Liga dos Campeões
Notas do Roma - Sporting

Apesar da substituição prematura de Francesco Totti, o Sporting não foi capaz de encontrar o caminho certo para vencer, ou até para garantir o 1-1 no Olímpico. Além da evidente falha de marcação de Abel no lance do golo de Vucinic, houve, de facto, pormenores na equipa de Paulo Bento que não favoreceram o desempenho dos leões. Quais as consequências da ausência de Anderson Polga? A que distância estava esta Roma do seu verdadeiro potencial?
SportingTerá sido a ausência de Anderson Polga assim tão decisiva na derrota do Sporting?Bastante decisiva. A ausência de Anderson Polga (por lesão) teve várias implicações negativas na equipa do Sporting. Não só o centro da defesa ficou naturalmente mais debilitado, como também a mecânica ofensiva foi afectada.
As razões:1) Com a deslocação de Miguel Veloso da posição de médio-defensivo para defesa-central, o Sporting não conseguiu ser tão eficiente nas transições ofensivas. Isto porque o jogador que ficou com o papel habitualmente destinado a Veloso, João Moutinho, fez falta na posição de vértice-lateral do losango. Izmailov esteve muito preso ao flanco direito e não mostrou capacidade para se desmarcar e encontrar espaços de recepção – era muito importante que o Sporting tivesse conseguido dinamizar o seu flanco direito para provocar mais erros defensivos em David Pizarro. Essa incapacidade de Izmailov para se movimentar entre linhas dificultou as saídas com bola de Abel, que, perante a pressão dos romanos, foi muitas vezes forçado a efectuar passes precipitados para a frente. Como é lógico, um elevado número de perdas de bola teve origem nesse tipo de situações.
2) Só na segunda parte João Moutinho conseguiu assumir com mais propriedade o papel de pivot no meio-campo. Se é verdade que Izmailov não conferiu dinâmica suficiente ao lado direito, também foi notório que Moutinho se escondeu um pouco do jogo na fase de construção a meio-campo durante a primeira parte. No segundo tempo, então, tentou dar mais apoios a Ronny e Abel para que os ataques se iniciassem com mais ponderação.
3) Ainda em relação a Miguel Veloso, parece consensual que teria dado um melhor contributo como médio-defensivo. A sua clarividência na organização, com bom critério no passe, teria sido importante para acalmar o jogo do Sporting. E, tal como foi dito acima, a sua presença no meio-campo teria possibilitado a João Moutinho actuar no vértice lateral do losango e garantir mais inteligência nos movimentos ofensivos colectivos. Juntando a lesão de Totti às ausências de Aquilani e Perrotta, o jogo da Roma perdeu grande parte das suas bases e da sua identidade. O problema do Sporting é que também teve alterações na base do seu meio-campo. Assim, o Sporting, em vez de ter tirado mais proveito da quebra de rotinas dos giallorossi, acabou por diminuir a vantagem que, em teoria, tinha sobre os italianos.
4) Se Gladstone tivesse entrado directamente no onze, não teria havido necessidade de fazer tantas alterações e Miguel Veloso escusava de ter deixado o meio-campo para se deslocar para defesa-central. No entanto, o desempenho pouco convincente de Gladstone contra o Fátima terá contribuído para o facto de Paulo Bento não lhe ter confiado a titularidade.
A mediania de Yannick Djaló e o contraste com RomagnoliYannick Djaló é o caso paradigmático do jogador que tem corrida e que ainda não sabe muito bem o que fazer com ela. O jogo com a Roma era de um elevado grau de dificuldade e só reforçou a ideia prévia que já havia sobre Djaló – tem de ser mais rápido a ler e a entender o jogo para se movimentar e tomar decisões correctas. Há, no fundo, um contraste notório com a qualidade do futebol de Leandro Romagnoli. É uma pena que o argentino não tenha mais resistência física para jogar os 90 minutos com um ritmo mais constante – seria, desta forma, ainda mais influente na definição de jogo do Sporting. Em Roma, mostrou o seu bom futebol, recuando para receber a bola e dando apoios em várias zonas do campo, e não tanto na execução do último passe, onde é igualmente bom. Possui um óptimo controlo de bola em velocidade e quando progride em aceleração torna-se difícil aos adversários tirarem-lha. Romagnoli é um dos elementos que mais sente a ausência de Derlei no ataque.
RomaJá era suficientemente mau para o treinador Luciano Spalletti não poder utilizar Alberto Aquilani, Simone Perrotta e Rodrigo Taddei. Porém, a substituição forçada de Francesco Totti, aos 35 minutos, obrigou a Roma a alterar substancialmente a sua forma de atacar a baliza adversária. Os italianos acabaram por sair vencedores, mas estiveram bastante longe do seu potencial máximo.
A necessidade de jogar com TottiA actual equipa da Roma é extremamente dependente de Francesco Totti. O capitão, 31 anos, é o jogador que faz mexer toda a estrutura atacante montada por Spalletti. Totti é o elemento mais adiantado do 4-2-3-1 e actua como falso ponta-de-lança e pivot distribuidor. Os movimentos típicos de ataque da Roma consistem em fazer recuar Totti no momento em que a sua equipa, em posse de bola, ultrapassa a linha do meio-campo.
Depois, o capitão demonstra a sua excelente capacidade de protecção de bola em zona central, recebe, espera que os médios do eixo e os alas executem as roturas e, com imaginação, define com um passe rápido, desmarcando os seus colegas na perfeição. É um jogador útil em lances de bola parada, mas a sua influência faz-se sentir sobretudo na segurança com que, ao sair da zona do ponta-de-lança, distribui, de costas para a baliza, a bola para os médios e alas que aparecem na grande área a finalizar.
As dificuldades frente ao SportingDevido a uma lesão no pé contraída aos 4 minutos, Totti arrastou-se mais meia-hora em campo, até que foi inevitavelmente substituído, por Mirko Vucinic. Desta forma, sem a influência de Totti no eixo, a Roma abandonou a sua orientação ofensiva habitual, apostando mais no futebol directo pelas alas para Vucinic e Giuly/Mancini explorarem as costas de Abel e Ronny. Ao plantel de Spalletti falta um ponta-de-lança com presença de área, que permita mais variações tácticas e menor quebra das rotinas previamente adquiridas.
Aquilani vs PizarroAlberto Aquilani foi uma das grandes ausências na Roma e a equipa italiana, desde que o jogador se lesionou em Old Trafford, tem vindo a perder consistência no meio-campo. Enquanto Aquilani (destro) se entendia muito bem com De Rossi e tinha capacidade técnica, táctica e física para interpretar o jogo de transições na linha média, já David Pizarro é consideravelmente pior jogador. Além de ser excessivamente baixo para jogar no meio-campo defensivo, não tem suficiente solidez nas marcações. O golo de Liedson, por exemplo, tem origem numa falha de marcação de Pizarro, que não acompanhou Abel no movimento de desmarcação pelo lado direito. Este foi só um de vários erros que Pizarro costuma cometer – com ou sem bola – e que inclusivamente já cometia no seu período na Inter. Em todos os aspectos de jogo, Aquilani é um jogador incomparavelmente superior a Pizarro: na variação do passe, na presença física para o desarme e na ocupação dos espaços, nas decisões e leitura de jogo e nos disparos frontais.
Menos equilíbrio com ausência de PerrottaSe Aquilani foi uma baixa importante, o mesmo se aplica a Simone Perrotta. Este é um dos tais médios que mais aproveita os recuos e lançamentos de Totti para aparecer nos espaços de finalização. Para mais, é um dos elementos que faz parte do triângulo do meio-campo de Spalletti, que inclui ainda Aquilani e De Rossi. Quando Aquilani se atrasa na recuperação da posição defensiva, De Rossi faz a dobra e Perrotta preenche a zona habitualmente ocupada por De Rossi. Ludovic Giuly, o substituto directo de Perrotta neste encontro com o Sporting, não é capaz de fazer o mesmo trabalho de equilíbrio, por falta de vocação táctica. Também por essa razão, e por Taddei não estar disponível, Spalletti colocou Cassetti – habitual defesa-direito, forte, e com um bom disparo de fora de área – no lado direito do meio-campo para poder cobrir alguns espaços deixados por Giuly, que joga para a frente e não tem aprumo defensivo. Na segunda parte, Cassetti também jogou algum tempo no lado esquerdo do meio-campo a ajudar Tonetto a defender esse flanco. Na lateral-direita, a experiência de Christian Panucci – muito superior a Cassetti e a Cicinho em termos de posicionamento e abordagem defensiva – anulou Vukcevic do princípio ao fim.
Nível suficienteA Roma venceu o jogo, mas houve uma fase de algum perigo, em que o Sporting, por volta dos 60 minutos, começou a acreditar que podia sair do Olímpico com a vitória no bolso. Miguel Veloso começava a subir mais vezes com a bola a partir da defesa para tentar fazer a diferença e os leões arriscaram, tanto que no golo de Vucinic (momento ideal para os romanos, aos 70 minutos) não havia ninguém a travar o contra-ataque da Roma no lado direito. Comparativamente com os verdadeiros candidatos ao título italiano, como a Inter, a Roma tem lacunas evidentes no plantel. Além disso, neste jogo, os giallorossi estiveram muito longe do seu verdadeiro potencial, revelando-se um conjunto muito mais desapoiado do que é habitual. Ainda assim, chegou para ganhar a um Sporting que, face à ausência de Polga, alterou grande parte da sua estrutura e não evitou uma demonstração relativamente mediana das suas capacidades. Para ganhar no Olímpico, exige-se uma maior qualidade a nível geral do que aquela que a equipa portuguesa registou.
Luís Catarino
» 2007-10-24