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O alien que podia ter sido gangster


Um dia perguntaram a Luís Figo qual tinha sido o melhor conselho que um treinador lhe havia dado. “Um bom jogador vê-se pela forma como faz sobressair os seus colegas de equipa”, recordou. Não será difícil verificar que, ao longo da carreira do antigo internacional português, esta regra foi levada muito a sério. Afinal de contas, trata-se de um líder nato que concilia essa capacidade de liderança com uma maturidade de jogo absolutamente formidável. Perto de cumprir 35 anos, conta pelos dedos os adversários que conseguem tirar-lhe a bola.

No entanto, este conselho que Figo recebeu em tempos é também um excelente ponto de partida para ilustrar o alien que, por acaso, até joga ao lado do português na Inter: Zlatan Ibrahimovic.

Há cerca de cinco anos que Ibrahimovic tem vindo a demonstrar que, mesmo tendo mais de 1.90m, é o avançado-centro com mais habilidade técnica no futebol mundial. As jogadas que assinou pelo Ajax foram suficientemente esclarecedoras sobre o seu gigantesco nível técnico. Mas foi em Itália que, obviamente, cresceu do ponto de vista táctico e da intensidade do treino. Percebendo que Ibrahimovic não tinha (e continua a não ter) o verdadeiro instinto de matador em frente à baliza, Fabio Capello, então treinador da Juventus, quis tirar o máximo proveito das suas extraordinárias recepções de bola e, a partir daí, criar jogo nos últimos trinta metros como falso ponta-de-lança. Enquanto o Ajax lhe fez crescer a ambição e desenvolveu ainda mais a sua técnica, o seu ingresso no futebol italiano ajudou-o a compreender melhor a sua própria mecânica e de que forma melhor poderia servir a equipa. Capello e Mancini – e também Lagerback – foram determinantes ao colocar o potencial de Ibra ao serviço da equipa; o número de assistências para golo na primeira época na Juventus comprova bem esse detalhe – 12 assistências e 16 golos na edição 2004/5 da liga italiana.


Estudar para ser gangster. Valeu o futebol

“O que teria feito se não fosse futebolista?” Dá para imaginar a quantidade de respostas possíveis caso se fizesse essa questão a vários jogadores. No entanto, nenhuma conseguiria ser tão especial quanto a que Zlatan Ibrahimovic uma vez concedeu: “Teria sido gangster!”

Com ou sem ironia, há que contextualizar minimamente a resposta. Ibra sabe perfeitamente que a imprensa o considera um jogador com um extremo mau feitio, daí que “gangster” tenha sido, naquele momento da entrevista, a tal segunda profissão de eleição do sueco. Mas esta fama tem razão de existir. E não só por algumas agressões e momentos de descontrolo nos campos de futebol.

Há antecedentes. Por exemplo, a directora da escola onde Ibrahimovic estudou na cidade sueca de Malmo lembrou, numa entrevista dada há uns anos a uma revista daquele país nórdico, que o actual jogador da Inter figura, garantidamente, no top-5 dos alunos mais indisciplinados que a sua escola já teve em mais de 30 anos. “Havia uma enorme diferença na sala de aula quando Zlatan estava e quando não estava. Por várias vezes ele passava-se da cabeça e tudo podia acontecer. Era um autêntico perigo e punha a turma numa grande tensão, pois toda a gente tinha medo dele. O seu futuro teria sido desastroso, se não tivesse sido o futebol”.


Rebeldia, potência e uma técnica do outro planeta

Roberto Mancini agradecerá todos os dias aos santos o facto de Ibrahimovic não ter enveredado por uma carreira de gangster, pois o sueco é, indiscutivelmente, o melhor jogador da Inter e tem sido absolutamente fundamental nos bons resultados do clube. Carrega os nerazzurri às costas e ainda encanta o Giuseppe Meazza com pormenores técnicos de outro planeta.

Gangsters à parte, o facto é que a rebeldia de Ibrahimovic tem resultados super produtivos no momento ofensivo das equipas onde joga. Nas situações em que nada se espera, a sua irreverência ajuda-o a ter confiança para executar um remate, um passe de calcanhar, ou um drible e decidir uma partida em poucos segundos. O guarda-redes benfiquista, Quim, ainda se deve recordar bem de um golo que sofreu no Estádio da Luz, quando Ibra ainda pertencia à Juve.

É um jogador que, para além da monstruosidade técnica, possui uma capacidade física impressionante. No último desafio com o Nápoles, reparem como conseguiu um último esforço para assistir Cruz no lance do primeiro golo.

Uma bola pelo ar, ou aos repelões, nunca constitui problema para a recepção. Aos 26 anos, é um avançado absolutamente único no futebol mundial. Esqueçam os preconceitos que envolvem o alegadamente soporífero Calcio e façam um esforço por absorver o perfume do futebol de Figo e Ibrahimovic. Depois de Ronaldo, este alien sueco é a mais bem conseguida tentativa de aproximação ao “Fenómeno”, como, aliás, fez questão de demonstrar há dias frente à Sampdoria. Na verdade, ignorar a qualidade de Ibrahimovic é um crime que nem o pior gangster cometeria.


Luís Catarino

» 2007-10-09
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