não deixou de manifestar os habituais problemas quando a bola está no chão. Nesta altura da sua carreira, já teria de revelar mais intimidade com a bola, pois compromete muitas vezes o trabalho de toda a defesa com algumas falhas disparatadas. Pelo contrário, Kolo Touré é cada vez mais líder na equipa. Vai ao meio-campo adversário com a bola controlada, domina o jogo aéreo e, tal como Sagna, tem uma resistência física impressionante. Kolo está presente em todos os momentos. Fáceis ou difíceis. É o pilar indiscutível da defesa dos Gunners que, ainda assim, necessita de William Gallas no lugar de Senderos. Gilberto Silva, possível alternativa para o centro da defesa, já perdeu alguma capacidade física para jogar ao mesmo nível durante 90 minutos.


Luís Catarino

» 2007-09-21
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